Esses amores tão delicados
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 25/10/2021
- Tempo de leitura 10 minutos
Estreando na direção, a atriz Charlotte Gainsbourg faz um delicado retrato de sua mãe, a cantora Jane Birkin, em Jane por Charlotte. Também são atrações dois premiados em festivais de Berlim, o japonês Roda do Destino, de Ryusuke Hamaguchi, e o sul-coreano A mulher que fugiu, de Hong sang-soo.
Jane por Charlotte
Atriz conhecida por trabalhos com Lars von Trier, como Anticristo e Melancolia, Charlotte Gainsbourg expõe uma face mais pessoal com esta estreia na direção, em que realiza um documentário profundamente intimista com sua mãe, a cantora e atriz Jane Birkin.
Visivelmente, Charlotte lança-se a este encontro com a mãe sem um plano muito rígido, deixando rolar conversas em que as duas falam de um certo pudor uma diante da outra, de memórias de infância e sensações diante do fato de serem ambas filhas do meio.
Jane é uma presença espontânea e cativante sempre e desvela-se sem nenhuma preocupação em fazer pose ou disfarçar suas dúvidas e até culpas. Charlotte entra na mesma vibração, reforçando o toque familiar com a presença de uma de suas próprias filhas, Jo.
Os cenários incluem desde shows no Japão e Nova York, onde Jane canta com uma eventual participação de Charlotte no último, e também na ampla casa da cantora - marcada por uma assumida desordem permanente, já que Jane admite que nunca consegue jogar nada fora.
Uma visita emocional é à antiga casa onde a cantora morou por 12 anos com Serge Gainsbourg, cantor e compositor pai de Charlotte, que a filha transformou num museu e guarda ainda objetos pessoais de ambas - como vidros de perfume de Jane e retratos delas.
Memórias de Kate Barry, a filha mais velha de Jane, que morreu em 2013, também vêm à tona de uma forma natural, respeitando o ritmo da protagonista diante da evidente dificuldade diante do assunto..
A preocupação com a morte - Jane tem lutado há anos contra a leucemia - percorre também algumas das falas. E a narração final em off de Charlotte é uma delicada declaração de seus sentimentos diante da fragilidade da vida.
Este não é, certamente, um documentário de grandes revelações ou impacto, apenas o registro suave de alguns momentos entre mãe e filha que por acaso são duas artistas importantes. Mas o afeto que perpassa tudo compensa as hesitações da narrativa, que é bastante sincera. (Neusa Barbosa)
Disponível na plataforma Mostra Play e no cinema
Última sessão em cinema: Quinta (28/10) - Cinesala - 16h
Roda do Destino
Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim, esteé um drama que seu diretor e roteirista, o japonês Ryûsuke Hamaguchi, começou a rodar antes da pandemia. Foi filmando aos poucos, sem saber que o acontecimento global iria mudar os rumos de seu filme. Ele já tinha outro em pré-produção, Drive My Car (exibido em Cannes), mas teve de esperar para retomar o projeto, assim acabou terminando este.
Construído a partir de três curtas ligados apenas pelos temas, o longa compõe um retrato de mulheres que estão à procura de algo em suas vidas. O primeiro segmento, “Magia (ou algo menos seguro)”, tem como protagonista uma modelo, Meiko (Kotone Furukawa), que descobre sua melhor amiga e assistente, Tsugumi (Hyunri), namorando um sujeito com quem ela saia um ano atrás. Depois de deixar a outra em casa, resolve ir atrás do antigo namorado.
O título da segunda vinheta, “Porta bem aberta”, relaciona-se à atitude adotada por um professor universitário. Para que não haja nenhum mal-entendido em seu escritório, a porta está sempre aberta quando recebe alunos e alunas. Segawa (Kiyohiko Shibukawa). Sasaki (Shouma Kai) é um desses alunos que vai reclamar de sua nota, mas acaba humilhando pelo professor. Por isso, ele decide se vingar, com a ajuda da amiga Nao (Katsuki Mori), com quem mantém encontros sexuais esporádicos. O plano é que ela leia passagens eróticas do romance escrito pelo professor e que grave todo o encontro, assim, a partir dessa armadilha, poderá acusar Segawa de abuso. Mas a própria jovem não contava com o fato de que ela mesma iria se interessar pelo jovem.
Por fim, em “Mais uma vez”, Natsuko (Fusako Urabe) e Aya (Aoba Kawai), duas antigas colegas de escola, se reencontram por acaso e passam a tarde toda colocando a conversa em dia, até que algo inusitado vem à tona, permitindo a resolução de situações do passado.
Pequenos milagres acontecem em cada um dos capítulos, transformando as vidas de suas protagonistas, mulheres que talvez precisassem da ajuda do acaso para tais mudanças. Transitando entre o drama e a comédia, Hamaguchi compõe um retrato de personalidades femininas diante situações em que nem sempre é possível tomar as rédeas do próprio destino. A casualidade pode ser algo bom, mesmo que, num primeiro momento, não pareça. (Alysson Oliveira)
O filme será exibido apenas em salas de cinema durante a Mostra:
Cinesesc -
26/10/21 - 17:10
26/10/21 - 17:10
Reserva Cultural – Sala
1 - 28/10/21 - 15:40
1 - 28/10/21 - 15:40
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 1 - 31/10/21 - 13:30
A mulher que fugiu
Hong Sang-Soo se torna mais conciso a cada novo filme. Em menos de 90 minutos, ele é capaz de concentrar suas narrativas e gerar, a partir delas, um efeito duradouro. São filmes aparentemente simples que escondem, no seu minimalismo, a complexidade formal que encerram. A mulher que fugiu tem 77 minutos e reúne três momentos protagonizados pela mesma pessoa, Gam-hee, interpretada pela musa e companheira do cineasta Kim Min-hee.
