05/06/2026

Histórias que merecem ser vistas à luz do dia

Duas mulheres resgatam histórias que são sistematicamente escondidas: uma no documentário brasileiro Fico te devendo uma carta sobre o Brasil, em que a diretora Carol Benjamin recupera a memória da prisão e tortura de seu pai, César Benjamin, aos 17 anos, e a luta de sua avó, Iramaya, para salvá-lo na ditadura militar; e, no documentário suíço-mexicano Silêncio de Rádio, de Juliana Fanjul, a protagonista é a repórter investigativa mexicana Carmen Aristegui, que não perde seu ímpeto apesar de uma demissão e ameaças de morte.

COMPETIÇÃO BRASILEIRA

Fico te devendo uma carta sobre o Brasil
Aqui está um relato altamente pessoal, uma história de como a ditadura militar entrou na casa da família Benjamin e os danos que causou a todos, em especial a Cesar, filho do meio e pai da diretora do longa, Carol Benjamin, que foi preso e torturado aos 17 anos. Esse é um documentário em primeira pessoa, de uma jovem mulher em busca da história de seu pai, que guardou todo o episódio naquilo que ela chama de Caixa Preta – como as de avião -, e com o longa ela quer abrir.

Transitando entre o Brasil e a Suécia, onde o pai se exiliou, Carol investiga uma história que lhe é cara, parte de sua vida, e também uma incógnita. O filme começa com ela mandando uma carta para o pai, que o questiona de maneira delicada, mas incisiva. A voz da diretora é doce e melancólica, mas segura. Assim ela se porta ao longo do filme, resgatando algo que lhe é importante e jogará luz na história de sua família. É necessária uma grande dose de coragem para se colocar em primeira pessoa num documentário deste tipo, e Carol faz isso com humildade, mostrando que é possível estar em cena e não capturar o filme para si, não se transformar no centro das atenções.

Há uma ressonância interessante entre Fico te devendo... e Diário de uma busca, no qual a diretora Flávia Castro tenta desvendar a morte de seu pai, Celso Afonso Gay de Castro. Em comum, os filmes têm o tema da ditadura, da prisão política, e as marcas deixadas na família. Carol resgata um longo depoimento público de sua avó, Iramaya Queiroz Benjamin, de 1999, em comemoração aos 20 anos da Anistia, e isso serve como um guia da construção do filme, assim como cartas trocadas por diversas pessoas ao longo de quase cinco décadas.

Iramaya aliás, é uma figura tão importante quanto o filho e a neta no longa. Sua luta pela liberdade de Cesar foi dura e, obviamente, a marcou e à família também. Por meio dela, Carol, que a define como “modelo de mãe”, descobriu a história do pai, que
se fechou em si, enquanto dona Maya “acabou se tornando um heroína ao contar e recontar seus grandes feitos.” César, por sua vez, foi contar a história na prisão pela primeira vez apenas à Comissão da Verdade, em 2012, num depoimento resgatado pelo filme.

Pessoas do passado, que unem pai e filha, surgem em entrevistas que traçam o contorno de uma história triste em busca de sentido, que será conferido ao longo do documentário. Carol é uma espécie de investigadora, cujo objeto da procura é desvendar uma história sobre sua família e seu país. Jogar luz na história dos Benjamin é também iluminar um momento obscuro do Brasil e o filme tem esse poder.

A montagem de Marília Moraes e Isabel Castro alterna passado e presente, sublinhando a relação entre como somos, como pessoas e país, a consequência daqueles que vieram antes, e, nesse sentido, o documentário transforma o pessoal, a jornada da diretora, em universal. A história de um jovem militante, encarcerado e torturado por mais de uma década, a luta de sua mãe pela sua liberdade, e a busca de sua filha por essa história falam ao mundo. (Alysson Oliveira)

Fico te devendo uma carta sobre o Brasil
88 min, 2019
Sessões:
Sexta (2), 21h
Sábado (3), 15h

Debate do filme: sábado (3), 17h
Mediadora: Neusa Barbosa
Participantes: Carol Benjamin (diretora), Marília Moraes (montadora), João Moreira Salles, Leandra Leal (produtores)
Para assistir ao filme e ao debate, acesse o site: www.etudoverdade.com.br

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

Silêncio de Rádio
Em tempos de fake news, nada mais importante do que o jornalismo investigativo corajoso. Neste ramo, poucos nomes soam mais relevantes no mundo do que a jornalista mexicana Carmen Aristegui, a personagem central de Silêncio de Rádio.

Não foi simples para a diretora Juliana Fanjul ganhar a confiança da veterana repórter, que já foi alvo de inúmeras ameaças de morte e protagonizou uma enorme batalha judicial depois de ser demitida da maior rádio mexicana, na qual comandava o programa de maior audiência, em março de 2015. O motivo da demissão - a revelação do escândalo da “Casa Branca”, como foi chamada a luxuosa mansão que o então presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, recebera em troca do favorecimento de um grupo empresarial na exploração de um complexo ferroviário. Aristegui recorreu até à Comissão Interamericana de Direitos Humanos quando o Supremo Tribunal mexicano se recusou a examinar seu pleito em prol da liberdade de expressão.

Reportagens como essa, com denúncias envolvendo a corrupta classe política mexicana, não raro envolvida até o pescoço com os poderosos carteis do narcotráfico, são comuns na vida de Aristegui - e, por conta delas, ela foi alvo de espionagem por parte do serviço secreto mexicano, que chegou a hackear seus celulares e de seu filho, Emilio, em 2017, quando ele era um adolescente e estudava numa escola nos EUA.

Privada de seu popular programa de rádio, que era a maior audiência da emissora, a jornalista usa seus próprios recursos para montar um site noticioso, contratando jornalistas que, igualmente, tornam-se alvo de ameaças. Como o documentário deixa perfeitamente claro, é muito arriscado ser jornalista no México. Nada menos de 100 repórteres foram assassinados no país em apenas 15 anos, engrossando as estatísticas de violência que contabilizam cerca de 43.000 desaparecidos na guerra dos cartéis - aí incluídos os 43 estudantes de Iguala, caso que Carmen foi uma das primeiras a cobrir, ainda na rádio.

Nada é mais eloquente do que sua calma quando diz que “o otimismo é quase uma obrigação moral, porque a alternativa é desistir”. Alternativa que nunca se coloca para a intrépida repórter, muito popular em seu país. (Neusa Barbosa)

Silêncio de rádio
80 min, 2019
Sessão:
Sexta (2), 18h
Para assistir ao filme, acesse: www.etudoverdade.com.br