21/07/2026

A jornada de um cantor brega na terra de Fellini

Berlim – As paisagens definem o novo filme do diretor austríaco, Ulrich Seidl, que apresentou na competição berlinense seu drama Rimini. Boa parte do filme se passa realmente na terra natal de Federico Fellini, sempre no inverno, sob névoa e mesmo neve, com uma ação que se alterna de uma casa desolada para outra, traduzindo à perfeição a decadência de seu protagonista, Richie Bravo (Michael Thomas).

Cantor de meia-idade com físico de lutador de luta livre aposentado, que hoje se apresenta em hotéis riminenses para um público de idosos – estes, aproveitando os preços reduzidos da baixa temporada -, Richie guarda na sua casa-mausoléu os restos de dias de maior sucesso – uma profusão de móveis, objetos e figurinos cafonas e muitas garrafas de bebida. De alguma maneira, esse crepúsculo do macho que ele representa comunica-se com a desordem emocional de Peter von Kant, o protagonista do filme de François Ozon, apresentado no mesmo primeiro dia da Berlinale, deixando entrever a ligação entre as duas pioneiras atrações da competição.

Não é usual, ao menos no cinema mainstream, ver personagens masculinos ocupando espaços de descontrole e fragilidade emocional como estes dois. No caso de Richie Bravo, a precariedade é também financeira, tanto que ele chega a complementar sua renda, cada vez mais escassa, com programas sexuais com suas fãs mais idosas.
Assim como seu conterrâneo, Michael Haneke, Seidl não é diretor de desviar a câmera dos momentos de degradação humana de seus personagens, sem temer ferir espíritos suscetíveis. Richie Bravo não é mesmo nenhum herói, embora a interpretação de Michael Thomas injete nele uma humanidade por vezes comovente, terna e engraçada. É um personagem complexo e envolvente, num determinado momento confrontado por sua filha, Tessa (Tessa Götticher), da dívida de toda uma vida por tê-la abandonado.

Outros temas inquietantes penetram o tecido do filme, como a presença de imigrantes africanos e árabes ao longo do caminho de Richie – num determinado momento, bem mais do que isso – e também uma menção ao passado nazista, através da figura do velho pai decrépito (Hans-Michael Ehberg) de Richie. Um tema com que o Brasil recentemente teve que se preocupar e que não abandona a mente dos artistas germânicos cujos países viveram esse pesadelo na carne.

Rigoroso e cheio de ideias como é, Rimini perde um pouco o fôlego na segunda metade, extraindo um pouco da energia da história de um personagem contraditório mas, sem dúvida cativante, interpretado com brio pelo ator Michael Thomas, que canta ele mesmo as canções bregas do filme.