O longa, que rendeu Hong o prêmio de direção no Festival de Berlim de 2020, consiste, como tudo em sua obra, de conversas longas e quase banais que trazem em si questionamentos e investigações mais profundas do que aparentam. Nesse sentido, seus longas sempre tiveram algo de rohmeriano e aqui, como sempre, o roteiro também é assinado pelo cineasta.
Gam-hee é uma florista, casada há 5 anos, que aproveita uma viagem do marido para se encontrar com amigas. Essa é a primeira vez que ela fica longe dele desde que se casaram. É um momento estranho e também de descobertas. A primeira visita é a Young-soon (Young-hwa Seo), a quem a protagonista não vê há um bom tempo, pois a amiga não mora em Seul, vive no campo, onde cria galinhas. A conversa é interrompida por um vizinho, que avisa para não alimentaram o gato de rua que vive por ali, pois sua mulher tem fobia de gatos.
O encontro seguinte é com Su-young (Song Seon-mi), uma instrutora de pilates que está apaixonada por um vizinho mas vem sendo cortejada por um poeta, com quem passou uma noite. Por fim, a protagonista se reúne com Woo-jin (Kim Sae-byuk), gerente de um cinema e centro cultural.
Mas, quem é a “mulher que fugiu”?
A amiga que abandonou tudo para viver longe da cidade? A outra que tenta evitar o poeta que a persegue? Ou a própria Gam-hee, que está descobrindo uma nova existência sem a presença do marido? No fundo, o longa está falando sobre a posição, possibilidades, expectativas e oportunidades da mulher contemporânea na Coréia do Sul.
Todas elas (e aquelas que também nem estão no filme) são mulheres em fuga de um sistema sexista, em busca de mais liberdade.
A amiga que abandonou tudo para viver longe da cidade? A outra que tenta evitar o poeta que a persegue? Ou a própria Gam-hee, que está descobrindo uma nova existência sem a presença do marido? No fundo, o longa está falando sobre a posição, possibilidades, expectativas e oportunidades da mulher contemporânea na Coréia do Sul.
Todas elas (e aquelas que também nem estão no filme) são mulheres em fuga de um sistema sexista, em busca de mais liberdade.
Em sua carreira de 25 anos, Hong estabeleceu sua própria gramática cinematográfica que, para alguns estetas, pode parecer displicente, mas é na sua simplicidade que está a verdade. Não há longos planos elaborados ou uma fotografia requintada. O que se vê na tela em seus filmes é a vida sendo vivida, com a beleza, a melancolia, a euforia e a frustração do cotidiano. (Alysson Oliveira)
O filme será exibido apenas em salas de cinema durante a Mostra:
Espaço Itaú de Cinema - Pompéia 1 - 26/10/21 - 19:00
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 3
28/10/21 - 16:00
28/10/21 - 16:00
Cinesesc -
30/10/21 - 14:00
30/10/21 - 14:00
Cinesala - 03/11/21 - 18:50
Imaculada
No material de imprensa do longa, sua roteirista e codiretora, Monica Stan, conta que partiu de uma experiência própria para escrever o filme. Aos 18 anos, foi internada pelos pais numa clínica de reabilitação para tratar o vício em heroína. A protagonista é Daria (Ana Dumitrascu, aqui com os longos cabelos loiros e uma impressionante semelhança física com Suzane von Richthofen), uma jovem ingênua que acaba se viciando para acompanhar o namorado.
Com pouco mais de 18 anos, Daria é internada pelos pais quando o vício é descoberto, depois da prisão do companheiro. Na primeira cena, quando ela é admitida na clínica, o filme já estabelece seu tom e personagem. Ela admite que começou a usar por influência dele, para acompanhá-lo, e nem percebe o quanto foi usada por ele para traficar drogas. Ingênua e, às vezes, tola, logo de cara fica evidente a personalidade passiva dela.
Na clínica, sem qualquer contato com o mundo externo, ela pensa e fala muito sobre esse namorado que nunca vemos, mas que é uma forte influência sobre ela. O ambiente é assustador e parece mais uma prisão limpinha. Há, entre os personagens, aquelas mesmas dinâmicas de poder e amizade que se vê em filmes de presídio. Daria, a mais nova a chegar, torna-se objeto de desejo de todos os homens ali, mas ela se mantém fiel ao namorado, o que inspira admiração dos outros.
Daria cai nas graças de Spartac (Vasile Pavel), uma espécie de líder que, depois de certa negociação, aceita levar uma espécie de romance platônico com ela, um “namoro” no qual apenas conversam e trocam carinhos ingênuos. A protagonista parece não ter consciência de seu poder de sedução, mas vale-se dele quase que por inércia, usando-o para conseguir privilégios dos outros colegas.
A falta de iniciativa da personagem torna o filme exasperante em alguns momentos, mas esse comportamento é bastante verossímil. Daria conta com a interpretação precisa de Dumitrascu, que traz honestidade a uma figura que poderia ser caricata e superficial. A estreante Stan e o codiretor George Chiper, que também assina a fotografia, optam por tons neutros, marcados pelas paredes claras e roupas bege dos internos. Tudo isso numa oposição a uma cena pós-créditos, marcada por coloridos e música pop, que estabelecem uma espécie de dialética entre dois momentos na vida da personagem. (Alysson Oliveira)
Disponível na plataforma Mostra Play e no cinema
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca
2
29/10/21 - 20:45
2
29/10/21 - 20:45
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