Mulheres à beira de um ataque de nervos ocupam “La Ligne”
- Por Neusa Barbosa, de Berlim
- 12/02/2022
- Tempo de leitura 2 minutos
Berlim - O frio aumentou um pouco nas ruas de Berlim, baixando para 3 graus com chuvinha, mas, dentro das salas do Festival a temperatura subiu, embalada pelos conflitos familiares do concorrente francês La Ligne. Dirigido pela franco-alemã Ursula Meier, este drama eventualmente histérico pontua o relacionamento extremado entre uma mãe, a ex-cantora e pianista Christina (Valeria Bruni Tedeschi) e suas três filhas, Margaret (Stéphanie Blanchoud), Louise (India Hair) e a caçula, Marion (Elli Spagnolo, um encanto).
O filme já começa em voltagem extrema, com Margaret e a mãe brigando, o que termina com muitos objetos quebrados e a mãe ferida. O incidente violento, que não é o primeiro causado por Margaret, acarreta-lhe uma medida de restrição de contato - ela não pode chegar mais perto do que a 100 metros da mãe, a linha de que fala o título.
Diretora de filmes como Minha Irmã (2021), Ursula coloca nas mãos de suas personagens uma história visceral de dependência, afeto, cobranças, culpas e o desejo da caçula, Marion, de tudo consertar com suas orações - um esforço não raro comovente, dadas as circunstâncias.
O roteiro, assinado pela diretora, a atriz Stéphanie Blanchoud - que defende o papel mais difícil de todos - e Antoine Jaccoud põe em marcha o retrato de uma família alquebrada, fragmentada, em que a busca de amor de cada um dos integrantes se dá por vias tortas. Margaret procura amor e aceitação da mãe, que por sua vez encontra mais satisfação nos inúmeros namorados do que na maternidade, O oposto disso é a filha do meio, Louise, grávida de gêmeos e a mais ligada à domesticidade. Os homens entram nesse mundo como coadjuvantes, com destaque para Benjamin Biolay, o amigo que tenta segurar as pontas de Margaret no auge de sua crise pessoal.
Num filme com tantos papeis femininos de peso, é de se imaginar que, dependendo dos concorrentes que vierem pela frente, se pode até pensar numa premiação para uma destas atrizes - que desfiam os caminhos de uma feminilidade em crise, exasperada mas que não perde a esperança na sororidade, ainda que difícil.
Docudrama
O experiente documentarista cambojano Rithy Panh apresentou na competição seu mais novo trabalho, Everything Will Be Ok.
Contando com um texto de Christophe Bataille na narração, o filme recorre a imagens documentais e às habituais recriações em cenários com miniaturas que permitem ao diretor expor suas reflexões, em geral amargas, sobre o estado ambiental e social do mundo, pondo em relevo a exploração dos animais. Mas do que ele fala muito também é do poder e de sua “alegria” de destruir coisas.
Contando com um texto de Christophe Bataille na narração, o filme recorre a imagens documentais e às habituais recriações em cenários com miniaturas que permitem ao diretor expor suas reflexões, em geral amargas, sobre o estado ambiental e social do mundo, pondo em relevo a exploração dos animais. Mas do que ele fala muito também é do poder e de sua “alegria” de destruir coisas.
Cineasta respeitado pela denúncia que fez em sua obra do genocídio em seu país cometido pelo regime de Pol Pot, em filmes impactantes como A Imagem que Falta (2013), Panh, aqui, não é tão bem-sucedido, realizando um filme um tanto discursivo e abstrato.
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