21/07/2026

Ecos das 1001 Noites e da Ucrânia nas escadarias de Cannes

Cannes - Fora de competição mas nem por isso fora do radar dos filmes mais esperados, Three Thousand Years of Longing, do veteraníssimo George Miller, trouxe diversão, romance e a boa e velha magia do cinema à Croisette. Também, com uma dupla de atores do quilate de Tilda Swinton e Idris Elba, fica bem mais fácil. Mas o encanto do filme não se esgota aí.

Diretor por trás de Mad Max, o intrépido Miller, 77 anos, sabe contar uma história, domina o engenho e o ritmo das narrativas, capricha na produção dos efeitos e não perde de vista o lado entretenimento no seu melhor sentido - querendo capturar o espectador de todas as formas. E aqui com um toque inesperado de delicadeza, suavizando a adrenalina que em geral Miller acelera.

Resumo da ópera - uma estudiosa de mitologia e narrativas, a professora Alithea Binnie (Tilda Swinton), viaja a Istambul para uma palestra. Lá é confrontada com a aparição de um gênio (Idris Elba), que vivia preso numa garrafinha de vidro que ela comprou no mercado. Começa então essa fábula tirada da inspiração das 1001 Noites e de um conto de A. S. Byatt - The Djinn in the Nightingale’s Eye - , que Miller queria adaptar desde os anos 1990. Vitória de sua persistência, o filme saiu agora, diretamente no pós-auge da pandemia que coloca sob um outro ângulo inclusive a ideia de confinamento, essencial no destino do gênio.

Fruto do desenho de produção apurado de Robert Ford, o filme oferece um mundo à parte onde o espectador pode entrar, sonhar, torcer e se emocionar também com as sutilezas de um romance entre dois madurões, a professora e o gênio. Quem melhor do que Tilda e Idris para encarnar estas criaturas de naturezas diferentes e oferecer-lhes a forma de conexão possível num mundo real tão polarizado do lado de fora ?

É fato que George Miller sabe empolgar e fazer sonhar, expondo em Three Thousand Years of Longing um outro aspecto de seu talento, porque, desta vez, ao contrário de seus vários exemplares de Mad Max, ele se aplica a deixar espaço para nos deixar respirar e pensar: afinal, quais seriam os três desejos que faríamos a um gênio?

Imagens da Ucrânia
Uma nota que trouxe a cobertura do festival de volta à dura realidade foi o aparecimento de uma ativista em pleno tapete vermelho do filme de George Miller, ontem. Integrante do grupo francês Scum, ela invadiu o tapete por onde passam os convidados e os artistas, na escadaria do Grand Théâtre Lumière, e arrancou a roupa para mostrar o corpo pintado com sinais de mãos vermelhas, imitando sangue, e os dizeres “Stop Raping Us”, num protesto contra os estupros perpetrados pelos exércitos na guerra da Ucrânia.

O nome “Scum” refere-se a um potente manifesto feminista publicado nos anos 1960, mas o grupo francês com esse nome apareceu no Twitter há cerca de um mês.

Mas a Ucrânia também apareceu na tela. Incluído na programação de última hora, como uma nova e especialíssima Sessão Especial, o documentário Mariupolis 2, do cineasta lituano Mantas Kvedaravicius, tornou-se uma homenagem póstuma a ele, morto na Ucrânia no começo de abril, aos 46 anos.

Diretor de filmes como Barzakh (2011), Mariupolis (2016) e Parthenon (2019), Kvedaravicius filmava na Ucrânia quando foi capturado e morto, alegadamente pelo exército russo, em Mariupol. Sua noiva, Hanna Bilobrova, que o acompanhava na ocasião, conseguiu trazer consigo o material filmado e que foi editado por Dounia Sichov, parceiro habitual do diretor.

O diretor lituano voltara a Donbass, no coração da guerra, para reencontrar pessoas que havia filmado entre 2014 e 2015. Kvedaravicius queria testemunhar como a vida continuava em Mariupolis no meio de bombardeios, tragédias e esperança. Ao custo de sua própria vida, conseguiu seu objetivo, com imagens lancinantes do cotidiano de um grupo de civis, abrigados numa igreja batista, que resistem ali dentro ao panorama de destruição geral, à falta de energia elétrica e à escassez de água e alimentos - o que obriga alguns deles a deslocar-se de vez em quando em busca de itens para sua sobrevivência.

Mantendo um tom de observação, abrindo espaço para alguns depoimentos, o filme retrata as terríveis condições em que vivem vários idosos, algumas crianças e até alguns animais. E sintetiza de maneira eloquente a noção de que a guerra não só suprime as regras, mas cria outras - entre elas, as necessidades da sobrevivência superarem antigos limites. É o caso dos dois homens que entram numa casa bombardeada, onde encontram dois moradores mortos, e decidem levar o seu gerador para a igreja. Mas, continuamente, esses sobreviventes sepultam, como podem, estes mortos cuja contabilidade se terá dificuldade em fechar quando o pesadelo terminar.

No mais, o filme retrata um tempo de espera, incerteza e angústia. É avassalador.

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