Sobre intimidade, sexo na internet e vôos metafísicos
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 28/10/2021
- Tempo de leitura 12 minutos
Atração de peso na programação da Mostra, o vencedor do Urso de Ouro em Berlim 2021, o romeno Má sorte no sexo ou pornô acidental, de Radu Jude discute direito à intimidade e muito mais num filme que aborda a exposição de cenas de sexo de uma mulher na internet. Outro premiado, este em Cannes, é o novo filme do tailandês Apichatpong Weerasethakul, Memoria, o primeiro falado em inglês, filmado na Colômbia e estrelado por Tilda Swinton.
Má sorte no sexo ou pornô acidental
Dirigido pelo premiado diretor romeno Radu Jude, o vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim 2021 compra polêmica desde suas primeiras cenas, que mostram um casal animadamente fazendo sexo. São estas mesmas imagens, aliás, que trazem o inferno à vida de uma discreta professora de História, Emi (Katia Pascariu), sua involuntária ‘protagonista’. Tratava-se apenas de uma brincadeira privada com o próprio marido, mas as imagens saíram do site onde deveriam estar restritas para cair na rede. Agora, a professora deve encarar um conselho de pais na escola onde leciona, no qual seu futuro será decidido.
Diretor de Aferim! (Urso de Prata de direção em Berlim 2015) e Eu não me importo se passarmos à história como bárbaros (Melhor filme em Karlovy Vary em 2018), Jude mostra mais uma vez ousadia, inclusive formal, para desenvolver uma narrativa multidirecional e não se intimida em provocar o espectador a sair de seu campo de conforto. O drama pessoal da professora permite-lhe expor os mecanismos moralistas e de poder vigentes não só na sociedade romena. A valentia com que Emi defende seu direito à privacidade é muito mais do que apenas sobre sua situação particular - ela representa várias outras pessoas em contextos diversos no mundo em que a sexualidade assumida se torna um elemento de condenação hipócrita e que é mais agressiva em se tratando das mulheres.
Colocando sua protagonista muitas vezes andando de um lado para outro pelas ruas de Bucareste, o diretor insere um comentário visual sobre esta sociedade que emergiu violentamente de anos de um regime comunista repressivo diretamente para uma situação capitalista repleta de contradições. Comentários ainda mais expressivos surgem com os esquetes sobre diversos assuntos - piadas de loira, Forças Armadas, Igreja Ortodoxa, cinema e outras - que interrompem a narrativa sobre a professora, formando um verdadeiro almanaque sobre os nossos tempos absolutamente loucos.
A apoteose, porém, é a esperada reunião dos pais que deve decidir sobre a demissão ou não da professora. Ali está um resumo de figuras emblemáticas não só da sociedade romena mas do mundo todo. Os doidos, os hipócritas, os moralistas, os fascistas e os libertários estão à solta. Só mudam o endereço e a língua. (Neusa Barbosa)
Exclusivamente nos cinemas:
Cine Marquise - Sala Globoplay 1
29/10/21 - 17:00
29/10/21 - 17:00
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 3
31/10/21 - 20:50
31/10/21 - 20:50
Cinesesc
03/11/21 - 17:00
03/11/21 - 17:00
Memoria
O tailandês Apichatpong Weerasethakul sempre fez um cinema em que a barreira entre o real e o onírico é esfumaçada – fumaça, bruma, neblina são, aliás, elementos visuais e narrativos constantes em seus filmes, que incluem Mal dos Trópicos, Tio Boonmee Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas e Cemitério do Esplendor. Em Memoria, seu primeiro trabalho fora de seu país, ele volta novamente a pisar num terreno do etéreo, do metafísico, mas, mais do que nunca, ele permite uma leitura mais materialista.
Vencedor do Prêmio do Júri em Cannes 2021, o filme foi rodado e se passa na Colômbia, onde está a protagonista, uma escocesa, Jessica, interpretada por Tilda Swinton. Ela é uma especialista em flores e está obcecada em encontrar uma forma de proteger orquídeas de uma espécie de fungos. É uma batalha contra a natureza. Outra batalha, no mesmo teor, é contra o estrondo que ouve em sua cabeça de tempos em tempos. É um barulho estranho, forte, mais do que uma explosão. Ela o descreve como concreto se chocando contra metal.
