Um festival cheio de personagens femininas intrigantes
- Por Neusa Barbosa, de Berlim
- 14/02/2022
- Tempo de leitura 2 minutos
Berlim - A essa altura, com o festival bem adiantado, já dá para notar que na competição berlinense 2022 não faltam, além de filmes dirigidos por mulheres, personagens femininas complexas, de todos os matizes. É o caso do filme alemão AEIOU - Das Schelelle Alphabet der Liebe, da cineasta berlinense Nicolette Krebitz, cujo enredo é pilotado em alta voragem pela protagonista, uma atriz, Anne Moth (a intérprete austríaca Sophie Rois), uma mulher imprevisível e intrigante..
Aos 60 anos, ela já viveu profissionalmente dias melhores. Pessoalmente, sobrevive mal a uma grande tragédia. Seu consolo é o amigo e senhorio, Michel (interpretado com doses precisas de cinismo e ternura pelo veterano Udo Kier), que espera longos meses para receber seus alugueis e ainda oferece ombro amigo, morando no andar abaixo do dela.
Através de um trabalho, ela acaba conhecendo um garoto de 17 anos, Adrian (Milan Herms), a quem, meio contra a vontade, ela acaba aceitando dar aulas para que ele supere dificuldades de entonação - e ele não é outro que o rapaz que, dias atrás, roubou sua bolsa na porta de um restaurante, o incidente que abre o filme.
O roteiro, assinado pela diretora, desenvolve-se com sequências visuais expressivas e, sobretudo imaginativas. Pode-se notar até uma homenagem à Nouvelle Vague, especialmente quando Anna e Adrian escapam numa louca aventura pela Côte d’Azour, que traduz a busca de transgressão, liberdade e paixão de duas pessoas de idades e histórias tão diferentes.
É fato que a linguagem do filme procura a inquietação, a incerteza, e obtém estes efeitos através da fotografia precisa de Reinhold Vorschneider, a montagem habilidosa de Bettina Böhler e o uso de uma narração mais ou menos constante, que comenta, sublinha, eventualmente explica, mas se cala no final, que é aberto a múltiplas interpretações. Como deve ser.
De qualquer modo, a julgar por este trabalho, Nicolette Krebitz, que tem um longo currículo como atriz, a nova geração do cinema alemão vai bem, obrigado. AEIOU.., aliás, tem entre suas produtoras a talentosa Maren Ade, diretora do ótimo Toni Erdmann, ganhador do prêmio FIPRESCI em Cannes 2016 e indicado ao Oscar em língua estrangeira em 2017.
Relacionadas
Berlinale divulga o balanço da edição 2022
- 22/02/2022
Berlim 2022 consagra as mulheres
- 16/02/2022
Berlinale à espera dos prêmios
- 16/02/2022
Um conto de terror, outro de inverno
- 15/02/2022
A atração fatal, segundo Claire Denis
- 12/02/2022
O filme-denúncia chega a Berlim
- 12/02/2022
