21/07/2026

Cannes em tom menor com os Dardenne e Mario Martone

Cannes - Bem distantes dos excessos da sátira de Ruben Östlund (Triangle of Sadness) e da distopia de David Cronenberg (Crimes of the Future), os sutis irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne injetaram na competição a sua habitual veia de realismo social em Tori et Lokita, que retrata a saga de dois jovens imigrantes africanos na Bélgica.

Tori (Pablo Schils) e Lokita (Joely Mbundu) passam-se por irmãos, depois de compartilharem uma série de atribulações juntos, em suas fugas de seus respectivos países, o Benin e Camarões. Tori já está legalizado, Lokita, que é mais velha, ainda não. Abrigados num centro de refugiados, ambos estão no centro de um emaranhado de dificuldades, ela especialmente, com a burocracia que esmiúça seu passado, procurando furos na sua história. Além disso, os dois são pressionados pelo agiota que financiou sua viagem e também por um chef, Betim (Alban Ukaj), que os explora num negócio paralelo com tráfico de drogas.

Os Dardenne têm toda a habilidade do mundo para invocar a urgência de uma história que, se não é original, é reincidente na Europa de hoje, trazendo de volta à cena cinematográfica um espírito que o neorrealismo cultivava, inclusive recorrendo a atores não-profissionais - uma de suas marcas registradas. O roteiro, assinado como de hábito por esta dupla vencedora de duas Palmas de Ouro (por Rosetta e A Criança), constrói com simplicidade e eloquência a absoluta falta de opções destes seres deserdados na ordem mundial. Não há como esperar final feliz, apenas que as consciências se mobilizem com relatos como este. Parece, também, o tipo de filme que pode entusiasmar o ator Vincent Lindon, presidente do júri.

De volta a Nápoles

Numa jornada intimista, o outro concorrente à Palma exibido na terça (24), o italiano Nostalgia, de Mario Martone, adapta o romance homônimo do autor napolitano Ermanno Rea para traçar o retorno de um homem, Felice Lasco (Pierfrancesco Favino), à sua Nápoles natal.

Nesse percurso, depois de 40 anos de ausência, ele busca não só rever sua velha mãe, Teresa
(Aurora Quattrocchi), como revisitar uma adolescência um tanto atribulada - período em que ele flertou com a criminalidade. Ficou para trás o velho e antes inseparável amigo Oreste Spasiano (Tommaso Ragno), que se tornou o chefão local da Camorra, no velho bairro La Sanitá.

Procura-se um retrato deste bairro destituído, em que os corações e mentes dos jovens locais são disputados entre o capo e o padre don Luigi (Francesco di Leva) - que mantém um projeto social em sua igreja e desafia a “autoridade” dos criminosos, que ameaçam e assassinam moradores. A chegada de Felice acende uma mal-resolvida rivalidade com Oreste por liderança e significado numa comunidade em que os valores são continuamente postos à prova. Em quais instituições se pode confiar em condições tão precárias? Restam apenas os exemplos de vida.

De várias maneiras, Nostalgia mantém semelhanças com Armageddon Time, de James Gray, com uma história que entrelaça família e sociedade. Mas, de vários modos, o filme italiano não constrói plenamente a contento seu desafio central, nem mesmo alguns aspectos de seu protagonista, interpretado com a habitual dedicação pelo talentoso Favino, visto recentemente numa coprodução com o Brasil O Traidor, na pele do mafioso Tommaso Buscetta.

Uma guerra para falar de outra

Em Sessão Especial, fora de competição, o cineasta ucraniano Sergei Loznitsa apresentou seu novo documentário, The Natural History of Destruction, que, se não se se refere diretamente à guerra que abala seu país há 3 meses, certamente comenta nas entrelinhas o contexto geral do espírito bélico em todos os tempos.

Sem narração ou entrevistas, valendo-se apenas de materiais de arquivo, como fez várias vezes em sua carreira, Loznitsa retrata os intensos bombardeios da II Guerra Mundial, expondo os efeitos devastadores das bombas alemãs lançadas de aviões sobre a França e Inglaterra e também a destruição produzida pelos aviões dos Aliados sobre cidades alemãs - como Lubeck, Rostock e Colônia, que foram praticamente varridas do mapa.

A ideia, certamente, não é tomar partido por nenhum dos lados e sim mostrar o processo de aniquilamento por trás de toda e qualquer guerra - inclusive com foco em suas terríveis consequências, retratando-se os cadáveres alinhados ao longo das estradas, a retirada dos refugiados e o sofrimento infligido à população civil.

Embora Loznitsa já estivesse fazendo este documentário quando a guerra na Ucrânia começou, trata-se certamente de um comentário e de uma tomada de posição sobre o pesadelo que está acontecendo lá, aqui e agora. Por isso, seu filme ressoa tão forte.

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