21/07/2026

Busca de identidade domina os filmes concorrentes no Cine Ceará

Fortaleza - A busca da identidade foi o tema unindo os três filmes da mostra competitiva do Cine Ceará na noite de terça (30/11).

Coproduzido com verbas holandesas (de um fundo do IDFA - Festival Internacional de Documentários de Amsterdã) e alemães, o documentário gaúcho 5 Casas, de Bruno Gularte Barreto, acompanha a sofrida investigação da história familiar do diretor a partir do momento em que, adulto, ele retorna à sua terra natal, D. Pedrito.

Nessa cidadezinha voltada para a agropecuária, ele redescobre histórias e traumas de infância a partir das próprias lembranças de perdas familiares e também de personagens marcantes de sua vida - como a professora D. Maria, que o defendeu de bullying quando pequeno na escola católica em que estudava e se mostrou posteriormente uma figura aguerrida também no enfrentamento do racismo e da especulação imobiliária.

Figuras como essa professora combativa e um amigo gay que deixou a cidade após sofrer violências expõem a intolerância mal-disfarçada que contamina tantas cidades e não só as pequenas num Brasil que descobriu, atônito, seu lado mais sombrio.

Imagens sucessivas de demolição ilustram visualmente o tema do filme, que recorre também a fotos e depoimentos para traçar o perfil de uma família abalada por tragédias mas, no fundo, igual a tantas outras. Ao falar de sua aldeia, fala-se do mundo todo.

Na coletiva de imprensa, o diretor comentou sobre a grande emoção de ter compartilhado a sessão de ontem (30/11) no cine São Luiz, que foi a première brasileira do filme, com diversos de seus familiares, que ainda não o tinham visto.

Ele destacou que o projeto do teve seu gatilho por acaso, quando ele revisitou sua professora, Maria, e teve a percepção de que ela estava envelhecendo e que ele poderia perder a chance de registrar essa figura tão marcante em sua vida. Ele finalmente a filmou, valendo-se de um prêmio vencido por um curta-metragem, Linda, Uma História Horrível, adaptado de um conto de Caio Fernando Abreu, que lhe permitira comprar uma câmera. Estas imagens tornaram-se o gatilho de um projeto desenvolvido e decantado ao longo de vários anos, um processo em que foi particularmente importante a parceria com orientadores do IDFA. “Todo este processo levou-me a ver que a história, mesmo sendo tão pessoal, interessava não somente a mim mesmo”, frisou.

Curtas
Num registro totalmente distinto, o da distopia e da ficção científica, o curta Sideral, de Carlos Segundo (RN), concorrente à Palma de Ouro em Cannes 2021, focaliza uma família de trabalhadores cuja vida é drasticamente transformada pelo lançamento de um foguete do Centro Aeroespacial de Natal (RN). A mulher (Priscila Vilela) é funcionária da limpeza do centro, enquanto o marido (Ênio Cavalcante) é mecânico. O casal tem dois filhos.
Desde a primeira cena, em que a mulher, areando panelas, atira uma delas na parede, sintoniza-se um mal-estar neste casamento. Mas nada prepara o espectador para a inusitada decisão de Marcela de esconder-se no foguete que vai para o espaço - o que provoca a visita de constrangidos oficiais à casa da família, este um momento particularmente rico do peculiar tom tragicômico do enredo.

Na coletiva via zoom, o diretor destacou que esta história, um roteiro original, fazia parte de uma série sobre famílias, das quais ele acabou selecionando esta. A escolha do preto-e-branco foi decidida porque ele “não queria datar este relato, já que a militarização e o patriarcalismo sempre existiram e seguem existindo”. Segundo lembrou ainda que se interessa, em toda a sua filmografia - que inclui um longa, Fendas, e cinco curtas -, “por histórias mínimas em que personagens comuns fazem movimentos muito potentes”.

Já o concorrente mineiro O Resto, de Pedro Gonçalves Ribeiro, recobre de uma camada surreal, na fronteira entre realidade e ficção, a história de Iolanda Bambirra - uma senhora que “descobre” estar morta quando vai a um médico no SUS. Erroneamente dada como morta, ela percorre um calvário digno de Franz Kafka para recobrar sua vida, recorrendo a advogados para desbloquear sua conta bancária e outras providências.


Com uma curiosa narração em off, o diretor confere ao filme uma atmosfera dúbia, retratando Belo Horizonte como uma espécie de “cidade assombrada, em que tudo é ruína”.


Na coletiva de imprensa, o diretor, que atualmente finaliza um mestrado em Lisboa, fez questão de manter um certo mistério sobre as fronteiras entre realidade e ficção que permeiam seu filme. Destacou que sua primeira inspiração foi a história real de uma espanhola, que ficou 10 anos tentando provar que não estava morta e defendeu a primazia das narrativas híbridas. Afinal, como já dizia o mestre Eduardo Coutinho, a partir do momento em que se liga uma câmera já existe uma alteração desta suposta realidade pura de uma situação ou personagem.

Já sobre Belo Horizonte, Pedro Gonçalves Ribeiro defendeu que, apesar dos comentários sobre a fantasmagoria e sobre ser “uma cidade em que tudo quase acontece”, como se diz no filme, ele garante que fez “uma declaração de amor” à capital mineira.