Contrastes entre o Brasil, a China e a Alemanha em dois filmes
- Por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
- 26/09/2020
- Tempo de leitura 5 minutos
No domingo (27), dois filmes fornecem material para reflexão sobre os contrastes entre o Brasil e a China (A Ponte de Bambu) e o Brasil e a Alemanha (Volkswagen – Operários na Alemanha e no Brasil). Confira os detalhes abaixo:
COMPETIÇÃO BRASILEIRA
A Ponte de Bambu
A amizade entre o diretor, Marcelo Machado, e o jornalista Jayme Martins serve como mediadora da estrutura e da narrativa do documentário A ponte de bambu, que faz uma visita inusitada à China pelos olhos do entrevistado, que morou com sua família no país asiático por mais de duas década. Ele foi para lá no começo dos anos de 1960 e, desde então, entre idas e vindas sempre esteve em contato com país. Jayme é aquele que pode se chamar de um entusiasta da China, vendo-a com uma grande potência em ascensão.
Ele e sua mulher contam da surpresa que tiveram ao chegar lá, pois era descrito como um país atrasado, mas encontraram um lugar repleto de modernidade e beleza. As filhas cresceram falando chinês. A família, ao longo dos anos, documentou sua vida na China, com fotos e gravações de áudio.
As memórias da Revolução Cultural são vívidas, e o relato da família nos dá uma dimensão do que foi aquilo. Jayme explica que aderiu rapidamente e, com outros estrangeiros, chegou a constituir um Regimento Rebelde Revolucionário Internacionalista. Mais do que a transformação do país, a revolução também trouxe uma mudança na família. O jornalista tinha ideias radicais – era contra qualquer resquício de imperialismo (até chiclete ele achava demais), pediu para diminuir seu salário de modo de se equiparar ao dos chineses, entre outras coisas – o que trouxe problemas para dentro de casa.
A vida era sempre de incertezas: poderiam voltar para o Brasil? Como seria a reação das duas filhas, que nunca estiveram no país natal de seus pais, ao chegarem aqui? É aqui, após o retorno dos Martins que a vida do diretor e de Jayme se cruzam, quando se conheceram nos anos de 1980, numa festa. Machado conta que seu sogro veio para cá depois de lutar contra os comunistas, mas eles dois nunca conversavam sobre política. Com o jornalista Martins, o cineasta encontra um espaço aberto para matar sua curiosidade.
As idas e vindas no tempo, ao longo do filme, a partir de entrevistas com os Martins, às vezes, confundem um pouco. Mas o relato, em especial das filhas, que estudaram em Pequim, recompensa isso. São memórias ricas e reveladoras, contadas em primeira pessoa, de quem estava presenciando momentos históricos, como o massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989, cuja cobertura para a imprensa brasileira rendeu um prêmio ao jornalista.
Num momento em que a China é tão vilanizada no cenário internacional, especialmente no Brasil, A ponte de bambu traz um olhar pessoal e apaixonado pelo país – todos da família diziam que voltariam imediatamente a viver lá sem qualquer dúvida –, que joga uma luz sobre um lugar tantas vezes incompreendido pelo ocidente. (Alysson Oliveira)
A Ponte de Bambu
77 min, 2019
Sessões:
Domingo (27), 21h
Segunda (28), 15h
Debate do filme, mediado por Sergio Rizzo: segunda (28), 17h
Para assistir ao filme e ao debate, acesse o site:
www.etuverdade.com.br
www.etuverdade.com.br
EXIBIÇÕES ESPECIAIS
Volkswagen – Operários na Alemanha e no Brasil
O média-metragem assinado por Jorge Bodanzky e Wolf Gauer, de 1974, fornece um paralelo bastante eloquente das semelhanças e diferenças entre as vidas de dois operários da Volkswagen, um trabalhando em São Paulo, outro em Wolfsburg, então, respectivamente, as maiores fábricas da empresa na América Latina e na Europa.
Muitas similaridades aproximam estes dois trabalhadores, Heinrat Ludwig e Manoel Silveira, ambos provedores únicos de suas famílias. O agravante, no caso de Silveira, é que ele sustenta não só mulher e filhos, como Ludwig, mas também vários outros parentes.
Por este motivo, não surpreende que uma grande preocupação em comum seja a perda do emprego. Os dois são sindicalizados, mas a maneira como encaram isto é bem distinta - o alemão tem clara a necessidade de ser representado numa negociação salarial, enquanto o brasileiro enxerga no sindicato mais o aspecto assistencialista. O contraste de contexto sóciocultural fala por si nestes dados.
Além da diferença salarial - naquele momento, o operário brasileiro ganhava o equivalente um terço do salário do alemão, calculado em marcos (moeda da época) -, outra desvantagem evidente para Silveira surge na comparação da moradia dos dois. A casa do brasileiro é muito mais precária, retratando um problema que, mais de 40 anos depois, continua irresolvido.
O operário alemão vai trabalhar de carro, revezando o veículo com dois amigos, seus colegas. Enquanto isso, o brasileiro leva pelo menos uma hora para chegar à fábrica, de ônibus. Heinrat tem momentos de lazer com o filho, enquanto Silveira se desdobra em horas extras.
Na fábrica brasileira, não se vêem mulheres na linha de montagem, ao contrário da unidade alemã, evidenciando, também, a diferença na questão de gênero nos dois países, quatro décadas atrás.
Tudo isto e muito mais emerge da simples exposição das duas situações, num documentário observacional, o mais neutro possível no tom. Mas a história social de cada país está contida em cada imagem, como testemunho de uma época. (Neusa Barbosa)
Volkswagen – Operários na Alemanha e no Brasil
28 min, 1974
Disponível no site do Itaú Cultural até 5 de outubro, 9h
www.itaucultural.org.br/tudo-verdade
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