Jornadas pelas estradas de Irã e resgates de identidade
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 22/10/2021
- Tempo de leitura 14 minutos
O primeiro fim de semana da Mostra reserva atrações como a estreia promissora de Panah Panahi, filho do premiado Jafar Panahi, na direção com o vibrante road movie Pegando a Estrada. Tão imperdíveis quanto são os documentários Who we are - a chronicle of racism in America, sobre o racismo estrutural, e O garoto mais bonito do mundo, resgatando a história do ator sueco Björn Andrésen, o Tadzio de Morte em Veneza, de Luchino Visconti. Quem se interessa por novos diretores tem opções instigantes da Argentina, Suíça e Espanha.
Pegando a estrada
Atração da Quinzena dos Realizadores de Cannes, o longa de estreia da Panah Panahi representa a continuação desta esplêndida dinastia cinematográfica iniciada por seu pai, o premiado Jafar Panahi - hoje ainda sofrendo proibições de viagens ao exterior e restrições para continuar filmando, por divergências políticas com o governo iraniano.
Um toque dessa atmosfera política infiltra este road movie que carrega consigo uma família. Um grande feito do jovem diretor é começar sua história sem preâmbulos, já jogando os espectadores no dilema deste quarteto de personagens, dentro de um automóvel pelas estradas do Irã, rumo ao norte do país.
A história começa com o carro parado no acostamento. Dentro, dormem ou descansam Khosro (Hassan Madjooni), sua mulher (Pantea Panahiha) e o garotinho caçula (Rayan Sarlak). Do lado de fora, Farid (Amin Simiar), que ainda não sabemos quem é, espia dentro do carro e o rodeia, como se fosse um ladrão investigando o que poderia levar. Logo se saberá que ele é o filho mais velho desta família, dirigindo o carro porque seu pai tem a perna engessada. No fundo do carro, a quinta integrante da trupe, a cachorrinha Jessy.
Esta perna engessada, como todos os detalhes que o diretor apresenta a conta-gotas, vão se somando com ritmo e precisão para compor o cenário de uma história que acompanharemos com o coração em sobressalto, integrados às inquietações desta família. Ao longo do tempo, vamos nos perguntando: onde, afinal, eles vão? Por que suspeitam de que estão sendo seguidos? Por que é um problema o garotinho ter trazido o celular?
Com boa experiência técnica anterior - foi, por exemplo, o montador de Três Faces, de seu pai -, Panah Panahi, também autor do roteiro, demonstra um notável controle do tempo da narrativa e do desenho dos personagens e abre lugar para sequências cinematográficas notáveis, com a parceria de seu diretor de fotografia, Amin Jafari. Um exemplo é uma passagem de uma cena que começa com o pai e o filho menor deitados de costas, que evolui para uma sequência no espaço, em que o pai se transforma num astronauta que conversa com o filho sobre o carro de Batman. Uma cena de uma beleza marcante, que soma apuro técnico a densidade dramática.
Um elemento definidor para que a história tenha a força que tem, alternando momentos dramáticos e cômicos sem solavancos, é a entrega e a afinação deste admirável quarteto de atores - o garotinho Rayan Sarlak, aliás, é a explosão de energia que eletriza o filme em diversos momentos mas nunca destoa do conjunto. Bem-vindo seja este novo Panahi, que faz muito bem ao mundo do cinema. (Neusa Barbosa)
Disponível na plataforma Mostra Play e também nos cinemas:
Museu da Imigração
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23/10/21 - 19:00
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23/10/21 - 19:00
Espaço Itaú de Cinema - Augusta/sala 3
26/10/21 - 14:00
26/10/21 - 14:00
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 2
30/10/21 - 20:10
30/10/21 - 20:10
Who we are - A Chronicle of Racism in America
Quem estiver à procura do significado de “racismo estrutural” terá muito o que aprender com este poderoso documentário. O advogado e ativista afro-americano Jeffery Robinson é seu personagem principal, entrevistador e produtor, conduzindo no filme um exame profundo das estruturas que sustentaram a escravidão e a afirmação permanente da supremacia branca, escavando por trás das aparências e também do negacionismo que, em nosso tempo, procura reescrever a história, nos EUA e no Brasil também.
