21/07/2026

Imigração e trabalho foram temas dos filmes na competição do Cine Ceará

Fortaleza - A imigração ilegal, o mundo do trabalho e o passado mítico do Nordeste entraram na tela do Cine São Luiz nesta segunda (29/11) com a passagem dos concorrentes das mostras competitivas, o longa equatoriano Vacío, de Paul Venegas, e os curtas Chão de Fábrica, de Nina Kopko (SP), e Encarnado, de Otávio Almeida e Ana Clara Ribeiro (PI).

Vencedor como melhor filme dos festivais BAFICI e de Guayaquil e representante, no ano passado, do Equador na disputa de indicações ao Oscar, Vacío focaliza o fenômeno da imigração clandestina, a nova escravidão dos dias atuais, ao acompanhar a saga de dois viajantes chineses, Xiao Lei (Jing Fu)
e Wong (Lidan Zhu), procurando vida nova no Equador.

Numa linguagem realista, que empresta seu tom da experiência anterior do diretor equatoriano como documentarista - esta é sua primeira ficção -, o filme acompanha as agruras destes dois trabalhadores, cujos passaportes são confiscados pelo patrão mafioso, Chang Da (Day Min Meng). O foco está na manipulação completa das vidas destas pessoas que caem num país estranho, onde não dominam sequer os rudimentos da língua, apenas para serem manobrados como marionetes pelos interesses escusos deste chefe.

Jovem e bela, Xiao Lei atrai a cobiça do patrão, tanto quanto os desejos de Wong e de um outro empregado, este equatoriano, Victor (Ricardo Velastegui) - uma síntese bem-humorada de um personagem popular sul-americano, combinando a simpatia, o machismo e a paixão pelo futebol.

Set em três idiomas

Presente à coletiva em Fortaleza, o diretor equatoriano (foto ao lado) comentou que viveu por seis anos na China. O relativo comando do idioma facilitou o convívio no set com atores chineses, ainda que radicados no Equador. No set, falava-se chinês, castelhano e inglês.

Os atores chineses, todos não-profissionais, fazem parte da grande comunidade do país em Guayaquil, a maior cidade do Equador e sede de um porto que atrai imigrantes de todas as partes. O diretor recorreu a um preparador de elenco para instruir este elenco na parte teatral, encarregando-se pessoalmente “da emoção de cada cena”.

A fotografia, de Simon Brauer, é marcada por muitas sombras que, como define Venegas, produziram um efeito que buscava imprimir ao filme, traduzindo visualmente a condição da comunidade chinesa, habitualmente muito reservada e avessa a contatos externos.

O diretor comentou ainda que o filme “foi proibido na China”, apesar de ter recebido prêmios em festivais e ter sido apresentado a autoridades consulares no Equador. “Aparentemente, o filme mostra aspectos negativos da imigração chinesa, que é imensa, e não só para o Equador como para todas as partes do mundo, que o governo não deseja que sejam vistos”, observou.

Revendo o passado
Muito distintos em sua linguagem, os dois curtas da noite interrogaram o passado do Brasil, cada um sob um prisma. Fechado num conceito estético muito rigoroso, em termos de fotografia e som, Encarnado, de Ana Clara Ribeiro e Otávio Almeida, voltou-se para o passado mítico do Nordeste, escavando camadas da representação mítica do vaqueiro, contando com dois personagens, vividos por Marcelo Evelin e Naelson Vieira - este, descoberto nas locações do curta, a belíssima região agreste em torno de Castelo do Piauí (PI).

Abrindo com arquivos raros, com imagens de sertanejos e gado, o curta dispensou diálogos, apostando na força de suas imagens esplendidamente produzidas, na montagem cuidadosa e num uso econômico de sua trilha original.

Chão de Fábrica, primeiro curta de Nina Kopko - diretora-assistente de A Vida Invisível, de Karim Aïnouz -, inspirou-se na peça O Pão e a Pedra, de Sérgio de Carvalho, para resgatar as figuras de mulheres metalúrgicas da histórica greve de 1979, no ABC paulista.
O cenário é um prosaico banheiro, onde quatro operárias almoçam, descansam, tomam sol pela fresta da janela e trocam confidências tanto sobre as vidas pessoais quanto sobre o movimento grevista que se forma do lado de fora. As personagens são interpretadas por Helena Albergaria, Carol Duarte (de A Vida Invisível), Joana Castro e Alice Marcone.


Neste singular microcosmo, que respira autenticidade e afeto, um quinto personagem é Lula, o líder operário que emergiria daquelas greves para tornar-se a maior figura popular da política do país. Ele está presente nas conversas e também em fotos, como as que aparecem no final, da greve do ABC. Um trabalho belíssimo nestas fotos é destacar os poucos rostos femininos na multidão que então lotava o estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo.

Conforme declarou Liz Paim, montadora do filme, em sua apresentação, na noite de ontem, este foi um trabalho realizado sem qualquer financiamento público, feito com urgência e a parceria de um grupo majoritariamente feminino, com cerca de 35 mulheres em várias funções. Filmado em fevereiro de 2020, Chão de Fábrica foi montado em plena pandemia e teve como objetivo central responder à pergunta: - onde estavam as mulheres na greve de 1979? Uma indagação cujas respostas revelam tanto a invisibilização das operárias quanto o seu alijamento do mundo do trabalho pela obrigação de abraçar as tarefas domésticas e familiares.

Foto do diretor Paul Venegas - Crédito: Neusa Barbosa