Memórias de identidade e ditadura argentina no primeiro dia da Mostra
- Por Alysson Oliveira
- 20/10/2021
- Tempo de leitura 10 minutos
O primeiro dia da programação regular da Mostra alinha entre as atrações Azor, ficção de estreia do suíço Andreas Fontana que mergulha nos bastidores da relação entre os banqueiros e a ditadura argentina. Ganhador do Prêmio Especial do Júri, no Festival de Roterdã, I Comete – Um Verão na Córsega, de Pascal Tagnatti, une documentário e ficção numa paisagem idílica. E o documentário Transversais, de Émerson Maranhão, driblou a censura do governo federal para contar as histórias de transição de gênero de cinco pessoas no Ceará.
Azor
Exibido em competição na Mostra, a coprodução entre Suíça, França e Argentina desponta como um dos favoritos ao Troféu Bandeira Paulista. Dirigido por Andreas Fontana, um suíço neto de banqueiros que morou e estudou na Argentina, o longa tem ao centro a tênue relação entre banqueiros e a ditadura na América Latina. A narrativa se constroi de maneira lenta, mas fundada na tensão. Há um quê de Lucrécia Martel aqui – em especial, de O Pântano – no sentido de causar estranhamento.
A origem familiar de Fontana, certamente, deu-lhe acesso ao mundo retratado no filme. Além disso, sua experiência na Argentina, onde estudou literatura no período pós-ditadura, também contribui na construção do roteiro, assinado em parceria com o argentino Mariano Llinás. Situado em 1980, bem no meio do período de governo militar, o enredo tem como protagonista um banqueiro suíço, Yvan de Wiel (Fabrizio Rongione), que vem para o país em companhia de sua mulher, Ines (Stéphanie Cléau), para descobrir o que aconteceu com seu sócio, Keys.
O desaparecido é uma figura central no filme, pois sua ausência é um fantasma que ronda a todos o tempo todo – é como Harry Lime, em O Terceiro Homem, ou o coronel Kurtz, em O Coração das Trevas/Apocalypse Now. O maior problema é que Keys também deixou negócios pela metade. Yvan tenta fingir que o acontecido não é nada grave, que a visita ao país deve ser rápida, mas os clientes dele não estão nada tranquilos. Inclusive a filha de um deles, uma jovem com aspirações bem transgressoras, desapareceu. Os über-ricos temem que seus bens sejam confiscados. (Curiosamente, um receio que voltou a acontecer quando governos um pouco mais alinhados à esquerda chegaram ao poder, resultando, novamente, numa ascensão da direita.)
Para um público latino-americano, que passou por ditaduras, Azor pode não trazer muitas novidades, afinal política, religião e dinheiro sempre andaram bastante juntos nessa região do globo – em outras também, mas de outra maneira. Ainda assim, Fontana investiga seus temas com tanto vigor, sagacidade e verve cinematográfica que sua dissecação dos meandros do poder é repleta de frescor.
Não é um filme simples, nem fácil de se ver – seja pelos horrores que retrata, seja pelo tom cerebral que o diretor assume. Mas Azor é cheio de recompensas – especialmente cinematográficas. Com direção de fotografia assinada por Gabriel Sandru, o filme é elegante e quase frio, mas também seria difícil adotar um outro tom para contar essa história. Fontana é elegante na construção das cenas e dos diálogos e, em especial, nos personagens. Yvan e Inés são duas figuras frias, que mantêm a calma e a finesse mesmo com o mundo ruindo ao seu redor. É, certamente, uma distinção de classe que o longa captura muito bem – os donos do dinheiro com a certeza de que nada os atingirá, ao contrário dos amigos argentinos.
O Coração das Trevas, de Conrad, é, claramente, uma referência e inspiração aqui. O desaparecimento do sócio levará Yves a caminhos inesperados e à escuridão. É uma jornada impressionante, que Fontana narra sem fazer concessões. Em seu primeiro filme, o diretor já mostra segurança e talento, criando uma atmosfera que transita entre o sonho e o pesadelo. O efeito de Azor dura por muito tempo ainda depois da exibição.
O filme está disponível na plataforma Mostra Play e também nas salas de cinema:
Espaço Itaú Pompéia 1 - 21/10/21 - 19:00
Espaço Itaú de Cinema – Augusta 1 - 22/10/21 - 16:00
Cinesala - 29/10/21 - 20:45
I Comete – Um Verão na Córsega
Ganhador do Prêmio Especial do Júri, no Festival de Roterdã, I Comete – Um Verão na Córsega é um filme em que o cenário é tão importante quanto qualquer outra coisa, e, não por acaso, já está no título. Escrito e dirigido pelo estreante Pascal Tagnati, o longa tem uma liberdade formal que causa certo estranhamento, especialmente com suas pouco mais de duas horas de duração.
Tagnati tem uma câmera que parece acompanhar quase que ao acaso moradores e moradoras de Tolla, uma região na ilha, banhada pelo sol, cujos moradores estão voltando das férias de verão. Combinando ficção e algo de documental, tem o roteiro creditado ao diretor e “à comunidade”, o que deixa claro que também muitos dos diálogos, falados em francês e corso, são improvisados.
