Premiados em Cannes e uma ode aos direitos animais
- Por Neusa Barbosa
- 27/10/2021
- Tempo de leitura 13 minutos
Vencedor da Palma de Ouro 2021, Titane, de Julia Ducournau, mescla ficção futurista e pesadelo tecnológico. Prêmio de melhor direção em Cannes, Annette, de Leos Carax, é um musical fantástico, com Adam Driver e Marion Cotillard. O russo Unclenching the fists, de Kira Kovalenko, vencedor da mostra Um Certo Olhar, retrata a saga de uma jovem em sua busca de libertação e amadurecimento. E o documentário Cow, de Andrea Arnold, foca na vida de uma vaca leiteira.
Titane
Em um ensaio sobre o romance Crash, do inglês J. G. Ballard, o filósofo francês Jean Baudrillard começa dizendo que de “uma perspectiva clássica (até cibernética), tecnologia é uma extensão do corpo. É a sofisticação funcional de um organismo humano que o permite ser igual à natureza e a investir triunfantemente na natureza”. O momento era os anos de 1970, os loucos anos de 1970, quando as utopias de Maio de 1968 tinham ruído e o neoliberalismo já começava a se tornar hegemônico.
Era também o momento de um consumismo desenfreado, com a necessidade da mercadoria gerar ainda mais dinheiro. O livro de Ballard, publicado em 1973 (e transformado em filme por Cronenberg, em 1996), era uma crítica, entre outras coisas, à potencialização do consumo. Hoje em dia, não são bens que geram capital, mas o próprio dinheiro gera dinheiro. Em seu premiado Titane, vencedor da Palma de Ouro 2021, a diretora francesa Julia Ducournau não é ingênua a ponto de ignorar isso, mas seu delírio em horror corporal também parece não se dar conta de que o tempo passou, e o carro, como fetiche da mercadoria, tem outra figuração.
A brasileira Renata Pinheiro em seu Carro-Rei, premiado em Gramado, aposta num potencial muito mais transgressor do que Titane. São dois filmes repletos de pontos em comum, mas o brasileiro, em sua estética e sua visão de mundo, é muito mais anárquico e sagaz do que o francês, com suas ideias regressivas sobre os laços familiares. O filme começa bastante bem, abraçando o horror corporal e a sanguinolência sem pudor. Tem uma energia que se esgota na metade, quando se torna um drama, se não convencional, enfadonho e que não sobrevive a um escrutínio mais profundo.
A pequena Alexia – um nome que remete a uma famosa inteligência artificial – sofre um acidente de carro por conta da negligência do pai (o cineasta Bertrand Bonello), e é obrigada a receber um placa de titânio no crânio, ficando com uma cicatriz sobre a orelha. Alguns anos mais tarde, mal saída da adolescência, agora interpretada pela estreante Agathe Rousselle, ela trabalha como dançarina com movimentos eróticos sobre carros, além de ser uma serial killer – geralmente usando um palito que espeta no cabelo para segurá-lo.
Ducournau, que não tem pudores, faz o sangue jorrar para todo o lado – mas não estão aí as cenas mais fortes do filme. Quando percebe que a polícia a identificou, depois de matar mais de meia dúzia de pessoas numa orgia, Alexia vê a foto de um garoto desaparecido quando criança, percebendo uma estranha semelhança com ele. Depois de cortar os cabelos e quebrar propositalmente o nariz (eis a cena de revirar o estômago) na pia de um banheiro público, ela assume o papel do desaparecido, para alegria do pai dele, um chefe de bombeiros, Vincent (Vincent Lindon), que aceita de bom grado o retorno do filho, sem sequer pedir um exame de DNA.
As personagens aqui são pessoas desesperadas por uma conexão, pela constituição de uma família aos moldes burgueses, por mais que o verniz da ousadia cubra Titane. Vincent quer um filho, Alexia, um pai. Além disso, depois de um show, ela manteve relação sexual com um carro e engravidou. Agora a barriga cresce rapidamente e ela precisa de uma abrigo para seu filho – seja lá qual for sua aparência. Vincent instala seu filho pródigo no quartel onde mora e onde se injeta alguma substância que o ajuda a manter o físico, embora essa pareça não ter mais efeito.
A transição de uma parte para a outra não é suave. Titane percorre uma estrada esburacada com uma paisagem interessante – o filme é extremamente bem filmado – mas com trancos a todo momento. Trancos, em si, no cinema, não são de todo uma má ideia. É preciso chacoalhar ao público e Ducournau o faz com gosto, mas nem sempre com efeito. A segunda parte não tem o mesmo ritmo, gira em falso em torno das mesmas ideias o tempo todo. Parece que a cineasta tinha um ponto de partida para dois filmes, nenhum deles um longa, e juntou tudo amarrando no final – bizarro, diga-se, mas plausível dentro de sua realidade.
