Em tempos de isolamento, febre midiática e utopia
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 02/11/2021
- Tempo de leitura 13 minutos
No penúltimo dia da programação regular, a Mostra traz filmes sobre os desafios do cinema sob a pandemia (Diários de Otsoga), um retrato respeitoso da bipolaridade (Os Intranquilos), uma visão profunda sobre o mundo midiático (France), uma revisão da figura de Pedro I (A viagem de Pedro) e uma meditação sobre a reclusão (Prisão Domiciliar).
A viagem de Pedro
Laís Bodanzky é uma cineasta conhecida por seus retratos da intimidade que conseguem captar o contexto de instituições e da sociedade mais ampla. Foi assim desde seu longa de estreia, o premiadíssimo Bicho de Sete Cabeças (2000) e continuou por retratos inspirados da adolescência (As melhores coisas do mundo) e da idade madura (Chega de Saudade). É o mesmo esforço que ela leva neste seu A Viagem de Pedro, talvez seu filme mais arriscado. A diretora e roteirista se aventura num período histórico passado e também num episódio sobre o qual pouco se sabe ao certo, a viagem de D. Pedro I de volta a Portugal, em 1831, deixando para trás seu filho Pedro, com apenas 5 anos, aos cuidados de um regente, para reivindicar seu direito ao trono de Portugal, ocupado por seu irmão Miguel.
No roteiro se imagina o que pode ter acontecido a bordo daquele navio britânico que levou o imperador (Cauã Reymond) e sua segunda mulher, Amélia (Victória Guerra). Retrata um Pedro voluntarioso, arrogante, machão, mas também atormentado por uma crise de impotência sexual e política. Naquele pequeno pedaço do império britânico que é o navio, ele é um hóspede de luxo mas não é rei nem governa. Dentro do quarto, até sua mulher cobra timidamente a vacilação de seu desejo. Os tripulantes podem até servi-lo, mas não são seus escravos.
A claustrofobia se traduz nos pequenos espaços a que o grande ego de Pedro deve limitar-se. Os corredores estreitos do navio parecem sufocá-lo diante das lembranças e delírios de um passado em que, apesar de herdeiro de família real, pouco se sentiu amado, além das constantes disputas com o irmão que ele agora desafia.
Por tudo isso, A Viagem de Pedro não é um filme fácil de simpatizar ou mesmo de seguir, já que se trata, em boa parte do tempo, da vertigem deste ambicioso e voluntarioso personagem que mudou a história do Brasil e que carrega tantas contradições. A voz de sua consciência atormentada, por fim, é a de sua primeira mulher morta, Leopoldina (Luise Heyer) - cuja fala em off, em alemão, reforça a estranheza desta viagem entre tempos, entre mundos, entre Pedros, cuja verdade, talvez, jamais conheceremos.
É fato, também, que, talvez para não estender-se muito, o filme se torna um tanto episódico, pulando de um segmento a outro sem fixar uma situação ou um sentimento. O que, de algum modo, também traduz a inquietação do protagonista em transição. (Neusa Barbosa)
Última sessão:
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 2
03/11/21 - 18:10
03/11/21 - 18:10
Diários de Otsoga
Dirigido por Miguel Gomes e a documentarista Maureen Fazendeiro, este é possivelmente o melhor filme feito em condições pandêmicas e sobre condições pandêmicas. Filmado em agosto de 2020, o longa aborda as condições e possibilidades de fazer cinema num momento tão peculiar e repleto de restrições. É também uma brincadeira sobre e com o cinema, cheia de vitalidade, vigor e humor. A sua aparente simplicidade é sua grandeza.
Há aqui dois elementos que remetem a Aquele Querido Mês de Agosto, do mesmo Gomes: o mês de agosto e o dispositivo de incluir uma espécie de making-of dentro do próprio filme, retirando assim o véu da ilusão que o cinema é capaz de lançar. A isso, acrescenta-se também outras camadas de compreensão, que só seriam reveladas dessa forma: a das dificuldades de rodar um filme naquelas condições, e também de como parte da criatividade nasce da necessidade.
Gomes e Maureen, também parceiros na vida, tinham um elemento em volta do qual construir seu filme: um beijo. Algo tão simples e comum no cinema, mas agora impossibilitado diante do distanciamento social. Esse é o final, mas o longa começa – tal qual o agosto do título – de trás para frente, ou seja, pelo fim. A partir daí, os Diários descontroem o caminho trilhado para chegar até lá, nada destituído de tensões, diversão e descobertas.
