Cannes debate o feminicídio e as lembranças da geração da AIDS
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 23/05/2022
- Tempo de leitura 5 minutos
Cannes - A segunda e decisiva semana de Cannes começa, ainda digerindo os assuntos sérios dos concorrentes à Palma de Ouro exibidos no domingo (22) - o feminicídio com motivação fanático-religiosa no Irã, retratado no policial Holy Spider, de Ali Abbasi, e as memórias agridoces de uma geração de atores franceses nos anos 1980, em plena explosão da AIDS, reunidos em torno da escola teatral de Patrice Chéreau, revisitadas pela atriz-diretora Valeria Bruni Tedeschi em seu Les Amandiers.
O modo como Holy Spider mostra violência, nudez e sexo é altamente incomum em filmes iranianos - mas ele foi filmado na Jordânia, ainda não tendo perspectiva de exibição no Irã. Seu diretor, um iraniano de origem dinamarquesa - que assinou recentemente o inquietante Border -, recupera aqui a história real de uma onda de crimes ocorridos há 20 anos na cidade sagrada de Mashad. Lá, um matador a princípio misterioso, estrangulou 16 prostitutas. Ele era identificado nos jornais como “aranha” pelo método como embrulhava os cadáveres de suas vítimas.
A sessão de gala do filme, à tarde, foi precedida de um protesto feminista no tapete vermelho, com manifestantes disparando bastões de fumaça escura e exibindo uma faixa onde se liam os nomes das 129 mulheres mortas por feminicídio na França desde o último Festival de Cannes, em 2021.
Matador fanático
Mesmo desenvolvido como um thriller, Holy Spider não faz mistério da identidade do assassino, seguindo as ações de Saeed Azimi (Mehdi Bajestani), um ex-veterano da guerra Irã-Iraque fanatizado pelas pregações radicais de um imã. Acreditando-se portador de uma “missão moral”, ele se dedica a matar prostitutas, tidas como impuras e decaídas, tendo o cuidado de telefonar para um jornalista, Sharifi (Arash Ashtiani), para anunciar mais um crime.
A polícia não tem muitas pistas e não parece muito empenhada em deter o assassino - sintoma de um mundo em que as mulheres não contam muito, menos ainda se pertencerem a um grupo socialmente desprezado, não só pela pobreza mas pelo viés moralista. Contra isso ergue-se uma jornalista, Arezoo Rahimi (Zar Amir-Ebrahimi), que veio de Teerã e está disposta a arriscar-se para encontrar o criminoso.
No roteiro, assinado por Abbasi e Afshin Karam Bahrami, traça-se um vívido panorama das instituições político-religiosas de uma cidade sagrada, confrontada com um matador cujas ações, absurdamente, tornam-no popular. Também dá uma ideia do funcionamento da justiça iraniana, em que o aspecto religioso é indissociável do ordenamento jurídico. Ao final, ainda aponta para um processo em que a mentalidade machista em vigor mostra-se pronta a ser transmitida à geração seguinte, no caso, ao filho de Saeed, que parece facilmente convencível de que as ações do pai foram de algum modo justificáveis, ou mesmo heróicas.
Por todas essas camadas, Holy Spider vem se tornando um dos filmes mais comentados da seleção. Não seria surpresa se ganhasse algum prêmio, ainda mais com um júri integrado pelo premiado cineasta iraniano Asghar Farhadi.
No teatro e na vida
A atriz ítalo-francesa Valeria Bruni Tedeschi apresentou o segundo concorrente francês desta edição, revisitando com delicadeza e intimismo uma parte da própria biografia em Les Amandiers. O enredo retrata um grupo de jovens atores que iniciam sua vida profissional nos anos 1980 na escola criada pelo celebrado ator e diretor Patrice Chéreau (Louis Garrel), em Nanterre.
Há uma grande energia juvenil vibrando neste filme, como em Depois de Maio, de Olivier Assayas, embora numa escala bem menor, no pequeno núcleo de atores que não só experimentam o palco como a própria vida, em paixões exacerbadas, dos 20 anos. Segue-se mais de perto Stella (Nadia Tereskiewicz) - um notório alter ego de Valeria -, apaixonada pelo colega Étienne (Sofiane Bennacer), uma espécie de James Dean do grupo.
Embora tenha seus momentos de egotrip, num filme muito vincado nos bastidores da trupe teatral, também se extrai das cenas uma verdade humana que lhe permite atingir uma camada de retrato de geração - ainda mais que aborda o pesadelo da AIDS que, naquele momento, era a epidemia que tirava o sono de todos e que custou também milhões de vidas, muitas delas jovens.
Com uma ambição menor do que o outro concorrente francês, Frère et Soeur, Valeria Bruni Tedeschi conseguiu um resultado bem melhor e mais sincero.
Outro rei do rock
Começando a segunda (23), nada melhor do que o documentário de Ethan Coen, agora em carreira solo, Jerry Lee Lewis - Trouble in Mind. Um retrato enxuto e vibrante do cantor e músico, nascido na Louisiana em 1935 e ainda vivo e atuante, apesar das limitações de saúde.
Produzido por feras como T. Bone Burnett e Mick Jagger, entre outros, o filme traça um perfil honesto do músico, com materiais de arquivo que denotam seu espírito rebelde e indomável, suas contradições pessoais e uma invencível autoconfiança. Por conta da riqueza desses materiais e da esperteza da montagem, com certeza fornece-se material o bastante para colocar em dúvida o título de “rei do rock”, por tantos atribuído a Elvis Presley - que será objeto de um esperado filme ficcional, a ser exibido fora de competição por aqui, Elvis, de Baz Luhrmann.
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