Homenagem ao cinema e destaques de festivais valorizam a segunda-feira
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 24/10/2022
- Tempo de leitura 14 minutos

O deus do cinema
Ninguém melhor do que um diretor de 91 anos que ali começou sua carreira em 1954 para assinar o filme-homenagem ao centenário do tradicional estúdio japonês Shochiku do que Yoji Yamada. Cineasta prolífico, que tem a seu crédito mais de um filme por ano de vida (fez 92 até agora), Yamada equilibra-se, mais uma vez, na gangorra entre a sofisticação temática e o decidido compromisso de comunicar-se com o público nesta obra delicada e afetuosa.
A partir do drama da família de Goh (Kenji Sawada), um homem que está pondo em risco a sobrevivência do clã com os problemas que causa à mulher e à filha pelos vícios da bebida e do jogo, o enredo desenvolve uma trama que inclui também os bastidores da própria realização cinematográfica. Adaptando livro da escritora Maha Harada, Yamada traça na tela o passado de Goh, que foi diretor assistente no estúdio e escreveu um roteiro que deveria tê-lo alçado à direção.
Ao retratar este ambiente, o filme apresenta os outros dois personagens essenciais: Terashin (Yohiro Noda), o melhor amigo de Goh, montador do estúdio, e Yoshiko, funcionária de um restaurante próximo por quem ambos se apaixonam.
As referências cinematográficas se imiscuem na vida do trio. Ao mesmo tempo que filmam Pétalas ao Vento, de H. Demizu, Goh escreve seu roteiro, cuja trama se assemelha à de A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen, em que um ator sai da tela para falar com uma espectadora no cinema.
A maneira como Yamada expande estes relacionamentos, sem perder de vista a intenção de invocar a mágica do cinema, é única e envolvente. E, se ele não é nem pretende ser um esteta, à maneira de Yasujiro Ozu ou Kenzi Mizoguchi, a verdade é que este nonagenário diretor não perdeu a mão na tarefa de acender o sentimento e a imaginação de um grande público. (Neusa Barbosa).
Espaço Itaú de Cinema - Augusta anexo 4
24/10/22 - 16:20
24/10/22 - 16:20
Cineclube Cortina
30/10/22 - 19:10
30/10/22 - 19:10
Cine Marquise sala 2
1/11/22 - 18:30
1/11/22 - 18:30

Como está Katia?
Vencedor de dois prêmios no Festival de Locarno - Especial do Júri e melhor atriz para Anastasia Karpenko -, o drama ucraniano de Christina Tynkevych traz uma potência dramática que traduz no singular a extensão das tragédias do país. Ao centro, está uma médica, Anna (Anastasia Karpenko), que trabalha como paramédica no atendimento a emergências. Nesse cotidiano brutalmente exigente, ela deposita todos os seus sonhos de afeto na filha de 12 anos, Katia (Kateryna Kozlova), que ela cria como mãe solo. Por isso, acaba de comprometer-se com a hipoteca de um novo apartamento, onde as duas irão morar no futuro, deixando a apertada casa que dividem com a mãe (Olena Khokhlatkina) e irmã (Tatyana Krulikovskaya) de Anna.
O filme começa e termina neste cenário do apartamento em construção, que simboliza dois momentos da vida de Anna e da filha. Um trágico acidente muda radicalmente esta perspectiva, lançando a médica numa espiral de angústias e no enfrentamento de estruturas burocráticas, policiais e políticas, que se imiscuem inapelavelmente na vida desta mulher forte e lutadora.
Mantendo uma câmera sempre muito próxima de sua protagonista, com muitos closes em seu rosto altamente expressivo, o filme caminha junto com os batimentos do coração desta personagem que, em algum momento, aspira por uma equivalência de suas perdas. Felizmente, o filme não desperdiça a profundidade de seu drama com uma perspectiva de vingança, o que nos torna mais próximos de suas escolhas e de seu desespero. (Neusa Barbosa)
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 1
24/10/22 - 14:00
24/10/22 - 14:00
Cine Marquise - sala 2
25/10/22 - 19:10
25/10/22 - 19:10

