21/07/2026

Cine Ceará finaliza exibições da competição e aguarda as premiações

Fortaleza - A última noite competitiva do 31o. Cine Ceará trouxe uma seleção eclética que uniu o longa A praia do fim do mundo, de Petrus Cariry (CE), e três curtas: Ato, de Barbara Paz (MG), que participou do mais recente Festival de Veneza; O amigo do meu tio, de Renato Turnes (SC); e Hawalari, de Cássio Domingos (GO). As premiações serão anunciadas na noite desta sexta-feira (3/12), seguidas da exibição especial do documentário Marinheiro das Montanhas, de Karim Aïnouz, em que ele explora suas raízes familiares na Argélia.

Ruínas
Fiel ao seu estilo rigoroso, o premiado diretor cearense Petrus Cariry constrói, em seu sexto longa, A praia do fim do mundo, um conceito estético poderoso, com uma magnífica fotografia em preto-e-branco (também assinada por ele), retratando um hotel desolado à beira-mar, numa região que está sendo devorada pela ressaca. Dentro deste lugar, vivem as duas protagonistas, Helena (Marcélia Cartaxo), a dona do local que se recusa a deixá-lo, e sua filha Alice (Fátima Macedo), uma ativista ambiental que deseja mudar-se dali.

Marcélia Cartaxo deixa definitivamente a pele de Pacarrete, a adorável personagem do filme homônimo de Allan Deberton que lhe deu tantos prêmios, assumindo uma matrona fechada, amargurada, entregue a seus sentimentos e segredos.

A atmosfera do filme tem um quê fantástico, amparada nestas imagens das ruínas de um balneário que, anos atrás, sonhava tornar-se uma nova Cancún e, como descreve uma das personagens, “tornou-se um favelão classe média, a praia do fim do mundo”. O local, chamado Ciarema no enredo, é, na verdade, a praia de Icaraí, a 25 km de Fortaleza, com algumas imagens incidentais de Atafona (RJ), o cenário de um curta documental exibido no Cine Ceará há dias, Mar Concreto, de Julia Naidin.

Metáfora política
Assumidamente, há uma metáfora política neste lugar que alimentou uma utopia e hoje vive imerso em suas próprias ruínas, com personagens de gerações diferentes que não conseguem prosseguir com seu destino. Como descreveu o diretor Petrus Cariry na coletiva de hoje: “Este lugar em ruínas é o Brasil de hoje”.

É também um filme de mulheres, integrado ainda pela amiga de Alice, Elisa (Larissa Góes, vista em outro concorrente no Ceará, Fortaleza Hotel), em que os homens não passam de referências fantasmagóricas - como o namorado ausente de Alice, o pai que desapareceu décadas atrás e um velho misterioso (Carlos César), que vagueia por esse local desolado.

Uma pintura, logo no início, remete ao mito bíblico de Jonas e a baleia, uma referência que será retomada de forma mágica na sequência final. Mais uma vez, o filme de Cariry apresenta mais perguntas do que respostas e o faz de forma artisticamente instigante.

Curtas
Assim como o longa A Praia do Fim do Mundo, os curtas apresentados na última noite foram realizados ou finalizados em plena pandemia, pelo menos dois deles refletindo este estado de emergência em seus próprios temas.
Este foi o caso de Ato, de Barbara Paz, que parte de um argumento original dela e desenvolve, num roteiro de Cao Guimarães, o jogo entre dois personagens, Ava (Alessandra Maestrini) e Dante (Eduardo Moreira), num cenário mínimo, com forte marca teatral, sintonizando emoções represadas de um tempo em que os contatos foram restritos, acentuando o estado de solidão.

Hawalari, de Cássio Domingos, por sua vez, fornece uma metáfora visual ao choque do encontro entre uma indígena (Hawalari Coxini) e um homem branco (Vinicius Queiroz) no século XIX, em que mesmo a declarada intenção deste último de seu desejo de estudar os povos originários não retira a este contato um potencial de destruição. Na coletiva do filme, o diretor destacou que o povo Karajá, ao qual pertence a atriz do filme (que se assume como trans), e outros que vivem na região do Araguaia (GO), estão sofrendo violentamente tanto em função da pandemia quanto da invasão de garimpeiros. A comunidade de Coxini, que é corroteirista e produtora associada do curta, ainda não assistiu ao filme, mas isto está sendo preparado.

Finalmente, O amigo do meu tio, de Renato Turnes (SC), já premiado no Mix Brasil, sintonizou, a partir de arquivos familiares do roteirista e personagem do filme, Vicente Concilio, a lembrança de uma outra epidemia, a da AIDs nos anos 1980, numa chave tanto autobiográfica quanto, na medida do possível, também divertida, ao referir-se à autodescoberta de um Vicente ainda criança como homossexual.