Fotos e filmes revelam o Brasil e o Afeganistão
- Por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
- 27/09/2020
- Tempo de leitura 5 minutos
O poder das imagens revela-se no documentário brasileiro Não Nasci para Deixar Meus Olhos Perderem Tempo, que expõe a prolífica carreira do fotógrafo Orlando Brito nos bastidores do poder, em Brasília, e na produção canadense O Rolo Proibido, que resgata a desconhecida história do cinema afegão e a luta para salvar seus arquivos das ameaças de destruição dos fundamentalistas Talebã.
COMPETIÇÃO BRASILEIRA
Não nasci para deixar meus olhos perderem tempo
Uma das primeiras coisas que o fotógrafo mineiro Orlando Brito conta neste documentário é ter feito imagens da fatídica noite do AI-5, em 13 de dezembro de 1968. Mas, como muita gente, ele não compreendeu a dimensão real o que estava acontecendo: “Eu não sabia que era possível fechar o Congresso.” E completa que só aquilo que tinha produzido naquela noite não era suficiente. Seguem então na tela imagens de sua poderosa produção, numa carreira de mais de meio século.
Há momentos marcantes nessa trajetória – como quando fotografou o general Ernesto Geisel caminhando na praia e, conforme define ele mesmo: “era o registro de um novo tempo”. A proximidade com figuras políticas e culturais, assim como seu senso estético, timing e perspicácia, renderam-lhe um registro da história do Brasil. E, conforme conta, muito foi questão de sorte, de estar no lugar certo, na hora certa e com “sua profissão carregada no pescoço”, pronto para bater uma foto.
O documentário de Claudio Moraes aproveitar muito bem o talento de Brito para contar histórias – seus episódios profissionais são vários e interessantes, como uma bela foto de João Cabral de Melo Neto, o encontro com Zé Kéti, ou quando visitou Dom Helder Câmara. Sobre seu método, explica que um fotógrafo ou um documentarista não deve criar imagens, mas deve descobri-las. No finais de semana, preferindo distanciar-se da Brasília do poder, onde mora, ele vai à periferia, onde faz fotos artísticas.
Em tempos tão obscuros, especialmente em termos de política, o olhar e o depoimento de Brito jogam uma luz de sensatez, aquela de quem acompanhou o poder de perto e, melhor do que os “leigos”, entende as maquinações políticas, graças ao seu acesso aos bastidores. Reviver a história do último meio século do país, por meio dos registros do protagonista, é uma montanha russa de alegrias e tristezas, é recordar poucas vitórias e muitas derrotas. E, apesar da estrutura simples, mas eficiente, Não nasci para deixar meus olhos perderem tempo mostra como Brito busca, conforme diz, “a boniteza dentro da notícia” e, a partir disso, construiu uma carreira impressionante. (Alysson Oliveira)
Não nasci para deixar meus olhos perderem tempo
72 min, 2019
Sessões:
Segunda (28), 21h
Terça (29), 15h
Debate do filme com equipe e mediação de Sergio Rizzo: terça (29), 17h
Para assistir ao filme e ao debate, acesse o site:
www.etuverdade.com.br
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COMPETIÇÃO INTERNACIONAL
O Rolo Proibido
País há décadas sacudido por guerras intermináveis e somente enxergado pelo resto do mundo por este viés de instabilidade política, o Afeganistão surge sob uma nova luz neste instigante documentário do diretor afegão-canadense Ariel Nasr, que desvela para o mundo uma ponta da particularidade cinematográfica da nação sul-asiática.
Governado sucessivamente por monarquias, atravessando uma revolução comunista (em 1978), invasões por tropas soviéticas e depois norte-americanas e disputado por facções mujahidin, o país sustentou, por décadas, uma expressiva produção cinematográfica, documental e de ficção, praticamente desconhecida no resto do mundo e que ficou guardada nos arquivos da Afghan Films, correndo o seu mais sério risco de destruição no período do obscurantismo Talebã., quando se cogitou queimar todo o precioso acervo.
O documentário resgata a fascinante história do cinema afegão a partir dos depoimentos de dois cineastas essenciais, Latif Ahmadi, mais conhecido como “engenheiro Latif”, devido à sua formação, e Siddiq Barmak, cujos caminhos se cruzaram e complementaram a partir dos anos 1970. Barmak, ao lado do cinegrafista Yusuf Jannesar, trazem consigo os relatos da inusitada produção cinematográfica do lado dos mujahidin, que, em plena guerra civil, sob a liderança do célebre comandante Massoud, mandam produzir documentários e também ficções que, a seu ver, têm relevância para que o povo se enxergue nas telas.
Talvez a história mais empolgante e inesperada seja a forma como foram salvos da destruição os preciosos rolos, únicos, abrigados na Afghan Films e condenados à morte por alguma obscura liderança Talebã. O episódio registra uma surpresa e também a peculiar resistência de funcionários do arquivo, verdadeiros herois em circunstâncias tremendamente arriscadas. O desafio de proteger esse tesouro, no entanto, ainda não está totalmente vencido, como lembra Mariam Ghani, filha do presidente afegão Ashraf Ghani, e protetora do arquivo. Nada está garantido enquanto a situação política permanecer instável na região.
De todo modo, O Rolo Proibido escreve um fascinante capítulo na história do cinema mundial, que se espera não seja perdido - está, aliás, em processo de digitalização. De modo oblíquo, mas pertinente, impossível não pensar nos riscos pendentes sobre o precioso acervo da Cinemateca Brasileira, diante do descaso dos obscurantistas de plantão. (Neusa Barbosa)
O Rolo Proibido
119 min, 2019
Sessão:
Segunda (28), 18h
Para assistir ao filme, acesse o site: www.etuverdade.com.br
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