21/09/2026

É Tudo Verdade encerra-se com documentário inédito "Wim Wenders, Desperado"

Aos 75 anos, parece uma boa hora para fazer um bom balanço de uma carreira. E a boa notícia é que o documentário Wim Wenders, Desperado, de Andreas Frege e Eric Fiedler, resistiu a qualquer tentação de uma elegia. A partir do título - que incorpora a precisa definição do ator Patrick Bauchau para este cineasta alemão, tranquilo e determinado, que assinou alguns dos maiores filmes dos últimos 50 anos.

Como diz o colega Werner Herzog logo no início: “É impossível pensar no cinema do século XX sem sua voz”. Nossa própria percepção do cinema e o documentário logo lhe darão razão. Está aqui o autor de clássicos incontestes, como Paris, Texas (1984), Asas do Desejo (1987) e Buena Vista Social Club (1999), aliás, sucessos comerciais, e também os instigantes O Estado das Coisas (1981), Estrela Solitária (2004) e Pina (2011).

Um recurso muito eficiente é levar o próprio Wenders a revisitar cenas icônicas de alguns de seus maiores filmes, em seus próprios cenários - caso do desértico Big Bend National Park que abrigou a busca de Travis (Harry Dean Stanton) em Paris, Texas, com direito ao uso da trilha lancinante de Ry Cooder, e da biblioteca que oferece uma das cenas incontornáveis de Asas do Desejo (aliás, a preferida de toda a carreira de Wenders na memória afetiva de Patrick Bauchau).

O próprio diretor fala de seu trabalho com o mesmo misto de engajamento e modéstia que o caracterizaram sempre. Ele conta como imaginou seus filmes, resgatando um processo ousado, de partir para a filmagem sem roteiros - caso de Paris, Texas e de todos os filmes que vieram antes, o que por si só dá a medida da audácia improvisadora com que se fazia cinema naqueles dias. Hoje não mais. E não é por outro motivo que, mais recentemente, Wenders passou a dedicar-se aos documentários, em que pode continuar a exercer a sua forma peculiar de liberdade artística, da qual é pedra fundamental não saber o que acontecerá ao final. Para ele, saber exatamente o desfecho de uma narrativa é “trapaça”. Este cineasta faz filmes pela aventura de não conhecer onde vai chegar, com todo o risco que isso implica. Por isso é que Bauchau o descreveu como um “desperado”, ou seja, alguém que salta no ar sem páraquedas, convencido de que sobreviverá.

Se essa filosofia de trabalho, que implica uma cumplicidade profunda de atores e técnicos, rendeu bons frutos em tantas ocasiões, algumas vezes também lhe rendeu fracassos - o mais famoso deles, Hammett (1982), que lhe custou um longo conflito com o produtor Francis Ford Coppola. Neste sentido, o documentário oferece uma clara visão da discordância que, naquele momento, colocou em campos opostos dois artistas de inegável vitalidade e talento. Hoje, eles dão suas versões com espíritos desarmados. Wenders conta que há muito tempo fizeram as pazes, o que dá para crer diante dos rasgados elogios que Coppola faz à sua “arte cinematográfica honesta acima de tudo”.

Diversas entrevistas completam o caleidoscópio, com declarações saborosas de sua mulher, a fotógrafa Donata, da cantora Patti Smith e atores como o citado Bauchau, Willem Dafoe, Andie McDowell, Dennis Hopper (num material de arquivo de 1986), Bruno Ganz (filmado em 2016). Harry Dean Stanton (outro arquivo), Tom Farrell e o diretor de fotografia Ed Lachman. Mas um dos momentos mais saborosos é quando se encontram Wenders e Herzog, dois velhos amigos que pouco se veem, e trocam confidências das mais curiosas, eles que foram classificados como integrantes de proa do Novo Cinema Alemão que galvanizou as atenções mundiais nos anos 1970. Eles riem também disso: “Nunca quisemos ser um grupo ou escola. Éramos muito diferentes”, pondera Herzog, com bastante razão.

O filme contempla a formação um tanto heterodoxa de Wenders, interessado pelo cinema desde garoto, quando conseguiu do pai uma câmera super-8, passando pelo desejo de ser pintor, morando em Paris - onde descobriu a Cinemateca Francesa e mudou de rumo -, sua permanente paixão pela música e a escola de cinema (em Munique) onde não lhe ensinaram a lidar com atores, como ele recorda numa conversa com a atriz Erika Pluhar, dentro de um bonde em Viena, como em seu filme de estreia, O medo do goleiro diante do pênalti (1972), em que ela atua.

O diretor fala também sobre sua fascinação juvenil com os EUA e sua reconciliação com o fato inevitável de ser alemão, o que acontece em Asas do Desejo, que ele define como “filme de repatriado”, representando, para ele, o que era a Alemanha. Curiosamente, um de seus filmes mais apreciados internacionalmente.

Pela qualidade dessas conversas e também das imagens que as emolduram, o documentário é uma aula de e sobre Wenders, que nenhum admirador pode se dar ao luxo de perder.

Originalmente selecionado pela seção Cannes Classics (na qual deveria ter tido sua première mundial, em maio, não fosse o cancelamento pela pandemia), o filme é exibido no encerramento do É Tudo Verdade pela primeira vez no continente americano. Seus diretores são o australiano Eric Fiedler (It Must Schwing: The Blue Note Story) e Andreas Frege – mais conhecido como Campino, vocalista da banda punk alemã Die Toten Hosen (de quem Wenders fez um vídeo em 2009).


SERVIÇO

É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários – 25ª Edição

SESSÃO DE ENCERRAMENTO
Dia 4/10, domingo
18h – Cerimônia de Premiação
20h – Filme de encerramento: Wim Wenders, Desperado
Direção: Eric Fiedler, Andreas Frege. 120 min. Alemanha, 2020
Classificação indicativa: 10 anos

Exibição pela plataforma do festival www.etudoverdade.com.br