21/07/2026

Cannes consagra anarquia polêmica de Ruben Östlund mas divide prêmios

Afinal, foi o ano da divisão. O júri presidido por Vincent Lindon, que optou pela ousadia anárquica de Triangle of Sadness (foto), do sueco Ruben Östlund – recebendo a segunda Palma de Ouro depois de The Square (2017) -, parece não ter chegado a um acordo justamente nos dois principais prêmios abaixo do principal. E, o que é pior, dando o Grande Prêmio do Júri a dois filmes tão díspares quanto o sublime Close, do jovem diretor belga Lukas Dhont, e o equivocadíssimo Stars at Noon, da veterana francesa Claire Denis em um de seus piores momentos.

Não houve acordo no júri também para atribuir o Prêmio do Júri, que pelo menos ficou para dois filmes com qualidades, duas coproduções italianas: Le Otto Montagne, falado em italiano e filmado na Itália, dirigido pela dupla belga Charlotte Vandermeersch e Felix van Groeningen, e a fábula Eo, do veteraníssimo cineasta polonês Jerzy Skolimowski, que elege um burrinho como protagonista – na verdade, “interpretado” por seis animais, que o diretor fez questão de agradecer ao receber seu prêmio, lembrando o nome de cada um deles.

Acertou bem mais este júri, predominantemente integrado por atores, na atribuição dos prêmios de interpretação. A melhor atriz foi a iraniana Sahra Amir Ebrahimi, que interpreta uma jornalista em Holy Spider, de Ali Abbasi, e fez um emocionado agradecimento ao festival, lembrando todas as atribulações que ela vem sofrendo em seu país. O ator foi o sul-coreano Song Kang-ho, visto em Parasita e agora protagonista de Broker, do japonês Hirokazu Kore-eda, que interpreta um singular traficante de bebês.

A melhor direção foi dada a outro sul-coreano, o veteraníssimo Park Chan-wook, pelo seu policial visualmente requintado, com um enredo encharcado de melodrama, Decision to leave. O melhor roteiro, ao sueco-egípcio Tarik Saleh, pelo envolvente Boy from Heaven, um mergulho na realidade de uma influente faculdade muçulmana no Cairo, disputada pelo poder político e pelos fundamentalistas.

Neste ano comemorativo, como é de praxe em datas redondas, criou-se também um prêmio da 75ª edição para os incontornáveis irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne – que trouxeram mais uma saga repleta de humanismo em Tori et Lokita, sobre dois jovens imigrantes africanos explorados na Europa. Os Dardenne não precisam mais de nenhum prêmio na vida, é verdade, mas a Europa certamente precisa prestar atenção ao que este filme singelo diz.

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