21/07/2026

Diretoras encerram competição em Cannes numa edição plena de incertezas

Cannes - Duas mulheres encerraram a exibição dos concorrentes à Palma de Ouro nesta sexta (27), a norte-americana Kelly Reichardt e a francesa Léonor Serraille, fechando as apostas num ano dos mais incertos em relação às premiações.

Close, de Lukas Dhont, Broker, de Hirokazu Kore-eda, Armageddon Time, de James Gray, Le Otto Montagne, de Charlotte Vandermeersch e Felix Van Groeningen, Tori et Lokita, dos irmãos Dardenne, e Eo, de Jerzy Skolimowski,

"Broker" e "Tori et Lokita"

emocionaram, cada um na sua chave. Os iconoclastas Triangle of Sadness, de Ruben Östlund, e Crimes of the Future, de David Cronenberg, cumpriram a sua função de incomodar e afrontar. Dois iranianos de veia feminista, Holy Spider, de Ali Abbasi, e Leila’s Brothers, de Saeed Roustaee, confirmaram a qualidade do cinema de um país que já forneceu muitas obras-primas - e certamente terão um defensor de peso no premiado cineasta Asghar Farhadi, membro do júri presidido pelo ator francês Vincent Lindon, que se imagina que simpatizará mais com os títulos intimistas da seleção. Mas é bom lembrar que Lindon integrou o elenco de Titane, o filme exótico que venceu a Palma de Ouro 2021.

Não são mesmo cartas fora do baralho o concorrente romeno R.M.N., de Cristian Mungiu, uma aguda radiografia da xenofobia em seu país, nem o sul-coreano Decision do Leave, em que o veterano diretor Park Chan-wook assina um policial encharcado de melodrama com o habitual rigor técnico E os troféus para atores também podem considerar a concorrente russa Alyona Mikhailova, protagonista em Tchaikovsky’s Wife, de Kirill Serebrennikov, ou o egípcio Tawfeek Barhom, o atormentado aluno de uma escola islâmica do drama Boy from Heaven, do sueco-egípcio Tarik Saleh.
O tom menor de Kelly

Diretora homenageada com um prêmio pela carreira na Quinzena dos Realizadores, Kelly Reichardt reforçou, como se esperava, a chave intimista na seleção principal, trazendo em Showing Up um mergulho no microcosmo do circuito alternativo das artes, tendo como protagonista, mais uma vez, Michelle Williams (que atuou com ela em O Atalho), no papel da escultora Lizzie.

Neste momento, ela vive o desafio pessoal de preparar suas peças para uma exposição. Ao seu redor, acumulam-se incidentes miúdos, mas irritantes, envolvendo a vizinha, senhoria e colega, Jo (Hong Chau), e mais uma crise familiar, envolvendo seu irmão, Sean (John Magaro) - que tem problemas psicológicos, encarados à distância pelo pai (Judd Hirsch) e com negação pela mãe (Maryann Plunkett).

Kelly é uma diretora muito sensível e atenta aos detalhes e realizou neste filme modesto, feito assim que a pandemia permitiu, mais uma obra em tom menor, que dialoga com o resto de sua obra, mas não atinge a altura de um First Cow. Por isso mesmo, poucos por aqui arriscam pensar que ela poderia levar uma premiação mais substancial. Mas, num ano como este, nunca se sabe. Afinal, uma das chaves da seleção 2022, ainda sob o rescaldo da pandemia, é algum tipo de resgate da intimidade e da história familiar.

Imigrantes em foco

Uma pequena família de imigrantes da Costa do Marfim está no centro do quarto e último concorrente francês à Palma, Un Petit Frère. Segundo longa da diretora Léonor Serraille - que debutou em Cannes em 2017 levando o Caméra d’Or em sua estreia com Jovem Mulher -, o filme mostra com nuances as atribulações de Rose (Annabelle Lengronne) e seus filhos, Jean e Ernest, para integrar-se a uma nova vida, na periferia de Paris, depois no interior, em Rouen.

A diretora confirma o talento do primeiro longa, criando um filme com sólida identidade dos personagens e contexto familiar e social, em torno de uma protagonista admirável. Rose é uma mulher estrangeira e pobre que nunca abre mão de seus desejos e de sua independência, num ambiente francamente hostil a pessoas como ela. Os filhos, interpretados por vários atores em suas diferentes idades, ilustram um outro aspecto dessa difícil assimilação numa sociedade racista e eventualmente xenófoba - como demonstra um incidente com a polícia. É um filme rico em camadas, emotivo e sincero. Talvez possa surpreender nesta reta final.

Premiação do Un Certain Regard

Enquanto isso, nesta noite de sexta (27), foram anunciados os prêmios da importante seção Un Certain Regard, cujo vencedor foi o filme francês Les Pires (literalmente, “os piores”), das estreantes Lise Akoka e Romane Gueret. Brincando com a fronteira entre ficção e documentário e com a metalinguagem de um filme dentro de um filme, as diretoras usam sua própria experiência com casting para conceber a trajetória de alguns jovens marginais uma periferia, vila Picasso, em Boulogne-sur-mer, no norte da França - Ryan (Timéo Mahaut), um garoto agressivo de uma família disfuncional, Lily (Mallory Wanecque), garota que é tratada como vagabunda pela comunidade, Jessy (Loïc Pech), que cumpriu alguns meses de prisão, e Maylis (Mélina Vanderplancke), tratada com desdém por ser supostamente lésbica.

Todos eles são selecionados por um cineasta (Johan Heldenbergh) para fazer parte de um filme, o que provoca a perplexidade da comunidade - afinal, todos estes adolescentes são vistos como a escória local. Mas o que o filme procura mesmo é um retrato com forte vinco realista, dentro da experimentação de sua linguagem, que resgata de certa maneira como vivem os jovens pobres da rica França

Os demais premiados desta seção estão abaixo:

Coup de Coeur: Rodéo, de Lola Quivoron (França)

Roteiro: Mediterranean Fever, de Maha Haj (Chipre/França/Alemanha)

Atuação: Vicky Krieps, em Corsage (Áustria/França/Alemanha/Luxemburgo), e Adam Bessa, em Harka (Tunísia/França/Alemanha)

Direção: Metronom, de Alexandru Belc (Romênia)

Prêmio do Júri: Joyland, de Saim Sadiq (Paquistão)

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