Aqui, o carro (em forma de titânio) é a extensão literal do corpo de Alexia. Dentro dela, o natural se encontra com o industrial. Ao sair do hospital, com a placa em sua cabeça, o primeiro gesto da menina é beijar um automóvel. Ducournau é uma cineasta interessante e ousada, não deixa de ter méritos mas é sempre bom lembrar que Ballard fez algo parecido e bem mais transgressor e incômodo quase meio século atrás. (Alysson Oliveira)
Somente nos cinemas:
Espaço Itaú de Cinema – Augusta sala 1- 28/10/21 - 13:30
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 2 - 29/10/21 - 18:20
Cine Marquise Sala Globoplay 1 - 01/11/21 - 21:40
Annette
O filmede Leos Carax é um musical e, como tal, se dá em seu universo próprio, como é típico do gênero em que as pessoas param de fazer o que estão fazendo para cantar – ou cantam enquanto fazem suas tarefas cotidianas. Enfim, pede-se uma suspensão da realidade para um mundo paralelo mediado pela música. Aqui, exige-se um pouco mais do que isso e o resultado é compra-se tudo ou não. O júri do Festival de Cannes comprou e deu ao filme o Prêmio de Direção.
A Annette do título é a criança filha de um comediante, Henry (Adam Driver), e uma cantora lírica, Ann (Marion Cotillard, um tanto apagada no filme). Um casal de estrelas que está na mídia o tempo todo. Tudo o que fazem gera notícia, desde uma saída para jantar até a gravidez e a possível crise na relação. Tudo também é marcado por músicas, compostas pelo duo americano Sparks, formado pelos irmãos Ron e Russell Mael, que também assinam o roteiro.
A primeira canção, ainda na abertura do filme, é “So we may start” (algo como “Podemos começar”) – a quem isso pareça soar reiterativo, a resposta é, sim, isso é totalmente reiterativo. E, por longos 2h19 minutos, seguem músicas que parecem estar repetindo o que se vê na tela, como aqueles diálogos em que personagens dizem “vamos atacar o castelo do rei!”, enquanto atacam o castelo do rei. Música e imagem dizem a mesma coisa – o tempo todo.
Ann é uma cantora de sucesso, seu companheiro parece que nem tanto. Seus números de comédia não parecem tão engraçados – e, a julgar pelo que se vê, é de se perguntar se um dia o foram. O casamento entra em crise,
mas uma gravidez poderia salvá-lo. Até que vem ao mundo a bebê Annette, “interpretada” por uma marionete, e assim continuará com o passar dos anos. Quem achou a filha de Bella e Edward, de Crepúsculo, bizarra, não perde por esperar para ver a filha de Ann e Henry – ela inclusive voa.
mas uma gravidez poderia salvá-lo. Até que vem ao mundo a bebê Annette, “interpretada” por uma marionete, e assim continuará com o passar dos anos. Quem achou a filha de Bella e Edward, de Crepúsculo, bizarra, não perde por esperar para ver a filha de Ann e Henry – ela inclusive voa.
Uma tragédia se abate sobre a família, e Henry começa a explorar Annette, transformando-a em uma pequena cantora famosíssima, fazendo shows pelo mundo todo apesar da pouca idade. Esse mundo das celebridades a consome cada vez mais, a menina se sente cansada, mas faz shows que alcançam níveis surreais.
Carax, que sempre teve uma queda pelo onírico bizarro, encontra em Annette o veículo ideal para seus voos de imaginação. Visualmente, o longa é repleto de momentos fortes, mas seus comentários sobre o mundo e a vida dos famosos parecem vir direto de umas décadas atrás. Ele dá, por exemplo, crédito demais ao poder da mídia nos dias de hoje,
ingênuo em certa medida. É obviamente um filme sobre artificialismos – e a presença de uma criança artificial é o maior indício disso.
ingênuo em certa medida. É obviamente um filme sobre artificialismos – e a presença de uma criança artificial é o maior indício disso.
É, ao mesmo tempo, altamente pretensioso - algo também típico do cinema dele. As primeiras frases do filme pedem a completa atenção das senhoras e dos senhores, e segue: “Se você quiser cantar, rir, bater palmas, chorar, bocejar, vaiar ou peidar, por favor, faça na sua cabeça, apenas na sua cabeça.” Nem respiração “será tolerada durante o show”, conclui. Ah, tá.
