Jovens militantes estudantis e um detetive da terceira idade
- Por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
- 29/09/2020
- Tempo de leitura 7 minutos
A militância estudantil dos Libelus, membros da conhecida “Liberdade e Luta”, é objeto do documentário de Diógenes Muniz, que entrevista diversos de seus antigos integrantes em Libelu - Abaixo a Ditadura. Uma situação inusitada de suspense num lar de idosos está no centro do filme chileno O Espião, de Maite Alberdi.
COMPETIÇÃO BRASILEIRA
Libelu – Abaixo a Ditadura
Definidos por Mino Carta como de jovens “elegantes, iconoclastas, bem-nutridos, talvez um tanto mal-humorados”, a trajetória dos militantes do grupo estudantil Libelu, Liberdade e Luta, é resgatada com verve e energia nesse documentário que reúne depoimentos de antigos membros, como José Arbex Junior, Cadão Volpato, Eduardo Giannetti, Laura Capriglione, Demétrio Magnoli, Reinaldo Azevedo, Eugenio Bucci, Antonio Palocci, Fernanda Pompeu, entre outros. As entrevistas foram gravadas num ambiente emblemático para o grupo: a FAU – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, da USP.
É por meio dessas narrativas pessoais que a história do grupo é resgatada no documentário Libelu – Abaixo a Ditadura, de Diógenes Muniz. Nessas entrevistas, surgem episódios inusitados sobre a formação e militância dessas pessoas nos anos de 1970. Capriglione, por exemplo, confessa que de tanto medo chegou a desmaiar numa reunião de grupo. Giannetti se diverte contando que era levado para encontros clandestinos vendado, mas um homem vendado num carro era ainda mais chamativo.
Para se ter uma ideia da repercussão do grupo, a Libelu conseguiu tanta fama que chegou a ser citada num diálogo numa novela. E também uma reportagem, resgatada no filme, que, de maneira jocosa, ensinava os jovens até a se vestirem como um militante. Diferente dos outros grupos estudantis da época, como definem os entrevistados, eles eram mais pop, faziam shows de rock, odiavam a “música fácil de protesto” (como “Pra não dizer que falei das flores”, de Geraldo Vandré) e a afinidade cultural era o que os unia – ouviam música brasileira e estrangeira e, assim, se definiam como internacionalistas.
Libelu era, segundo seus membros, o braço trotskista do movimento estudantil, reunindo estudantes de diversas faculdades da USP, abraçando para si vários grupos artísticos – como um com o nome criativo “Viajou sem passaporte”, que fazia intervenções ousadas. Com uma ótima pesquisa de arquivo, que intercala e ilustra os depoimentos, o documentário é capaz de dar a real dimensão e importância do grupo no movimento estudantil e sua contribuição para o fim da ditadura.
Ao trazer hoje, quase meio século depois, os Libelus olhando para trás, resgatando sua trajetória, o filme faz uma ponte entre passado e presente. Eles se questionam não apenas sobre seu envolvimento com o movimento estudantil, mas também com
uma autocrítica, olhando para os erros. O próprio documentário, por sua vez, não deixa de ter um viés crítico. Um exemplo claro é em relação à música de Vandré, que, conforme o longa mostra, é relevante e entoada como forma de protesto até hoje.
uma autocrítica, olhando para os erros. O próprio documentário, por sua vez, não deixa de ter um viés crítico. Um exemplo claro é em relação à música de Vandré, que, conforme o longa mostra, é relevante e entoada como forma de protesto até hoje.
Gianetti conta que um livreiro da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Raul, profetizou que, em alguns anos, todos aqueles líderes do grupo estariam escrevendo editoriais para a Folha, para o Estado de S. Paulo e a burguesia - não estava errado e eles têm noção disso. Mesmo sendo de esquerda, vários foram obrigados a trabalhar em empresas de direita, como na própria Globo. Mas nada disso, como também mostra o filme, desabona o que fizeram no passado e a importância dessas pessoas na história do país.
“Você contar a história de hoje para trás é fácil. Falar assim: “’Ah, a ditadura acabou muito fraca’. Mas, na época, você não tinha essa percepção”, confessa Capriglione. Essa é uma das falas mais emblemáticas do documentário, retomando o passado e refletindo o presente. É realmente curioso ver como os jovens revolucionários do passado se integraram ao sistema, mas, como eles e elas deixam claro, não haveria outra maneira de viver, de pagar as contas. Ainda assim, vários mantêm-se fieis aos seus ideais de esquerda, mesmo abandonando o trotskismo. (Alysson Oliveira)
Libelu – Abaixo a ditadura
95 min, 2020
Sessões:
Quarta (30), 21h
Quinta (1/10), 15h
Debate com equipe do filme e mediação de Neusa Barbosa: quinta (1), 17h
Para assistir ao filme e ao debate, acesse o site.
COMPETIÇÃO INTERNACIONAL
O Espião
O documentário assinado pela diretora chilena Maite Alberdi é inusitado desde o começo, partindo de um anúncio de jornal que requisita homens entre 80 e 90 anos, que saibam lidar com tecnologia e tenham disponibilidade para morar fora de casa por 3 meses.
Mais surpreendente do que essa faixa etária, é a missão que os empregadores pretendem entregar ao selecionado: espionagem das condições de um lar para idosos.
Por essa estranheza, não é difícil suspeitar de que estamos diante de alguma espécie de trapaça, ou pegadinha. Nada disso. O que se passa em O Espião é real, sobrepondo a investigação levada adiante por Sergio Chamy, 83 anos, e o próprio documentário, que o filma e aos demais moradores da casa de repouso, fornecendo uma visão de dentro de um ambiente quase sempre olhado com preconceito ou piedade.
Nada disso contamina, é certo, o olhar deste generoso octagenário, recém-viúvo, que enxerga neste trabalho inesperado uma oportunidade de sacudir a rotina, ainda que deixe preocupados seus filhos. Compenetrado, ele se apropria de seus materiais de trabalho, dignos de James Bond, como caneta e óculos dotados de mini-câmeras, e parte para uma observação atenta do lar - onde deve vigiar as condições de uma das residentes, cuja filha contratou a agência de detetives, suspeitando de maus-tratos à mãe.
Contornando as dificuldades para observar seu “alvo” - no jargão usado por seu chefe -, Sergio se enturma sem dificuldades. Num ambiente majoritariamente feminino - 40 mulheres, 4 homens -, ele se torna amigo,confidente e também objeto de desejo, particularmente de Berta, 85 anos.
Não raro, por sua empatia por pessoas que ele pode compreender muito bem, Sergio distrai-se um pouco de sua missão, ainda mais pela dificuldade de observar a mulher, que, com problemas motores, pouco sai de seu quarto. Sergio parece mais interessado em outras questões, como a solidão de todos ali - que, ao contrário dele, quase nunca recebem visitas ou têm parentes interessados neles.
Por conta da câmera atenta da documentarista, pode-se testemunhar a generosidade deste verdadeiro anjo da guarda da desmemoriada Rubira, da cleptomaníaca Marta e da poeta Petita - que, como Sergio, gosta de versinhos rimados. Em alguns momentos, também, pode-se sentir um relativo incômodo pela exposição destas pessoas - será que não estamos invadindo sua privacidade? De todo modo,esta invasão traz à tona algo que costuma não só estar escondido como ser desconsiderado, a invisibilidade social dos cidadãos idosos recolhidos em instituições. Por isso, é tão genuína a emoção de Sergio. (Neusa Barbosa)
O Espião
90 min, 2020
Sessão:
Quarta (30), 18h
Para assistir ao filme, acesse o site do É Tudo Verdade.
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