Memória é nossa capacidade de lembrar o passado. Há a coletiva e a individual – embora ambas sejam construídas num nível mais subjetivo. É da memória que
também parte a construção da narrativa histórica mediada, é claro, por ideologias e questões de poder. No filme, numa escavação são encontrados, por acaso, restos mortais de humanos que existiram milhares de anos atrás. São corpos deteriorados que nos lembram de tempos imemoriais, tão distantes que eles e seus rituais já foram esquecidos.
também parte a construção da narrativa histórica mediada, é claro, por ideologias e questões de poder. No filme, numa escavação são encontrados, por acaso, restos mortais de humanos que existiram milhares de anos atrás. São corpos deteriorados que nos lembram de tempos imemoriais, tão distantes que eles e seus rituais já foram esquecidos.
A Colômbia de Weerasethakul não é muito diferente de sua Tailândia, marcada por florestas e uma urbanidade particular, repleta de sons e cores. O diretor deixa que seus planos se prolonguem. Em seus filmes, ele é o mestre do tempo, dilata-o ao seu modo, de forma que sua narrativa se construa, peculiarmente, sem tempos mortos. É uma opção clara que contribui na construção da atmosfera, da exasperação e da possível epifania libertadora.
O cinema é uma força dentro mesmo do próprio Memoria. Intrigada e desesperada com o som que apenas ela ouve em sua cabeça, Jessica procura um engenheiro de som, amigo de um amigo. Hernán (Juan Pablo Urrego) está em sua mesa de som e juntos começam a experimentar diversos efeitos até encontrar aquele que reproduz perfeitamente o estouro que a protagonista ouve. É uma sequência fascinante em sua simplicidade e no quanto é capaz de revelar – entre outras coisas, sobre o artificialismo da arte. Hernán fica fascinado por Jessica e parece que algum romance poderá sair dali, mas o inusitado acontece.
Swinton – cada vez mais interessada em trabalhar com diretores e diretoras de renome, uma lista que inclui Pedro Almodóvar, Bong Joon-Ho, Lynne Ramsay e Guillermo del Toro (numa futura adaptação de Pinóquio), parece uma presença de outro mundo aqui. Sua personagem, uma mulher completamente deslocada, que mais reage do que age, lembra muito a protagonista de A Mulher Sem Cabeça, interpretada por María Onetto, no filme da argentina Lucrécia Martel. Talvez não seja falta de iniciativa da personagem, mas cautela, pois ela age diferente num encontro inusitado com um pescador, também chamado Hernán, agora interpretado por Elkin Díaz.
A sequência é, novamente, longa e o coração de Memoria. Nela, verdades vêm à tona e Jessica pode acessar o que há de mais interior em si mesma. Lembranças e sons desconexos se formam em sua mente, ela parece funcionar como uma antena que capta todas as ondas ao seu redor sem conseguir concentrar-se em nada.
Há uma possível explicação científica para o problema da personagem, conhecido como Síndrome da Cabeça Explosiva, algo que o próprio Weerasethakul confessou já ter enfrentado em sua vida. Mas Memoria se dá mais no campo da metafísica, sem se importar com esse tipo de coisa. O filme voa tão alto em seu fantástico que há belos momentos que podem ser puro delírio – do diretor ou da personagem.
A memória, parece dizer Weerasethakul, é fundamental para nossa existência. Em certos momentos, personagens aqui confundem suas lembranças, ou talvez tenham transitado entre uma existência paralela e outra, sem se dar conta. O mundo ao redor pode estar ruindo, mas as explosões que Jessica ouve e sente não são necessariamente o indício do fim, pois, como escreveu T. S. Eliot, “é assim que o mundo termina, não com um estrondo, mas com um sussurro”. Em Memoria, como em outros filmes do diretor, as pessoas sussurram palavras que têm poder transformador.
(Alysson Oliveira)
(Alysson Oliveira)
Exclusivamente nos cinemas:
Cine Marquise Sala Globoplay 1 - 29/10/21 - 14:00
Reserva Cultural - Sala 1 - 30/10/21 - 21:10
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 1- 02/11/21 - 16:00
Madeira e água
Vivendo em Hong Kong entre 2017 e 2020, o cineasta alemão Jonas Bak sentia-se sem saber o que estava fazendo na cidade. Ao mesmo tempo, sua mãe, vivendo sozinha na Alemanha, estava se aposentando. “Eu percebi que tinha a minha história e também a história dela, e eu poderia combinar as duas”, diz em entrevista ao Cineweb. Em Madeira e Água, a protagonista (Anke Bak) decide viajar para a Ásia e visitar o filho que não vê há alguns anos. Enquanto espera a volta dele, que está numa viagem de negócios, ela passeia numa cidade tomada por protestos e descobre um novo mundo se abrindo para ela.