Depois de “Podemos começar, vamos começar”, músicas seguem com frases do tipo “Nós nos amamos muito” e “Inspire, Expire, Empurre, Empurre” (essa durante o parto). É óbvio que ninguém entra num filme de Carax esperando algo muito diferente disso, e o que fica claro é ser preciso entrar num filme dele sem questionar muito, apenas aceitando a realidade paralela onde vivem seus personagens e se dão suas ações. Além disso, inútil pedir coerência, algo que não existe em Annette – para alegria de uns e um teste de paciência para outros. (Alysson Oliveira)
Somente nos cinemas:
Cine Marquise Sala Globoplay 1 - 28/10/21 - 18:20
Reserva Cultural – Sala 1 - 29/10/21 - 20:45
Espaço Itaú de Cinema – Augusta 1 - 01/11/21 - 21:00
Unclenching the fists
Grande vencedor da mostra Um Certo Olhar, no Festival de Cannes, e escolhido pela Rússia para representar o país no Oscar, o drama Unclenching the fists se constrói na tensão pungente de uma jovem entrando na vida adulta e tomando consciência das limitações que uma mulher enfrenta numa sociedade altamente patriarcal e repressora.
Sob a direção de Kira Kovalenko, o longa conta com uma interpretação precisa de Milana Aguzarova, como Ada, uma jovem que vive no norte do Cáucaso com seu pai doente (Alik Karaev). A vida dela não tem muitas perspectivas. Sair dali pode ser um sonho, mas não parece uma realidade. O filme, tal qual a existência da jovem, é asfixiante, a sensação que se tem é de estar o tempo todo entre quatro paredes, mesmo em cenas a céu aberto.
Ada tem um problema em seu corpo desde a infância, o que a obriga até hoje a usar fraldas, mas sua vida é tão sufocada que nem ao hospital tratar desse problema ela pode ir. Ela também tem um irmão menor, Dakko (Khetag Bibilov), que, às vezes, lhe dá carinho e atenção e a chama de mãe. Tudo é estranho para essa jovem que nem muito fala.
Ela estabelece uma relação com Tamik (Arsen Khetagurov), um jovem que parece ainda mais problemático do que ela. O que Ada procura em sua vida? Nem ela mesma parece saber. Por outro lado, há uma esperança, seu irmão mais velho, Akim (Soslan Khugaev), fugiu desse lugar, vive e trabalha em outra cidade e pode ajudá-la a fugir, embora ele mesmo não seja tão simpático à ideia.
Kovalenko, que assina o roteiro com Lyubov Mulmenko e Anton Yarush, transita numa narrativa de urgência e realismo social, pautada por um feminismo possível para uma jovem nas condições de Ada. O júri que premiou Unclenching the fists foi presidido pela inglesa Andrea Arnold, cujos filmes estão em plena sintonia com o trabalho da diretora aqui – em especial, Aquário (Fish Tank), de 2009. (Alysson Oliveira)
Somente nos cinemas:
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 1
29/10/21 - 20:45
29/10/21 - 20:45
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 3
01/11/21 - 18:20
01/11/21 - 18:20
Cow
Diretora de estilo vigoroso, a inglesa Andrea Arnold afasta-se de seus dramas marcantes, como Marcas da Vida (2006), Aquário (2009) e O Morro dos Ventos Uivantes (2011), para mergulhar num documentário minimalista mas não menos inquietante do que suas ficções anteriores.
A construção visual, como fotografia de Magda Kowalcyzk, e o desenho de som, assinados por Raphael Sohier e Carolina Santana, garantem uma potência impressionante ao relato, que basicamente acompanha o cotidiano de uma vaca leiteira, Luma, numa fazenda no interior da Inglaterra. Há claramente uma tentativa de enxergar a vida pelo ponto de vista de Luma, com closes sensíveis de seus olhos em vários momentos da narrativa, que permitem compartilhar o fardo desta incansável trabalhadora para o bem-estar humano.
Sem entrevistas ou narrações, o filme basicamente segue a jornada de Luma, por muito tempo confinada com outras vacas num grande estábulo industrial, produzindo leite e bezerros. Se forem vacas, seguirão seu mesmo destino.
Ao optar por este estilo documental sem intervenções, seguindo o fluxo de seu tema, o que o filme propõe é que os espectadores reflitam sobre a super-exploração destes corpos animais, tornando-se basicamente objetos a serviço dos interesses humanos sem que o seu bem-estar, num sentido mais profundo, seja levado em conta. Eles não são vistos como indivíduos portadores de sentimentos ou direitos dentro da perspectiva capitalista e isso se torna verdadeiramente incômodo para quem tiver um mínimo de consciência e sensibilidade diante dos animais, estes seres vivos com quem dividimos de forma tão desigual a existência sobre este planeta. (Neusa Barbosa)
Somente nos cinemas:
Cinesala
29/10/21 - 18:30
29/10/21 - 18:30
Espaço Itaú de Cinema Augusta - sala 1
30/10/21 - 19:00
30/10/21 - 19:00
Cinesesc
2/11/21 - 17:30
2/11/21 - 17:30
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