O poder da fantasia e a revisão do colonialismo
- Por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
- 31/10/2021
- Tempo de leitura 7 minutos
Atração vinda da Geórgia, o delicado e imaginativo What do we see when we look at the sky?, de Alexandre Koberidze, mergulha na fantasia para falar de romance e cinema. O colonialismo português é passado a limpo no documentário Visões do Império, de Joana Pontes, que nasceu em Luanda. E o romeno Lua Azul aborda a repressão à identidade feminina pelo olhar de Alina Grigore, diretora entrevistada pelo Cineweb.
What do we see when we look at the sky?
Vencedor do prêmio Fipresci no Festival de Berlim 2021, o filme georgiano, segundo longa do diretor Alexandre Koberidze, é uma pequena joia, cheia de doces armadilhas feitas para confundir, no bom sentido, a percepção acomodada de seus espectadores. Quase nada é o que parece neste relato, que se arrisca entre o realismo de imagens captadas nas ruas de Kutaisi, Geórgia, até artifícios colhidos de fábulas, encenações, coincidências e metamorfoses. Enfim, tudo o que o cinema permite. Este é um filme também sobre o cinema e sua possibilidade, sempre aberta, de reimaginar as histórias e sonhar um novo modo de contá-las.
O ponto de partida é uma série de encontros por acaso, nas ruas, entre Lisa (Ani Karseladze), estudante de medicina, e Giorgi (Giorgi Ambroladze), jogador de futebol. Eles tanto se esbarram que, finalmente, decidem marcar um encontro para o dia seguinte, num café. Aí, entra em funcionamento, uma estranha maldição. No dia seguinte, os dois amanhecem fisicamente transformados, de tal modo que não poderão reconhecer-se. Também não poderão continuar mantendo suas vidas, tendo que assumir novas profissões.
A nova Lisa (Oliko Barbakadze) vai trabalhar no mesmo café onde deveria ocorrer o encontro. Não muito longe dali, o novo Giorgi (Georgi Bochorishvili), assume tarefas diversas para o dono do café (David Koberidze). Os dois, finalmente, passamo tempo todo se vendo, sem reconhecer-se, como nos contos de fadas e isso joga com as expectativas de cada um que assiste e pode imaginar como, afinal, tudo isso irá acabar.
Essa faísca fantástica e romântica encontra outra linha narrativa no esforço de uma equipe de filmagem, liderada pela cineasta Nino (Irina Cheridze), para encontrar uma série de casais, para um retrato do amor em nossos tempos. Como isso vai se entrelaçar nas vidas de Lisa e Giorgi e nas cenas urbanas dessa Kutaisi tão peculiar é o tecido do filme, que incorpora solilóquios de um narrador invisível e não se envergonha de se deter em aspectos corriqueiros do cotidiano do lugar - sem esquecer da magia que o inspirou e que pode, como tudo o mais, ser também colocada em dúvida. (Neusa Barbosa)
Disponível apenas nos cinemas:
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 3
01/11/21 - 13:30
01/11/21 - 13:30
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 2
02/11/21 - 16:10
02/11/21 - 16:10
Lua Azul
Ainda criança, a cineasta e atriz Alina Grigore mudou-se de Bucareste, capital da Romênia, para uma cidade no interior do país. Teve um choque: “Percebi que, ao contrário do que acontecia em minha família, educação não era uma prioridade para as crianças – especialmente para as meninas. Anos depois, notei que as coisas não haviam mudado”, conta em entrevista ao Cineweb. Essa constatação serviu de ponto de partida para seu primeiro longa como diretora, Lua Azul.
“Comecei a pensar num filme que mostrasse relacionamentos e a diferença entre o ponto de vista de uma mulher que quer ter educação formal, e o de um homem que é mais próximo de suas raízes e da família, não necessariamente de valores cristãos, mas aqueles muito mais conservadores.” A partir disso, nasce o filme, em que a protagonista, Irina (Ioana Chitu), tenta chegar ao ensino superior e fugir da opressão que enfrenta no vilarejo onde mora.
Com a história dessa jovem, Grigore entra numa outra zona de conflito: o abuso sexual. Há um encontro sexual ambíguo no filme, cujo desenrolar está bastante ligado a questões urgentes do nosso tempo, como os movimentos sociais pela igualdade de gênero. “Comecei a trabalhar nesse filme muitos anos atrás. Não tinha ideia de que o mundo caminharia nessa direção. O Me Too não era uma realidade para mim. Só fui perceber como o filme era próximo disso quando comecei a dar entrevistas, ler as críticas. E, durante a montagem, provavelmente porque sou uma mulher, Lua Azul tomou um caminho que analisava psicologicamente a jornada de Irina, mesmo que inicialmente eu tenha pensado nas duas perspectivas, masculina e feminina.”
Entre suas influências, a cineasta, que também assina o roteiro, cita o dramaturgo e contista russo Anton Chekhov. “Interessa para mim, em especial, a maneira como ele constrói personagens. Isso é algo que me anima, algo que eu gostaria de seguir fazendo. Acredito que seja a razão por que faço filmes. Gosto de pesquisar sobre personagens em todos os lugares e isso também acaba refletindo na maneira como trabalho com meus atores. Gosto de construirmos juntos o passado dessas personagens, criar as memórias, compreender as motivações.” (Alysson Oliveira)
Disponível no Mostra Play até 4 de novembro
Visões do Império
Neste documentário, a cineasta portuguesa Joana Pontes coloca em prática uma espécie de investigação da máxima de Walter Benjamin de que “todo documento de civilização é também um documento de barbárie”. Assim, a partir de fotos antigas, resgata a história do colonialismo português na África como base de um Portugal moderno.
Nascida em Luanda, onde viveu até os 13 anos, a diretora parte do álbum de família para uma investigação em que as esferas pessoal e histórica se cruzam, resultando tanto na memória subjetiva quanto na coletiva. “As fotografias são a prova que tenho de um mundo que ficou para trás, do qual restam algumas memórias e estas imagens”, diz ela, em sua narração no documentário.
Fotografias desse passado colonial, que tantos amigos, colegas e conhecidos guardam, mostra o filme, são objetos que carregam em si as narrativas do passado, “contando histórias, quase sempre de tempos felizes.” Uma memória recebida de maneira específica de pessoa para pessoa, passando por um revisionismo à luz do presente sobre as atrocidades do colonialismo.
Essas fotografias são objetos de colecionadores, resultando num mercado movimentado de imagens, suvenires e objetos do passado colonial. Nessas memórias, está uma justificativa para a narrativa colonizadora, que inclui como levar a civilização e ajudar a desenvolver povos mais atrasados. Foram também fotografias, como da inglesa Alice Harris, que levaram ao mundo os horrores que estavam acontecendo na África com regimes de trabalho escravo.
Perto do final, uma arquivista negra, que comenta e analisa diversas fotografias, comenta sobre o choque de ver “pessoas negras naquelas situações”. Para tratar das imagens, conta, teve de fazer um exercício de distanciamento: “Pensar que era uma época passada, que estamos a 60, 70 ou mais anos daquele contexto. De outra maneira, seria muito difícil para mim.” Não se pode fazer mais nada sobre uma história que já foi, ela aponta, mas, por outro lado, é possível resgatar de forma digna, postumamente, a memória dessas pessoas. Nesse sentido, Visões do Império contribui muito. (Alysson Oliveira)
Disponível no Mostra Play e no cinema:
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 2
02/11/21 - 19:10
02/11/21 - 19:10
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