Como em Aquele querido..., aqui uma equipe de filmagem encontra-se numa espécie de limbo entre o material filmado e o que fazer para o concluir. São 22 dias numa quinta, onde todos foram testados antes de ali se instalar – o que não impede, logo no primeiro dia (mostrado no final do filme), de surgirem tensões entre o combinado, que nem todo mundo parece ter entendido ou aceitado.
Os personagens fictícios são dois homens (Carloto Cotta e João Nunes Monteiro), e uma mulher (Crista Alfaiate). Um trio que se instala numa quinta e passa o tempo se divertindo, seja dançando ao som de The Night, de Frankie Valli & The Four Seasons, ou na piscina. O idílio começa a ser interrompido quando a “realidade documental” invade a “realidade fílmica”. Nessa brincadeira metalinguística de Gomes e Fazendeiro – que também, obviamente, aparecem na frente da câmera – muito é revelado, sobre disputas artísticas e de poder, sobre amizades e inimizades e também a dinâmica de trabalho dentro de um set.
Depois de filmes ambiciosos – e muito bem resolvidos – como Tabu e As 1001 Noites, é interessante ver Gomes voltar a algo menos sisudo, que remete ao começo de sua carreira, não apenas a Aquele querido..., mas também A cara que mereces, seu primeiro longa, de 2004. A suposta simplicidade dos Diários esconde, por sua vez, a complexa estrutura e também uma questão como será possível fazer arte daqui para a frente? (Alysson Oliveira)
Disponível na plataforma Mostra Play e no cinema:
Espaço Itaú de Cinema -
Frei Caneca 4
03/11/21 - 16:20
Frei Caneca 4
03/11/21 - 16:20
Prisão domiciliar
Em tempos de reclusão e isolamento, não é difícil encontrar pontos de identificação com o personagem do drama russo Prisão Domiciliar, dirigido por Aleksey German Jr. (Dovlatov). Nele, um professor universitário de meia idade, David (Merab Ninidze), é acusado de desvio de verba, e passa o tempo fechado em seu apartamento grande e decadente ao lado de sua mãe idosa (Roza Khayrullina).
Talvez esse seja o filme mais direto e acessível de German Jr., e também o mais crítico ao regime russo, marcado por corrupção e violência, embora não o faça de maneira clara e direta, pois seu protagonista não tem qualquer relevância política, nem é um dissidente. Seu problema foi fazer um desenho do prefeito de sua cidade mantendo relações sexuais com um avestruz. Prendê-lo por isso sujaria (ainda mais) a imagem do governo, então surge uma acusação de desvio de dinheiro de uma conferência internacional que ele estava organizando.
A tornozeleira o impede de ir além de seu jardim, onde leva o cachorro para passear. Em casa, os diálogos são com a mãe, e o tempo é matado com livros. David é professor de literatura russa, especialista no final do século XIX e primeira metade do XX. Nas paredes de sua casa, há pôsteres em homenagem a Osip Mandelstam e Anna Akhmatova. Do lado de fora, pessoas, provavelmente pagas, param em frente à sua janela, para o xingar de “Professor Mentiroso”.
Os filmes de German Jr. são marcados por um toque surreal, por personagens que, em algum momento, se descolam da realidade, entram num mundo onírico. Em Prisão Domiciliar, no entanto, isso jamais acontece. É um filme com os dois pés na realidade de um mundo cruel, o que não quer dizer que não tenha algum humor, especialmente decorrente da ironia da situação.
O diretor, que assina o roteiro com Maria Ogneva, planejava esse filme há algum tempo, mas seu lançamento agora – sua estreia foi no Festival de Cannes – ressoa de uma maneira sem igual. As circunstâncias que levaram boa parte do mundo ao confinamento são diferentes das de David, mas é inegável que Prisão Domiciliar proporciona uma leitura ligada ao nosso tempo. É também de se pensar como será a arte que faremos e consumiremos daqui para a frente. (Alysson Oliveira)
Exclusivamente nos cinemas:
Cine Marquise Sala Globoplay 1 - 03/11/21 - 16:20
France
Este talvez seja o filme que jamais se esperaria de Bruno Dumont, cuja obra inclui longas como A Vida de Jesus, A Humanidade e Mistério na Costa Chanel. Ao mesmo tempo, o longa faz sentido no conjunto de sua obra, como uma sátira à mídia e ao seu entorno. Tem como protagonista Léa Seydoux no papel-título, uma apresentadora, repórter e personalidade midiática ultrafamosa em todo o país e muito rica.
