O tema da memória em destaque no Cine Ceará
- Por Neusa Barbosa, de Fortaleza
- 29/11/2021
- Tempo de leitura 5 minutos
Fortaleza - O tema da memória uniu os três curtas e o longa da segunda noite competitiva do Cine Ceará.
Apresentado no prestigiado IDFA - o festival internacional de documentários de Amsterdã -, e em festivais como Málaga, Guadalajara e vários outros, Bosco, da diretora uruguaia Alicia Cano Menoni, traça seu caminho a partir da cidadezinha da Toscana, terra de origem da família da diretora, e da figura de seu avô, Orlando Marciano Menoni Menoni.
No princípio do filme, este avô, já centenário e que nunca pisou na cidadezinha italiana - o que não impede que esteja muito vívida em sua imaginação -, garante à neta que ela não precisará de mais de cinco dias para desvendá-la. Alicia, no entanto, gastou nada menos do que 13 anos, entre muitas viagens a esse local em vias de desaparecer, em que suas 123 casas não abrigam mais do que 13 habitantes. As lápides do cemitério local são bem mais: 639, cuidadosamente limpas e enfeitadas com flores frescas por Gemma, uma dessas habitantes.
São Gemma e também Rita as duas moradoras de Bosco que conduzem o filme, tornando-se as protagonistas de uma narrativa que levanta com delicadeza os véus sobre os inúmeros assuntos que toca, revelando aquilo que a diretora, numa entrevista via zoom, descreve como “a pequena História dentro da grande História”.
Ostentando um sobrenome que está na origem da cidade, a diretora foi acolhida de braços abertos, ocupando por temporadas uma dessas casas vazias da cidade, o que lhe permitiu observar de perto a dinâmica de um lugarejo que, apesar da escassez habitacional, mantém uma rotina toda própria, recusando-se a morrer. São sinais disso os curiosos hábitos locais, como contar os passos que conduzem de um lugar a outro, assim como o apego de Rita a todos os animais, sejam suas ovelhas e cabras, seu gato e seu galo de estimação ou um mero lagartinho colorido que passa e ela faz questão de exibir à câmera.
Esses animais, assim como cenas da natureza, tornam-se também personagens do filme, que capta, do outro lado do mundo, no Uruguai, a passagem do tempo também para o avô e a avó de Alicia, estabelecendo um paralelo de como a vida transcorre em qualquer lugar. Ao final, a diretora conta que acumulou 100 horas de imagens, que resultaram no filme de 82 minutos depois de um longo processo de montagem, que consumiu 9 meses. “Eu poderia facilmente ter feito um filme de três horas”, constata.
Olhares
Um dos detalhes mais intrigantes ao longo de Bosco é como o avô guarda memórias tão vivas desta cidade de seus ancestrais sem nunca ter estado lá. A neta até o convidou para esta viagem, a médica dele aprovou mas, finalmente, depois de uma noite insone, ele recusou ir. Ao longo dos anos, a diretora foi-lhe mostrando trechos do filme mas, afinal, ele não viveu para vê-lo nos cinemas, como sonhava.
Alicia conta que, já viúvo, ele ansiava por este lançamento, já que o que o intrigava era como seria a reação das pessoas ao ver o filme. Por conta da pandemia, a estreia
foi adiada e ele morreu antes - tranquilamente, aos 103 anos, “depois de comer um monte de chocolates”.
foi adiada e ele morreu antes - tranquilamente, aos 103 anos, “depois de comer um monte de chocolates”.
Curtas em sintonia
Os três curtas da noite também sintonizaram, cada um a seu modo, o tema da construção da própria história. O Durião Proibido, de Txai Ferraz (PE), é o diário de um brasileiro, Vinicius, que relata suas experiências na Tailândia e as incertezas de um romance com um jovem japonês, Haruki, prestes a partir do país. Como relatou o diretor na entrevista coletiva, o filme é uma mistura de experiências pessoais dele com um processo de ficcionalização que foi sendo explorado ao longo do desenvolvimento do roteiro. As imagens, algumas captadas entre 2019 e 2020, foram todas refilmadas pela câmera de celular, adicionando-se também outras colhidas do Youtube. O filme foi montado durante a pandemia e torna-se também um retrato da vida nestes tempos.
Foi um tempo de poesia (foto ao lado), de Petrus Cariry (CE), partiu de imagens inéditas do poeta Patativa do Assaré (1909-2002), remanescentes de um documentário dos anos 1980, realizado pelo pai do diretor, Rosemberg Cariry, para fazer também um diário bastante pessoal de suas reminiscências do poeta, seu padrinho.
Há imagens e fotos do próprio Petrus, que conheceu Patativa desde pequeno, permitindo um inventário, agora de um ponto de vista maduro, de suas lembranças e emoções diante do personagem, um dos maiores poetas populares do país e uma figura de seu círculo íntimo.
Fruto do projeto Cinema Instantâneo, que já produziu 22 curtas e 3 longas, Ausências, de Antonio Fargoni (SP), mergulha no cotidiano de uma família, destacando a figura do menino Gustavo, cuja paixão pela natação nas águas da represa desencadeia, num determinado momento, uma tensão e ambiguidade que polarizam a história. Como destacou o diretor na coletiva, boa parte dos integrantes do filme, que é uma ficção, a exemplo de outras produções dele no projeto, são membros de sua própria família.
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