Um conto de terror, outro de inverno
- Por Neusa Barbosa, de Berlim
- 15/02/2022
- Tempo de leitura 2 minutos
Berlim - Em sua reta final, num festival que correu contra o tempo, por ter sido encurtado em quatro dias, pelo aperto nas medidas sanitárias, a Berlinale não mudou a praxe de reservar suas melhores atrações para o final.
Uma delas foi a produção franco-espanhola Un año, una noche, de Isaki Lacuesta, que resgata a história de pessoas traumatizadas pelos atentados terroristas em Paris, na danceteria Bataclan, em novembro de 2015.
Baseando-se no testemunho de um desses sobreviventes, Ramón González, autor do livro Paz, Amor y Death Metal, o filme encontra no casal Ramón (Nahuel Pérez Biscayart) e Céline (Noémie Merlant) o espelho de dezenas de pessoas comuns que tiveram a normalidade de suas vidas completamente destroçada. Meses depois, ele, um executivo financeiro, ela, uma assistente social que cuida de adolescentes filhos de imigrantes, lutam para reencontrar seus sentimentos, ideias, rotinas e continuar vivendo - o que não é nada simples, como não foi para os sobreviventes de guerras, campos de concentração e outros eventos dramáticos extremos.
Nahuel e Noémie, dois atores extraordinários, conseguem injetar sensibilidade e densidade aos seus personagens, sem psicologizar demais. O filme opta por colocar em paralelo suas diferentes atitudes diante do trauma - ele, mais ligado em falar, escrever, lembrar de todos os detalhes; ela, mais preocupada em esquecer, negar, deixando inclusive de contar aos próprios pais e colegas de trabalho que estava no Bataclan naquela noite fatídica, em que morreram fuziladas cerca de 100 pessoas.
A reconstituição do evento é igualmente impressionante, colocando o espectador na pele dos personagens, permitindo-lhe compartilhar sua vivência de uma maneira totalmente impactante - um trabalho de peso da direção de arte de Sébastien Gondek, da fotografia de Irina Lubtchansky e da montagem precisa de Sergi Dies e Fernando Franco.
Coração no inverno
Outro drama que impressionou nesta reta final da competição foi a produção suíço-alemã Drii Winter, escrita e dirigida pelo jovem ator e diretor Michael Koch e que, mais uma vez neste festival, foi arrebatada por uma interpretação feminina cativante - no caso, da impressionante atriz novata Michèle Brand, na pele da protagonista, Anna.
Moradora de uma bucólica aldeia nas montanhas suíças, sempre cercada por paisagens enevoadas, Anna divide com sua mãe a administração de um pequeno bar-hotel. Mãe solteira de uma menina de 5 anos, Anna se apaixona por Marco (Simon Wisler), um trabalhador de fora, um tanto rude, mas que parece preencher a necessidade dela de um relacionamento afetivo e familiar para a filha também.
Esplendidamente fotografado por Armin Dierolf, explorando com a mesma transparência e liz as paisagens montanhosas e o rosto de Anna, onde se lêem os altos e baixos de um enorme turbilhão emocional que se avoluma, o filme conta também com contrapontos musicais de um coral suíço, que funciona como aqueles antigos coros gregos, comentando os sentimentos da história.
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