Dumont, que também assina o roteiro, entra no mundo da mídia sem rodeios desde a primeira cena, quando France está numa coletiva do presidente da França, Emmanuel Macron. É um trabalho de edição impressionante que “coloca” Seydoux realmente no evento. Mas realismo também não é um dos interesses do diretor - enquanto o político “responde” à pergunta de France de Muers, ela troca gestos obscenos com sua produtora que está ao fundo da sala.
É já nessa cena que o diretor deixa claro seu tom e, para usar uma palavra francesa, a exposée que fará do mundinho da imprensa. France, para usar referências nacionais, talvez seja uma combinação de Sonia Abrão com Gloria Maria. Está interessada no sensacionalismo, mas o faz em horário nobre e de maneira tão envernizada que nem parece sensacionalismo – ao menos na superfície.
Na vida pessoal, a protagonista está em crise. A relação com o marido, um escritor (Benjamin Biolay), é tensa, especialmente porque ela ganha cinco vezes mais do que ele. O filho pequeno (Gaëtan Amiel) não lhe dá atenção, nem a respeita. Sua única amiga é sua produtora, Lou (a comediante Blance Gardin, que rouba muitas cenas).
France é um filme um tanto desgovernado, mas sua beleza está justamente nisso. Parece abrir diversos caminhos e tomar apenas os desvios que surgem. Num momento de desatenção no trânsito, a protagonista derruba um motoboy (Jawad Zemmar), e se torna alvo dos urubus da mídia – exatamente como ela faz com as outras pessoas, por isso não culpa os colegas. Ela tenta resolver a situação ajudando a família do rapaz.
Numa guerra civil num país árabe destruído, ela dirige, entre escombros, a milícia a que entrevista para conseguir as melhores imagens possíveis. Na matéria final, exibida em seu programa, a montagem deixa claro como a mídia manipula imagens e cria as narrativas conforme lhe convém. France é sobre isso também, sobre a manipulação de narrativas e, em certa medida, sobre fake news.
Seydoux, uma das atrizes mais requisitadas na Europa atualmente (de filmes de James Bond a Dumont, passando por Wes Anderson), agarra a personagem com gosto, trazendo à tona todas suas ambiguidades e a dúvida entre ser honesta com o público ou ganhar mais dinheiro. Duas coisas que parecem inconciliáveis em France. (Alysson Oliveira)
Exclusivamente no cinema:
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 2
03/11/21 - 20:20
03/11/21 - 20:20
Os intranquilos
Damien Bonnard está excepcional como o pai bipolar, cujo comportamento desestrutura toda a família, em Os Intranquilos, do belga Joachim Lafosse. Desde a primeira cena, percebe-se que esse homem, também chamado Damien, toma atitudes que colocam em risco a mulher, Leïla (Leïla Bekhti), e o filho pequeno Amine (Gabriel Merz Chammah), com quem está passeando numa lancha. A certa altura, ele resolve voltar a nado para a praia e deixa a embarcação sob os cuidados do garoto.
O longa parece narrado pelo ponto de vista do menino, cheio de incredulidade e incompreensão do que está acontecendo ao seu redor. O pai é um pintor de comportamento marcado por altos e baixos emocionais. Inspirado no pai do diretor, um fotógrafo com bipolaridade, Lafosse traz a história de uma infância marcada pelas atitudes paternas e episódios como quando Damien invade a escola, num estado claramente alterado, para distribuir bolinhos a todas as crianças.
Um sentimento de intranquilidade ronda todo o filme, enquanto Laïla tenta manter as coisas sob controle, mas que cada vez mais escapam entre seus dedos. O filme circula acontecimentos e só apenas perto do final trará um diagnóstico, embora desde muito cedo fique claro o que está acontecendo na mente de Damien.
Os intranquilos lida com a bipolaridade de maneira sóbria e bastante humana, sem transformar a dor num espetáculo que culminaria numa grande catarse na qual personagens e público aprenderiam algo valioso e profundo sobre a existência humana. Lafosse evita esse olhar hollywoodiano, investigando as relações e laços diante dessa neurodiversidade. Possivelmente, pela própria experiência com o pai, o diretor sabe como fazer uma abordagem sincera e também respeitosa. (Alysson Oliveira)
Disponível na plataforma Mostra Play e no cinema:
Reserva Cultural - Sala 1 - 03/11/21 - 21:30
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