"Fortaleza Hotel" coloca em foco a sororidade entre dois mundos
- Por Neusa Barbosa, de Fortaleza
- 28/11/2021
- Tempo de leitura 4 minutos
Fortaleza -Da mesma forma que conjugou as emoções dos personagens de seu primeiro longa, Greta (2019) no masculino, o diretor Armando Praça desdobra-as sob um ponto de vista feminino e entre duas geografias em seu novo trabalho, Fortaleza Hotel, o primeiro concorrente da Mostra Ibero-Americana do Cine Ceará. Filmado em 2019 e montado durante a pandemia, o filme teve sua première mundial em Fortaleza ontem (27/11).
Pilar (Clébia Sousa, atriz pernambucana que faz aqui sua primeira e impactante protagonista), camareira de hotel em Fortaleza, e Shin (Lee Young-Lan), viúva de um empresário sul-coreano, são essas duas mulheres que polarizam as situações do filme, com roteiro original de Isadora Rodrigues e Pedro Cândido.
Por muitas diferenças que haja entre suas vidas, Pilar e Shin estão, por assim dizer, no mesmo barco. Sem contar com homens a seu lado, elas comandam uma existência neste momento pressionada por uma crítica necessidade de dinheiro. Pilar, que pensava emigrar para a Irlanda, tem a filha (Larissa Góes) sequestrada pelo crime organizado e precisa levantar uma alta soma para resgatá-la. Shin, por suas vez, tenta reaver dinheiro do marido morto para sepultá-lo.
A fotografia precisa de Heloísa Passos ilustra bem essa semi-obscuridade que modela as intenções de cada uma, que encontram uma na outra uma espécie de apoio e que não oculta um componente de traição. Nenhuma situação retrata melhor a ambígua relação entre as duas do que a sequência, aliás belíssima, em que as duas dançam, primeiro ao som de um forró, depois ao de um tango sul-coreano, dizendo com imagens o que páginas de diálogos não conseguiriam traduzir - ainda mais porque as duas não falam a mesma língua, entendendo-se num inglês precário.
Na montagem, Karen Harley, Gustavo Campos e Rita Pestana costuram com calma esse caleidoscópio de vidas no limite em que as duas mulheres encontram alguma forma de solidariedade e empatia - que é quase amor nestes tempos de tanta solidão.
Coletiva
Na coletiva de imprensa, o diretor Armando Praça destacou a emoção de mostrar o filme pela primeira vez na tela grande em sua cidade. Falou também de suas intenções ao escolher como cenário da história um hotel no centro de Fortaleza e não em suas luminosas praias, seu cartão postal clássico.
Neusa Barbosa com a atriz Clébia Sousa e o diretor Armando Praça, do filme "Fortaleza Hotel", durante o debate. Crédito: Julia Moura
Contando com uma locação real, um hotel há muito fechado e bastante transformado pela direção de arte, o diretor afirmou: “Filmei a cidade que era necessária à história. Pilar é uma personagem que trabalha ali e mora na periferia. Ela não faz suas compras no shopping center”.
A questão coreana dentro da história já existia desde o roteiro e relaciona-se a uma característica real de Fortaleza, uma cidade que abriga uma grande comunidade daquele país, radicada na capital cearense por conta de trabalho. A atriz Lee Young-Lan foi selecionada num processo de casting em colaboração com uma empresa local.
O processo de ensaios durou cerca de três semanas, permitindo o entrosamento entre as duas atrizes, usando o inglês precário que é o idioma natural do filme, e do qual saíram sugestões da sul-coreana, como o uso do tango na cena da dança. Como destacou o diretor, através dela ele descobriu que, na Coreia do Sul há um nicho expressivo de admiradores do tango, que ele mesmo conheceu de perto numa viagem de pesquisa àquele país realizada durante a pré-produção. Uma das muitas surpresas dessa interculturalidade a que o filme remete pelo viés da empatia.
Programação de domingo
O festival prossegue hoje (28/11) com a exibição do longa uruguaio-italiano Bosco, de Alicia Cano Menoni, um documentário extremamente pessoal em torno das raízes italianas da família da diretora uruguaia, e três curtas da mostra competitiva: O Durião Proibido, de Txai Ferraz (PE), Foi um tempo de poesia, de Petrus Cariry (CE), e Ausências, de Antonio Fargoni (SP).
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