Febre do Mediterrâneo
Vencedor do prêmio de melhor roteiro da seção Un Certain Regard do Festival de Cannes, o drama palestino da diretora e roteirista Maha Haj é um sofisticado mergulho numa trama noir que não dispensa uma simbologia política e ousa inclusive uma ou outra nota de humor negro.
Waleed (Amer Hlehel) é um homem que sofre de depressão há anos. Tendo abandonado seu trabalho, faz terapia - a contragosto - e ensaia escrever um livro, que nunca começa. Enquanto isso, sua mulher, Ola (Anat Hadid), uma enfermeira, sustenta a casa e tenta dar-lhe apoio, cuidando dos filhos.
A chegada de um novo vizinho, Jalal (Ashraf Farah), abala o cotidiano de Waleed. Como ele fica em casa quase o tempo todo, é a ele que incomoda a mania do recém-chegado de ouvir música a todo volume. Tudo que em Waleed é contenção, é explosão em Jalal, que mantém atividades não muito claras, nem muito legais.
A antipatia inicial de Waleed por este intruso em seu mundo transforma-se, pouco a pouco, numa estranha amizade, à qual não faltam elementos sombrios. Se Jalal tira proveito da curiosidade do vizinho por suas atividades clandestinas e seu machismo extrovertido, a verdade é que Waleed também tem uma agenda própria.
A diretora explora muito bem estas nuances de um universo masculino complexo, sem deixar de construir metáforas em torno da condição claustrofóbica do próprio estado palestino em seu eterno impasse com Israel. De certo modo, fica pendente a sugestão de que aos palestinos não vem sendo dadas muitas opções fora do suicídio ou do engajamento no crime organizado e isto expande o filme em muito mais direções do que apenas uma trama noir. (Neusa Barbosa)
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca
2
24/10/22 - 16:10
2
24/10/22 - 16:10
Instituto Moreira Salles - Paulista
29/10/22 - 20:50
29/10/22 - 20:50

Domingo e a neblina
O encontro turbulento entre o realismo mágico e o crime organizado inspira este que é o segundo filme do realizador costarriquenho Ariel Escalante Meza, parte da seleção da mostra Un Certain Regard de Cannes. Num cenário montanhoso e nublado, mora o sitiante Domingo (Carlos Ureña), um velho viúvo que vive em comunhão com aquele cenário há muitos anos.
O projeto da construção de uma estrada cortando aquelas terras traz para o local capangas de empreiteiras que, pressionando os resistentes a vender suas propriedades, tentam intimidá-los com ameaças e tiros à noite.
Caminhando entre os atalhos, Domingo torna-se, pouco a pouco, o único habitante a resistir ao assédio. Ele tem motivos íntimos para não sair, ligados ao seu alegado contato com o fantasma de sua mulher, que o visita sob forma de uma intensa névoa. Esta névoa, magnificamente fotografada por Nicolás Wong Diaz, torna-se um personagem a mais nesta história de diálogos econômicos e muito uso de imagens para traduzir uma parte desses mistérios e das contradições de uma América Latina em que as pessoas comuns estão na linha de frente contra os executores da violência de uma maneira tão direta quanto o velho Domingo - que não conta para protegê-lo
com qualquer aparato de Estado neste seu pedaço de mundo. Este lugar, aliás, chama-se Cascajal de Coronado e é realmente uma região remota da Costa Rica. As filmagens ali foram desafiadoras, já que não havia eletricidade e as estradas precárias tornavam o acesso por automóvel bastante difícil. (Neusa Barbosa)
com qualquer aparato de Estado neste seu pedaço de mundo. Este lugar, aliás, chama-se Cascajal de Coronado e é realmente uma região remota da Costa Rica. As filmagens ali foram desafiadoras, já que não havia eletricidade e as estradas precárias tornavam o acesso por automóvel bastante difícil. (Neusa Barbosa)
Reserva Cultural - sala 1
24/10/22 - 21:10
24/10/22 - 21:10
Espaço Itaú de Cinema Augusta - sala 1
28/10/22 - 14:00
28/10/22 - 14:00