O diretor conta que trabalhou com seu material de uma forma bastante livre e também pessoal. “Quando você faz um filme assim, fica difícil distinguir a barreira entre a ficção e o documentário. Eu não pensava nisso com rigor, deixava o filme fluir. A trama era mínima, deixávamos que a atmosfera a guiasse.”
Anke já tinha alguma experiência como atriz quando aceitou fazer o filme, que conta ter sido uma escolha natural colocá-la no papel da mãe que espera o filho voltar de viagem. “Achei que, por estar vivendo sozinha e se aposentando, colocá-la nesse papel seria uma maneira de ela pensar o seu próprio futuro. Eu estava preocupado com ela, com o vazio que viria com a aposentadoria. Eu vejo o cinema como uma espécie de terapia, tanto para quem faz quanto para quem assiste.” Anke conta também que, depois de Madeira e Água estar pronto, admitiu que as filmagens a ajudaram muito a lidar com o momento.
Bak já conhecia bem Hong Kong, pela sua experiência de morar lá, antes de rodar seu longa, que também é visto por ele como um diário de viagem que mostra as primeiras conexões com a cidade. “Como passei tanto tempo lá, tentei encontrar coisas e lugares que me interessavam, e assim achar o meu próprio lugar lá. Minha ideia era de que minha mãe também achasse seus próprios lugares.”
Enquanto filmava em Hong Kong, os Bak se depararam com uma série de protestos nas ruas. Isso foi “estressante, mas também uma experiência bela e transformadora”. Não havia como deixar isso de fora de Madeira e Água. “Não tinha como ignorar milhares de pessoas nas ruas lutando por direitos básicos. Acho que essa energia se impregnou no filme, e o moldou de certa forma. Estávamos filmando num lugar que nunca mais seria o mesmo depois daquele momento, e Hong Kong nos deu isso para o filme. Espero que tenhamos dado algo em troca para a cidade também”. (Alysson Oliveira)
Disponível na plataforma Mostra Play
No táxi de Jack
Joaquim Calçada, também conhecido como Jack, é um homem de muitos talentos. Trabalhou em fábrica de munições, com aviões, como taxista, entre alguns outros empregos. Mas um de seus maiores méritos, como se vê em No táxi de Jack, é contar histórias. Ele é a figura central desse documentário de Susana Nobre, que o conheceu enquanto ela trabalhava no departamento de Novas Oportunidades, do governo de Portugal.
Joaquim, que tem 63 anos, morou por 20 anos nos EUA, para onde imigrou no começo da década de 1970. Autodidata, conta que arranjou o máximo de trabalho que pode, enquanto aprendia a língua conforme dava. Com sua cabeleira que lembra Elvis Presley, agora desempregado, percorre agências, empresas que forneçam uma declaração comprobatória de que ele está à procura de trabalho, mas não conseguiu a vaga. Assim, ainda pode ter direito ao seguro-desemprego.
Entre uma visita e outra, Joaquim reencontra amigos e resgata sua história, que inclui também a direção de limusines em Nova York, onde conta que
transportou gente famosa. O filme também resgata momentos com encenações, com o uso de efeitos, colocando Joaquim novamente “dirigindo” seu táxi nos EUA.
transportou gente famosa. O filme também resgata momentos com encenações, com o uso de efeitos, colocando Joaquim novamente “dirigindo” seu táxi nos EUA.
Há algo de cômico aqui, seja pelo absurdo da situação, ou pelo bom humor do próprio protagonista. Um jogo de cena que a diretora realiza com sagacidade e crítica social, colocando ao centro a esfera do trabalho, cada vez mais excludente de uma parcela mais madura da população. (Alysson Oliveira)
Disponível na plataforma Mostra Play e no cinema
Reserva Cultural – Sala 3
31/10/21 - 21:00
31/10/21 - 21:00
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