21/07/2026

Único filme russo da competição aborda homossexualidade de Tchaikovsky

Cannes - Primeiro filme da competição, Zhena Chaikovskogo (Tchaikovsky’s Wife), do russo Kirill Serebrennikov, inseriu uma nota sombria nesta livre cinebiografia, resgatando a figura bastante desconhecida da mulher do compositor Piotr Tchaikovsky (Odin Biron), Antonina Miliukova (a impressionante Alena Mikhailova). Esta será, aliás, a única delegação artística integrada por russos neste festival, que aderiu, de modo geral, ao boicote contra aquele país por conta da guerra da Ucrânia. Mas, como se sabe, Serebrennikov e sua equipe são dissidentes declarados de Vladimir Putin, sendo que o diretor inclusive está agora radicado na Alemanha.

Romy Schneider russa
A jovem e miúda atriz Alena Mikhailova, na tela, lembra muito, na figura e na intensidade, a falecida Romy Schneider, impregnando sua atuação de um rastro de luz e sombra para encarnar uma personagem basicamente enlouquecida. Não se trata exatamente das verdades e mentiras de um casal, mas de um par unido pelo acidente de seus equívocos - Antonina, por sua obsessão em casar-se com Tchaikovsky e o compositor, por ter vacilado ao aceitar este casamento, possivelmente como um disfarce para a sua própria homossexualidade, condição altamente problemática na Rússia do século XIX.

Prisão domiciliar
Que a homossexualidade continue a ser estigmatizada na Rússia quase dois séculos depois é detalhe que certamente esteve em primeiro plano no interesse do engajado Serebrennikov em filmar esta história - ele que, há cinco anos atrás, não pôde deixar seu país e participar de Cannes, onde competiu em 2015 com seu drama Verão (Leto), nem em 2021, quando Petrov’s Flu foi igualmente selecionado. Desde 2017, o cineasta tinha problemas com a justiça russa, aparentemente por suas divergências do governo Vladimir Putin, sendo acusado de fraudes na organização de um festival de teatro que organizava. Por conta disso, foi alvo de uma condenação a 3 anos de prisão, cumprindo prisão domiciliar, cuja sentença foi primeiro suspensa, depois anulada por um tribunal de Moscou, já em 2022.

Resolvida a pendência judicial, Serebrennikov exilou-se na Alemanha e agora pôde comparecer a Cannes, sendo ovacionado pelo público na sessão inaugural, na tarde desta quarta (18), no Grand Théâtre Lumière.

A alusão à homossexualidade de Tchaikovsky, aliás, foi também um motivo a que o filme não fosse financiado pelos mecanismos estatais de financiamento e sim a formas independentes, dentro de fora da Rússia. Segundo o diretor, em diversas entrevistas recentes, as autoridades queriam que ele filmasse um “Tchaikovsky heterossexual”.

Passado vivo
À parte a ousadia de remexer na imagem de um monstro sagrado da música, requer muito talento entrar no espírito de uma época diferente da sua para compor o arco de emoções dos personagens de outro tempo de modo a que pareçam realmente vibrar na tela, com suas emoções e contradições. E isso Serebrennikov consegue mediante não só um roteiro encorpado e denso, assinado por ele mesmo, como por sequências admiráveis construídas com a parceria de seu diretor de fotografia Vladislav Opelyants, muitas delas surreais e de uma intensa beleza - como um balé insano entre Antonina e vários homens numa casa vazia e a composição de uma foto dela com o marido, que se repete duas vezes no filme, de uma forma radicalmente oposta. Todas essas cenas e os achados nas elipses, no figurino, nos cenários, contribuem a que o filme corresponda às boas expectativas em torno deste talentoso diretor.

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