Intimismo em alta na reta final de Cannes
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 27/05/2022
- Tempo de leitura 4 minutos
Cannes - O intimismo voltou a Cannes com os dois concorrentes exibidos nesta quinta (26/5), Broker, do diretor japonês Hirokazu Kore-eda (foto da coletiva, ao lado), e Close, do belga Lukas Dhont. Ambos trouxeram histórias com potência emocional e cinematográfica suficientes para criar uma onda que pode mudar a direção da Palma de Ouro - talvez mais ainda no caso do sensível drama belga, que umedeceu os olhos de não poucos críticos em sua sessão noturna.
Diretor de Girl - O Florescer de uma Garota, que venceu três prêmios em Cannes 2018 (Caméra d’Or, prêmio Fipresci e Palma Queer), Dhont desvela a história da amizade de dois meninos de 13 anos, Leo (Eden Dambrine) e Rémi (Gustav De Waele). Inseparáveis por muito tempo, eles começam a ter sua intimidade quebrada quando se iniciam as aulas e Leo, incomodado com sugestões sobre os dois serem gays, começa a dar uma distância do melhor amigo.
Menino sensível, Rémi se ressente deste distanciamento e tem uma reação drástica, que muda o destino de todos e permite que a história aprofunde seu mergulho na dinâmica das duas famílias, da pequena comunidade e especialmente nos dilemas de Leo diante de uma culpa com a qual ele não consegue lidar.
A maneira como o filme desenvolve estas relações, em particular entre a mãe de Rémi, Sophie (Émilie Dequenne, de Rosetta), e Leo, e o toque sutil como se acompanham as reações do menino a partir simplesmente de suas expressões faciais, dão a Close o seu material mais precioso e comovente. Estreantes na tela, os dois garotos mostram um talento refinado. Parece, também, o tipo de filme que pode comover o presidente do júri, o ator francês Vincent Lindon, integrado por muitos atores, numa edição em que, na reta final, não há favoritos definidos. Literalmente, tudo pode acontecer nessa premiação.
Tudo por um bebê
Habituê na competição de Cannes e vencedor de uma Palma de Ouro em 2018 por Assunto de Família, o diretor japonês Hirokazu Kore-eda ambienta na Coreia do Sul este seu drama Broker, em que aborda o tráfico de bebês sob uma ótica à qual não faltam nem doçura nem alguns precisos toques de humor. Além de uma discussão ética, que nunca falta nas obras do diretor.
A história começa com o abandono de um bebê pela jovem mãe, So-young (a cantora Iu), numa caixa destinada ao acolhimento numa igreja, em Busan. Logo interferem no destino desta criança, Woo-sung, dois voluntários da igreja, Sang (Song Kang-ho, protagonista de Parasita) e seu amigo Dong-soo (Gang Dong won), e duas policiais (Bae Doona e Lee Joo-Young), que investigam o tráfico de bebês.
Sang e Dong-soo levam o bebê, apagando as imagens da câmera de segurança, pois estão metidos na venda de bebês para casais sem filhos. Escondidas, as policiais os seguem, dispostas a dar um flagrante e prender os dois. Muitas peripécias, no entanto, interferem nestas vidas, especialmente a partir do momento em que a mãe volta para pegar o filho de volta e descobre os dois delinquentes.
Logo o filme se torna um road movie, com a mãe, o bebê e os dois homens, sempre seguidos pelas policiais, procurando compradores para o bebê, numa jornada que se tornaria sinistra não fosse o foco humanista de Kore-eda sobre estas pessoas, revelando suas histórias e motivações, sem aliviar sua responsabilidade.
Kore-eda é um mestre nestas histórias de família, em que é capaz de conciliar uma nota emotiva e outra policial - há assassinatos ao longo do caminho - sem perder de vista a situação das crianças (uma das paradas do caminho é num orfanato que tem a ver com a história de um dos personagens).
Pacifiction
Não teve tão boa acolhida quanto estes dois concorrentes outro competidor pela Palma, o drama Pacifiction, em que o veterano diretor catalão Albert Serra mais uma vez dilui em belas imagens uma trama que se esfarela diante de nossos olhos. O cenário são as belas paisagens do Taiti, na Polinésia Francesa, em que um alto comissário, De Boller (Benoît Magimel), procura acalmar os ânimos locais, diante de indícios de que a França irá retomar ali os testes nucleares que realizou nos anos 1960.
Serra poderia ser mais incisivo nessa tentativa de reflexão sobre os males do colonialismo e a apropriação das culturas locais, como as danças, em nome da exploração turística - que acontece em torno de um clube, dirigido por Morton (Sergi López). Mas, como sempre, não é aí que Serra quer chegar. E este se torna mais um título desta seleção que parece à procura de um roteiro melhor.
Fotos: Neusa Barbosa