Com longos planos e câmera quase sempre aberta, combina-se personagens e cenário, dando a sensação de um observador um tanto distante, que não interfere, apenas olha e registra. Assim, as cenas são longas e irregulares, algumas vezes perdendo o interesse lá pela metade. Outras, com potência e poesia, como Franje (Jean-Christophe Folly), jovem de ascendência africana, adotado por uma família local, interagindo com sua avó (Roselyne de Nobili), na primeira dessa série de cenas espalhadas pelo filme, em que ela fala sobre o passado, suas memórias e recordações, enquanto a luz ambiente, que entra pela janela, diminui com o cair do dia.
A longa duração do filme nunca é justificada, e uma série de acontecimentos banais e frágeis se alongam e dissipam parte da força que I Comete... teria se mais concentrado. A ambição é Tagnati é clara, a de fazer um retrato da condição humana a partir desse microcosmo, mas outros e outras cineastas fizeram isso melhor, sem precisar testar a paciência do público.
O filme tem sessões na plataforma Mostra Play e nas salas de cinema:
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 3 - 21/10/21 - 18:10
Cinesesc - 23/10/21 - 14:00
Transversais
Censurado pelo presidente Jair Bolsonaro, que disse numa live, em 2019, ter “abortado” o longa de um edital da Ancine, Transversais faz sua estreia nacional na Mostra. Dirigido por Émerson Maranhão, com produção de Allan Deberton (Pacarrete), o documentário aborda a vida e o processo de transição de cinco cearenses, um tema que, para o mandatário, não seria interesse de ninguém – mas, como bem mostra o filme, é para todo mundo.
Maranhão, que também é jornalista, partiu de uma websérie e um curta que havia feito com algumas das figuras que aparecem no longa, e amplia a investigação da jornada delas e deles, falando sobre o processo de transição, as lutas sociais e os preconceitos, entre outros temas. Estão presentes no filme a funcionária pública Samilla Marques, a professora Érikah Alcântara, o enfermeiro Caio José e o acadêmico Kaio Lemos. No documentário, falam sobre suas jornadas de auto-aceitação, do processo de transição e também dos preconceitos e vitórias. Também está no documentário jornalista Mara Beatriz, mulher cisgênero que enfrentou a transfobia de perto e refez sua vida ao tomar conhecimento de que era mãe de uma adolescente transgênero. Hoje, é uma das mais ativas militantes do grupo Mães pela Diversidade no Ceará.
Maranhão conta que já conhecia todas essas pessoas antes das filmagens, e isso foi fundamental, no sentido de ganhar confiança para que se abrissem na frente da câmera. “Já havíamos estabelecido elos de confiança anos antes, já havíamos estado na mesma fronteira de combate à LGBTfobia antes, já sabíamos uns dos outros, já nos reconhecíamos como conterrâneos e conterrâneas velhas de guerra, para citar o filme do mestre Vladimir Carvalho. Então, a confiança veio naturalmente. E entendo que ela, a confiança, é um dos pilares deste filme. Assim como o respeito a cada um e a cada uma. Por isso, a contundência e a sinceridade dos depoimentos.”
O documentário foi rodado durante a pandemia, o que obrigou o diretor a alguns ajustes. “À medida que o calendário avançava, as medidas de restrição recrudesciam. Filmamos durante as quatro semanas de fevereiro de 2021, e tivemos que fazer várias alterações em nosso planejamento. Derrubar sequências, alterar roteiro, cancelar entrevistas, tudo na perspectiva de garantir a segurança e a saúde da equipe e dos entrevistados. Foi um grande desafio por cima de outro desafio grandioso que é filmar um longa, mas sempre acreditamos que era uma travessia possível (apesar de exaustiva). Ao fim, conseguimos nos equilibrar nessa corda bamba louca e cumprir todos os prazos.”
Ele também explica que sua experiência como jornalista contribuiu para Transversais. “Acho que o principal elo entre o jornalismo e o documentário seja o interesse pelo interlocutor e a capacidade de ouvir. Tanto o bom jornalismo quanto o documentário exigem isso de seus realizadores. No mais, há uma pulsão de empatia que também move – e une – as duas linguagens.”
Deberton, produtor do filme e mais conhecido pelo seu premiado longa Pacarrete, conta que, quando o projeto foi censurado pelo presidente, mesmo sendo finalista num edital para TVs públicas, “perdeu o chão”. Uma das mudanças que fez foi transformar o projeto de série em um longa para torná-lo mais viável comercialmente. “. É o tipo de projeto que necessita do apoio estatal pois certamente encontra muita dificuldade de viabilidade pelo setor privado, focado em outros perfis de obra. Daí a importância dos editais públicos para a produção independente.”
“Tentamos construir uma co-produção internacional, encontramos interessados, mas sem a confirmação da parte brasileira, com a Ancine travada e inoperante, nada parecia fluir. O filme só foi possível graças à Lei Aldir Blanc, pois fomos aprovados em edital no Ceará.
Agora, com o filme pronto, reafirmamos o quão necessário foi para a sua existência o fomento público que tentam, a todo custo, esvaziar da Cultura”, conclui.
Agora, com o filme pronto, reafirmamos o quão necessário foi para a sua existência o fomento público que tentam, a todo custo, esvaziar da Cultura”, conclui.
Além de disponível na plataforma Mostra Play, o filme terá duas sessões presenciais:
Espaço Itaú de Cinema Augusta Sala 3
21/10/21 - 20:45
21/10/21 - 20:45
Circuito SP Cine Paulo Emílio CCSP 22/10/21 - 19:00
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