21/07/2026

James Gray realiza sua crônica profunda da América em "Armageddon Time"

Cannes - Concorrente à Palma outras quatro vezes, o norte-americano James Gray entrega em Armageddon Time um drama não só autobiográfico e intimista, como delineia no enredo o acirramento do conservadorismo nos EUA. O filme une, assim, o melhor de dois mundos, o particular e o social, numa história ambientada nos anos 1980 que demonstra a maturidade do diretor de 53 anos e tem no elenco um de seus maiores trunfos, aí incluídos os dois mais jovens, Banks Repeta e Jaylin Webb.

O protagonista e alter ego de Gray é Paul Graff (Banks Repeta), um garoto de 13 anos, de classe média, numa família judaica cheia de afeto e contradições. Os pais dele são interpretados com brio por Anne Hathaway e Jeremy Strong, paradigmas de filhos de imigrantes que lutam bravamente para a ascensão social dos filhos através da educação. O avô, interpretado por Anthony Hopkins, representa a nota de afeto mais encorajadora para o garoto Paul, que desenha e sonha tornar-se artista.

A realidade bate à porta na escola pública que ele frequenta, quando se torna amigo de um menino negro, Johnny Davis (Jaylin Webb, extraordinário). Vivendo com a avó em condições muito pobres, Johnny vive literalmente na pele as exceções sociais que levam à exclusão dos afro-americanos das melhores oportunidades nos EUA - uma situação que perdura desde sempre.

O filme se refere a essa desigualdade de uma forma orgânica, através desta amizade sincera entre os dois garotos que, finalmente, tomam rumos separados e vivem um episódio traumático - que abre uma brecha para falar das escolhas difíceis da vida e a um debate ético devastador. De outro lado, Gray insere o contexto dos anos 1980, a era de ascensão de Ronald Reagan, que prepara outra ascensão futura de Donald Trump - cuja família, aliás, exerce uma influência profunda e perniciosa na escola particular que futuramente Paul será forçado a cursar.

Esse contraste entre uma elite branca e preconceituosa e as aflições sociais de Johnny - percebidas com sensibilidade por Paul - formam uma das camadas mais viscerais de um filme que cresce quanto mais se pensa nele.

Direitos dos animais

Outro concorrente à Palma foi Eo, do veterano diretor polonês Jerzy Skolimowski. Concorrente já sete vezes à Palma de Ouro - com um Grande Prêmio do Júri em 1978 para O Estranho Poder de Matar -, o cineasta desta vez criou uma fábula doce/amarga em que o toque fantástico não encobre uma dramática realidade: a exploração dos animais.

Por conta disso, Skolimowski elege como seu protagonista um burrinho, Eo, cujo destino é alterado diversas vezes ao longo da história, sempre subordinado aos interesses humanos que mudam e, não raro, são perversos - fazendo uma releitura de um de seus filmes favoritos, A Grande Testemunha (Au Hasard, Balthazar), de Robert Bresson (1966).
O animal começa o filme como integrante de um circo, onde faz uma performance ao lado de uma moça (Sandra Drzymalska) que o adora, e ele a ela. Mas diversas circunstâncias os separam e, embora ele permaneça sonhando juntar-se novamente a ela, uma série de obstáculos o impedem.

Não é um filme simples em sua proposta mas certamente escapa do bizarro através de um conceito poético, traduzido numa composição fotográfica extremamente bem-cuidada, assinada por Michal Dymek. E reserva uma surpresa no final, com a aparição de Isabelle Huppert, um raro nome famoso neste elenco.

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