A esplêndida clareza de Robinson, um sério estudioso de seus temas, transparece numa palestra que ele realiza constantemente nos EUA, em que percorre a história dos EUA desde 1619, quando teve início o tráfico de escravos africanos, até 2020. Nestas falas que entrecortam o filme, explica as diversas leis que mantiveram a escravidão e seus efeitos sobre a população afro-descendente, desmascarando falácias que permitem que esse passado continue informando o presente, mantendo em funcionamento mecanismos de exclusão, preconceito e violência.
Filhas do advogado ativista William Kunstler - defensor dos réus no famoso caso do “7 de Chicago”, em 1968 -, as irmãs e diretoras Sarah Kunstler e Emily Kunstler unem às falas mesmerizantes de Robinson um farto material de arquivo, como imagens do líder Martin Luther King e fotos dos linchamentos no sul dos EUA, além de oportunas entrevistas com parentes de diversas vítimas da violência racista. Este é o caso, por exemplo, de Gwen Carr, mãe de Eric Garner, sufocado por policiais em Nova York em 2014; Tiffany Crutcher, cujo irmão, Terence Crutcher, foi morto pela polícia em Tulsa em 2016; e Josephine Bolling McCall, filha do empresário Elmore Bolling, assassinado em 1947 por supremacistas brancos por ser considerado “bem-sucedido demais para um negro”.
Uma escolha feliz das diretoras é valer-se da própria história pessoal de Robinson para dar mais vida e verdade à narrativa. Nascido em 1956 em Memphis, Tennessee - onde Martin Luther King foi morto a tiros, em 1968 -, o futuro advogado nasceu numa família de classe média, militante dos direitos civis, formando-se na prestigiosa Escola de Direito de Harvard em 1981. Destacando que seu caso de sucesso é pouco comum entre os negros norte-americanos, por todo o contexto que o filme denuncia, Robinson também recorda episódios em que ele e sua família tiveram que enfrentar o racismo - como na compra da casa da família em Memphis, que teve que ser intermediada por amigos brancos. (Neusa Barbosa)
Só nos cinemas:
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 2 -
23/10/21 - 14:00
23/10/21 - 14:00
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 2 -
31/10/21 - 20:10
31/10/21 - 20:10
A garota e a aranha
O fime suíço é sobre mudanças – reais e metafóricas –, centrando-se numa jovem que troca de apartamento, deixando para trás a colega com quem o dividia. Mara (Henriette Confurius), a que fica, sente-se perdida, não sabe mais o que fazer sozinha, nem como aproveitar seu tempo. Embora não seja explícito, é possível perceber que ela e Lisa (Liliane Amuat) tinham um envolvimento muito mais profundo – possivelmente romântico – do que amizade.
Os gêmeos Ramon e Silvan Zürcher assinam o roteiro e a direção desse filme todo calcado em estranhamentos e na pegajosa canção Voyage, Voyage, clássico pop francês dos anos de 1980. Trata-se do segundo exemplar de uma trilogia sobre a solidão humana. No anterior, de 2013, chamado A Gatinha Esquisita, investigava-se a dinâmica de uma família alemã enfurnada num apartamento. Torna-se evidente que a geografia da habitação é um tema caro à dupla de diretores – assim como a presença de animais no título de seus filmes – , pois aqui o cenário é tão importante quanto as personagens.
A Garota e A Aranha é um filme enigmático, que vai encontrar pelo caminho defensores apaixonados, mas, certamente, não é para grandes públicos. Mara é o centro da história, com um olhar perdido que domina tudo, inclusive a narrativa, que se apóia em sua tentativa de se reencontrar no mundo depois dessa grande transformação em sua vida. Este também é um longa sobre a inevitável passagem do tempo e as também inevitáveis, transformações que o acompanham.
Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, Mara terá de lidar com a separação da amiga, aprendendo a viver com isso. Antes disso, no entanto, a mudança de Lisa parece nunca ter fim. As idas e vindas, encontros e desencontros entre as duas geram uma espécie de tensão que se dissipa facilmente. Há realmente uma aranha no filme, como uma personagem secundária que tudo observa e é tratada como mais uma moradora do apartamento, sem causar qualquer medo ou aflição.
Ao fim, o filme dos irmãos Zürcher é aberto a diversas interpretações. É o tipo de obra que se encaixa em praticamente tudo o que o público quiser, o que pode ser também um tanto frustrante. (Alysson Oliveira)
Disponível na plataforma Mostra Play e também no cinema:
Circuito Spcine – Biblioteca Roberto Santos - 03/11/21 - 19:00
O garoto mais bonito do mundo
O protagonista deste documentário é Björn Andrésen que, aos 15 anos, foi escolhido para viver Tadzio, na adaptação de Morte em Veneza, de Thomas Mann, assinada por Luchino Visconti. Desde, então, confessa que sua vida nunca mais foi a mesma. Da euforia, glória e dinheiro fácil tudo muito rapidamente se transformou. Mais de meio século depois, ele é um homem infeliz, marcado pelo assédio emocional e físico que sofreu desde a pré-produção do filme e ao longo dos anos.
Dirigido pela dupla Kristina Lindström e Kristian Petri, esse é um dos documentários mais badalados da temporada, abordando um assunto urgente por um prisma pouco falado: o assédio contra homens, especialmente jovens. Tímido, Andrésen teve de submeter-se a um teste no qual uma das primeiras coisas que lhe pediram era para tirar a camisa, depois ficar apenas de calção de banho. Espantado, ele obedeceu, mas sua expressão clara de insegurança é comovente.
Conforme ele conta ao longo do filme, Morte em Veneza trouxe-lhe uma fama com a qual ele não sabia lidar. Sempre cercado de flashes e microfones, o adolescente tirou proveito disso quase sem se dar conta do que estava fazendo. Entre 2015 e 2020, quando o documentário foi rodado, ele tinha problemas financeiros e estava ameaçado de despejo do apartamento onde morava em Estocolmo.
Esse é um documentário complexo, pois é difícil não cair num julgamento a respeito de Andrésen, que se aproveitou da fama enquanto era jovem. Ele conta que, a certa altura de sua vida, vivia em Paris com uma mesada semanal de 500 francos, dada por um admirador que o sustentava. Ficou muito famoso no Japão, onde gravou até um disco, e também lucrou com isso. Mas, ao apontar-se o dedo para ele também não se deixa de culpabilizar uma vítima.
A história dele era de infelicidade muito antes de Visconti entrar em sua vida. Filho de um pai que nunca conheceu, sua mãe abandonou a família e foi encontrada morta meses depois. Foi criado por uma avó que fez de tudo para ele ser famoso e depois se aproveitou bastante disso também. Andrésen seguiu carreira de ator. Entre seus trabalhos mais recentes está Midsommar, e o making of de uma das cenas mais fortes desse longa aparece aqui.
Ao contrário do ex-bebê da capa do disco Nevermind, do Nirvana, que ameaça processar a banda por aparecer nu na foto (uma jogada claramente oportunista, haja vista que, nesses 30 anos, ele nunca perdeu uma oportunidade de usar essa fama, chegando até a recriar a foto, agora vestido, depois de adulto), Andrésen soa sincero, assim como o filme. (Alysson Oliveira)
Disponível na plataforma Mostra Play e nos cinemas:
Petra Belas Artes 2 – Leon Cakoff
24/10/21 - 17:50
24/10/21 - 17:50
Cine Marquise
Sala Globoplay 1 - 29/10/21 - 19:40
Sala Globoplay 1 - 29/10/21 - 19:40
Cinesesc - 31/10/21 - 17:45
Armugan
Aqui está um filme que causa reações fortes: é ame-o ou deixe-o. Pouco provável que suscite algo entre os dois extremos, ou se embarca na jornada dele ou não. É bem verdade que o roteirista e diretor espanhol Jo Sol faz poucas concessões, a começar pela potente fotografia em preto-e-branco, assinada por Daniel Vergara, e também o ritmo contemplativo, da montagem de Afra Rigamonti. Mas é um filme repleto de recompensas para quem se deixar levar por ele.
