05/06/2026

Um olho na música, outro na política

No terceiro dia das sessões competitivas no Festival É Tudo Verdade, os temas se dividem entre os ídolos pop da banda Paralamas do Sucesso, retratados no documentário de Roberto Berliner e Paschoal Samora, e a investigação do clima ufanista e ilusório que levou a Argentina ao desastre da guerra das Malvinas, focalizado em 1982, de Lucas Gallo. Filmes e debates podem ser assistidos gratuitamente online no site do festival: www.etudoverdade.com.br

COMPETIÇÃO BRASILEIRA

Os Quatro Paralamas
Já nos primeiros momentos do documentário, um de seus diretores, Roberto Berliner, deixa claro que esse é um filme pessoal: desde a primeira vez que viu a banda, no Circo Voador, em 1983, filma-os, na suas palavras, do jeito que pode. E desde então, “uma coisa não mudou: eles fazem música, e eu e meus amigos fazemos filmes.” Com quase 40 anos de imagens de arquivo, o longa (codirigido por Paschoal Samora) é uma viagem no tempo, recuperando não apenas a história da banda, como a do país sob um ponto de vista.

Berliner, que é amigo dos membros da banda, já havia feito, em 2009, Herbert de Perto, sobre a obra e a vida do vocalista dos Paralamas. Agora, o foco se abre. Recuperar a história do grupo é dar chance a percepções de seus membros sobre sua própria história, conforme confessa o próprio Herbert Vianna: “Eu estava ouvindo nosso primeiro disco, de 1983, e percebo que a temática das canções vem mudando, vem ficando proporcional não só à idade, à experiência, à passagem do tempo e a tudo aquilo a que a gente foi exposto”.

Nesse mergulho do passado, vem à tona fotos antigas, imagens desgastadas com som nem sempre perfeito, mas com uma potência da música dos Paralamas, seja com sua alegria ou crítica social. Porém, este também não deixa de ser um filme para fãs da banda. Rico em seu material de arquivo e entrevistas, o documentário nem sempre consegue romper essa limitação, mas, verdade seja dita, nem é seu propósito.

Os diretores pretendem fazer, e fazem, uma celebração dos Paralamas do Sucesso, sua música e seu papel na história da cultura nacional. Embora Berliner não volte mais a narrar o longa, como no começo, é sempre bom lembrar que é um filme de memória afetiva, por isso, tais excessos podem ser até desculpados. (Alysson Oliveira)

Os Quatro Paralamas
99 min, 2020
Sessões:
Sábado (26), 21h
Domingo (27), 15h
Debate do filme com equipe e mediação de Neusa Barbosa: domingo (27), 17h
Para assistir ao filme e ao debate, acesse o site: www.etuverdade.com.br

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

1982
Se numa guerra a primeira vítima é a verdade, segundo a célebre frase atribuída ao senador norte-americano Hiram Johnson, não resta dúvida de que este falseamento da realidade jamais pode acontecer sem um decisivo engajamento de ao menos parte da imprensa - o que nada mais é do que a descrição da criação das hoje famosas fake news.
Um retrato cristalino de um processo destes, com as consequências mais desastrosas possíveis, emerge em 1982, o documentário de Lucas Gallo que se debruça sobre precioso material de arquivo dos noticiários de uma emissora de tv, a Argentina Televisa Color, para sustentar o discurso ufanista e fantasioso que visava produzir o apoio do povo argentino à desastrosa decisão do então presidente, general Leopoldo Galtieri, de invadir as Ilhas Falkland, há 149 anos em poder dos ingleses. Membro da Junta Militar que governava a Argentina, seis anos após a instalação da ditadura, Galtieri reapropriava-se de uma antiga reivindicação argentina sobre um território que lhe pertencera brevemente no século XIX, após a independência da Espanha.

O filme expõe a face diversionista que a ditadura usou naquele momento para distrair o país da repressão, das mortes e desaparecimentos que ocorriam aos milhares, insuflando no povo argentino um orgulho nacionalista, como se fizera, aliás, na Copa do Mundo de 1978.

Os noticiários, em que locutores editorializam cada palavra e cada imagem, falam por si, mostrando como se procurava construir na população a ideia de que ali se travava uma guerra quase santa, em defesa de um orgulho argentino ferido pelas antigas iniciativas imperialistas inglesas (e aqui há um fundo de verdade). Além do mais, maquia-se a real força militar argentina para realizar uma invasão para resolver o conflito com os ingleses. Procura-se criar a ilusão de que as tropas estavam preparadas e que havia arsenal bélico suficiente, criando-se na tv o melhor dos mundos, povoado de soldados bem-nutridos, convencidos de sua missão sagrada, heroicos.

Do lado de cá do Atlântico, a emissora argentina lidera uma campanha de levantamento de fundos - o Fundo Patriótico para as Malvinas - que mobiliza cidadãos de toda parte à doação de dinheiro e bens para leilões, da qual não escapam nem mesmo figuras como os jogadores da seleção argentina, à frente deles, o ídolo Diego Maradona. A própria visita do Papa João Paulo II, que estivera antes com a rainha da Inglaterra, é instrumentalizada em prol do reforço ao sentimento de união nacional sagrada, abençoada.

A realidade, no entanto, não tardará a impor-se, com a rendição argentina e um saldo trágico de vidas inutilmente perdidas. Um conflito de 74 dias custou 907 delas, sendo 649 argentinos, sem contar as centenas de suicídios de veteranos ocorridos ao longo dos anos seguintes. Pelo menos impune Galtieri não ficou, sendo condenado por diversos crimes e morrendo em prisão domiciliar, em 2003. (Neusa Barbosa)

1982
Argentina/Brasil, 91 min, 2019

Sessão:
Sábado (26), 18h
Para assistir ao filme, acesse o site: www.etuverdade.com.br