É Tudo Verdade lança segunda fase com filmes em competição
- Por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
- 24/09/2020
- Tempo de leitura 4 minutos
Começa nesta quinta (24) a programação da segunda fase da 25ª. edição do É Tudo Verdade, Festival Internacional de Documentários, este ano inteiramente on-line, com acesso gratuito para todo o território nacional a partir do site do festival, tanto dos filmes quanto das atividades paralelas.
A Conferência Internacional do Documentário estará disponível na plataforma do Itaú Cultural, nos dias 23 e 24 de setembro, com links disponíveis também no site do festival.
Confira alguns dos principais destaques da programação de hoje:
COMPETIÇÃO BRASILEIRA
Meu Querido Supermercado
Em Meu Querido Supermercado, a documentarista Tali Yankelevich transforma uma loja de supermercado num pequeno microcosmos, investigando as dinâmicas que pautam as relações entre os funcionários e funcionárias do estabelecimento. É um filme altamente marcado pelo conteúdo humano, cada pessoa com suas histórias, sonhos e expectativas.
Há o filósofo do estoque, a vigilante que a tudo vigia (inclusive a filha que trabalha na mesma loja), o atendente com teorias (algumas conspiratórias), o padeiro que encontra lirismo no pão, entre tantos outros. É uma galeria colorida e muito bem articulada pela montagem, assinada pela diretora e por Marco Korodi, que equilibra depoimentos e imagens das pessoas cumprindo suas funções tão repetitivas, criando uma espécie de dinâmica na qual contar seus sonhos pode ser libertador e se torna o espaço do desejo dentro do filme e da vida dessas pessoas.
Como não poderia deixar de ser, o filme incorpora em si a estética do supermercado, com sua iluminação bem clara, prateleiras organizadas e o colorido atrativo de embalagens de produtos. Tudo isso contrasta, por exemplo, com os bastidores na sala onde uma segurança assiste às câmeras e passa instruções para os colegas. À noite, um período que pouco é mostrado no filme, diz alguém que o lugar é assombrado.
Um dos funcionários, uma espécie de “filósofo” do estoque, admite que acha “interessante” a ideia de Yankelevich fazer um filme sobre o supermercado e seus funcionários e funcionárias, “mas [como pode ser] diversão de alguém, que é o cinema... será?”, duvida da potência do projeto. A verdade é que ele parece ter se enganado, Meu querido supermercado é um filme bastante sério em sua investigação na dinâmica alienante do universo do trabalho, mas disso também a documentarista tira matéria de puro cinema, em seu olhar com carinho pelo material humano. (Alysson Oliveira)
Meu querido supermercado
Direção: Tali Yankelevich
80 min, 2019
Sessões:
Quinta (24), 21h
Sexta (25), 15h
Debate com equipe do filme, com mediação da crítica Neusa Barbosa: sexta (25), 17h
Para assistir ao filme e ao debate, acesse o site: www.etuverdade.com.br
COMPETIÇÃO INTERNACIONAL
Ficção Privada
O experiente cineasta argentino Andrés di Tella volta, mais uma vez em sua obra, a um retrato íntimo de família, desta vez debruçando-se sobre as cartas trocadas entre seus pais, o argentino Torcuato e a indiana Kamala, ao longo de cerca de 20 anos.
É fato singular nesta troca de correspondências muito pessoais que nem sempre os dois cônjuges estivessem em países diferentes no momento em que elas foram escritas - o que diz muito a respeito das dificuldades que seres humanos, mesmo aqueles que compartilham suas vidas, encontram para expressar os próprios sentimentos.
O elemento deflagrador do documentário Ficção Privada é a morte de Torcuato, não sem antes legar ao filho Andrés este precioso conjunto de cartas - diante das quais ele confessa sentir-se estranhamente intimidado, emocionado como se estivesse penetrando um território proibido, em que ele fosse intruso. Ao ler algumas delas, admite: ‘É doloroso”.
A delicada intensidade com que o cineasta constroi esta reflexão sobre um pedaço tão singular de sua história pessoal é um ponto alto. É digno de nota que ele também não se satisfaça em elucubrar apenas seus próprios pontos de vista a respeito desta relação entre os pais. Num determinado momento, compartilha parte do material com a filha adolescente, Lola. Em outros, escolhe algumas cartas para leituras de atores, pessoas não diretamente conectadas com Torcuato e Kamala e que, no entanto, também são tocadas a seu modo com as problemáticas e escolhas ali descritas.
Por todos estes recursos colocados à disposição dos espectadores, o documentário torna-se uma jornada dentro de temas tão vastos quanto a ficção que cada um de nós constrói em torno das figuras dos próprios pais - “reis no exílio”, na descrição perfeita de Sigmund Freud - e também nas singularidades do choque entre culturas diferentes, do qual Kamala e Torcuato foram símbolos expressivos.
(Neusa Barbosa)
(Neusa Barbosa)
Ficção Privada (Ficción Privada)
Argentina, 85 min, 2019
Sessão:
Quinta (24), 18h
Para assistir ao filme, acesse o site: www.etuverdade.com.br
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