Armugan (Íñigo Martínez Sagastizábal) viaja nas costas de Anchel, (Gonzalo Cunill), seu único amigo. O cenário é um vale na região dos Pirineus, que separa a Península Ibérica do restante da Europa, e o protagonista tem uma profissão peculiar sobre a qual não se fala, mas está relacionada à morte e à vida, em certa medida. Ele é uma espécie de ante-morte, capaz de reverter situações iminentes.
Uma desconhecida (Nùria Lloansi) os procura pedindo ajuda: seu filho pequeno está muito doente e poderá morrer a qualquer momento e ela pede sua intervenção. Armugan e Angel começam a discutir a questão, e isso caminha para um embate sobre visões de mundo e da vida e da morte.
Com uma trama assim, o roteirista e diretor Sol está claramente interessado em questões espirituais e filosóficas, em diálogos pontuados por longos silêncios, num filme com toques de surrealismo e personagens peculiares, a começar pelo próprio Armugan, um homem com limitações físicas – inclusive dificuldades de fala, mas com profundo conhecimento sobre a humanidade.
Uma questão central, embora nunca seja identificada assim, é a eutanásia, abordada como um ato complexo e repleto de facetas. Uma delas é a do egoísmo de se manter viva uma pessoa cuja vida e força já se esvaíram. A morte, em alguns casos, diz o filme, pode ser libertadora, poupando dores e sofrimentos. (Alysson Oliveira)
Disponível na plataforma Mostra Play e nos cinemas:
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 5
24/10/21 – 18:20
24/10/21 – 18:20
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 4
25/10/21 - 16:00
25/10/21 - 16:00
Os Inventados
Dirigido pelo trio Leo Basilico, Nicolás Longinotti e Pablo Rodríguez Pandolfi, o filme argentino começa com uma energia e promessa que não se cumprem ao longo de seus 91 minutos. Seu protagonista é Lucas (Juan Grandinetti), um jovem ator cuja carreira não decolou. Ex-astro mirim, agora trabalha numa empresa de telemarketing.
Entre um teste e outro, ele aceita participar de um workshop no qual, durante quatro dias, cinco pessoas isoladas numa casa de campo entrarão num personagem e não deverão sair dele. O experimento tem cara, jeito e cheiro de reality show, embora não esteja sendo transmitido para lugar algum.
O trio que assina a direção também é responsável pelo roteiro, que assume ares inesperados de suspense, com Lucas e seus colegas de confinamento interagindo até situações-limite.
Os Inventados é um filme que não vai muito longe, transita entre falar das dificuldades de atores para encontrar emprego a uma mimetização das disputas na esfera do trabalho. Os diretores não parecem muito seguros do que querem dizer sobre cada coisa, e o longa se perde, parecido com Lucas no começo, bastante sem rumo. (Alysson Oliveira)
Os Inventados é um filme que não vai muito longe, transita entre falar das dificuldades de atores para encontrar emprego a uma mimetização das disputas na esfera do trabalho. Os diretores não parecem muito seguros do que querem dizer sobre cada coisa, e o longa se perde, parecido com Lucas no começo, bastante sem rumo. (Alysson Oliveira)
Disponível na plataforma Mostra Play e nos cinemas:
Petra Belas Artes Sala 2 – Leon Cakoff
23/10/21 - 15:40
23/10/21 - 15:40
Espaço Itaú de Cinema – Augusta Sala 1
25/10/21 - 18:30
25/10/21 - 18:30
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