That kind of summer
Talvez a maior decepção da competição do Festival de Berlim 2022 tenha sido este concorrente canadense, em que o diretor Dénis Côté, a partir de um roteiro próprio, retrata uma espécie de retiro terapêutico para jovens com sérias fixações sexuais - Geisha (Aude Mathieu), Léonie (Larissa Corriveau) e Eugènie (Laure Giappiconi). Supervisionadas por uma terapeuta, Octavia (Anne-Ratte Polle), e seu auxiliar, Sami (Samir Guesmi), essas mulheres narram suas histórias de maneira franca e vivem, depois, várias delas - num processo cinematográfico um tanto voyeurístico, impregnado de um olhar masculino tóxico e muito pouca profundidade e humanidade. Parece não ter passado da tentativa de filme-escândalo da estação, realizada por um diretor sem o menor talento para ser um novo Luis Buñuel. (Neusa Barbosa)
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 1
24/10/22 - 20:40
24/10/22 - 20:40
Reserva Cultural - sala 1
26/10/22 - 16:20
26/10/22 - 16:20
Cinesesc
31/10/22 - 16:00
31/10/22 - 16:00
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 2
1/11/22 - 14:00
1/11/22 - 14:00

Nada de novo no front
Nos dois momentos mais marcantes da experiência na guerra do protagonista de Nada de novo no front, o rosto dele, Paul (Felix Kammerer), está coberto de um barro seco que realça sua expressão como algo petrificado, algo que ficará marcado para sempre em sua alma. A terceira adaptação do clássico antibelicista – e primeira em sua língua original, o alemão - do escritor alemão Erich Maria Remarque, narra episódios da I Guerra do ponto de vista dos perdedores, ou seja, dos soldados no front.
Nas últimas décadas, a II Guerra se tornou mais referência no cinema do que a anterior, mas aqui, o diretor Edward Berger recupera o conflito de trincheiras, aquele em que, muitas vezes, via-se olho-no-olho o homem a quem se ia matar, ou lhe matar. Nesse sentido, é um filme visceral, ao narrar pela perspectiva de um jovem soldado, que se alistou escondido dos pais, em busca de aventuras e por um suposto amor à pátria.
A primeira adaptação do filme, de Lewis Milestone, de 1930, e ganhadora do Oscar de filme e direção, apesar de forte, era tecnicamente limitada devido à tecnologia da época. Berger e o diretor de fotografia, James Friend, encontram beleza (especialmente natural) em meio aos horrores e ao caos do campo de batalha – o que, às vezes, pode tornar uma opção questionável, na estetização dos filmes de guerra.
Há, no entanto, a contraposição a isso, que já fica clara no prólogo, no qual, antes mesmo de Paul entrar na guerra, acompanhamos de onde vem o uniforme que servirá a ele. Depois de alistados, Paul e seus amigos são saudados pelo comandante que os chama de “a grande geração” e os estimula a lutar “pelo Kaiser, Deus e a pátria”, nessa ordem, num discurso que perdurará na Alemanha (e em muitos países) por muitos anos – chegando até o presente.
Em contrapartida aos traumas do campo de batalha – marcado por barro, cadáveres e trincheiras –, Berger acompanha os bastidores políticos da guerra. As autoridades alemães já sabem que o país foi derrotado, e o esforço agora é poupar a vida dos jovens. Matthias Erzberger (Daniel Brühl) é o representante do país que negocia com os franceses o cessar-fogo. Mas o general Friedrich (Devid Striesow) não se satisfaz com o acordo e, nos minutos finais da guerra, sacrifica ainda mais jovens soldados.
Paul, depois de se separar dos antigos colegas, faz um amigo, Katczinsky (Albrecht Schuch), um sapateiro analfabeto, que se afeiçoa ao rapaz e o protege, assim como o protagonista com ele. A relação entre os dois é a dimensão de intimismo, que o filme coloca diante de seu tom épico das mazelas do conflito. A trilha sonora de Volker Bertelmann, marcada por sons eletrônicos de sintetizadores, em alguns momentos, dá um toque de anacronismo e estranhamento muito bem-vindo ao filme.
Em um famoso ensaio, o filósofo alemão Theodor Adorno aponta que para qualquer pessoa que tivesse participado da I Guerra se tornou impossível narrar esse episódio como se contava uma história antes. Era possível dominar a experiência e transformá-la numa história. Agora, diz ele, não mais. Remarque, veterano da batalha, tentou em seu poderoso romance resgatar sua experiência, dar forma aos horrores que testemunhou e fazer um alerta. Berger resgata o romance em sua essência, e, mesmo que seja impossível narrar a experiência de uma trincheira, ele dá forma cinematográfica à experiência num filme cujos eventos são impossíveis de serem esquecidos. (Alysson Oliveira)
Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca 2 - 24/10/22 - 20:40
Reserva Cultural sala 1 -
27/10/22 - 18:15
27/10/22 - 18:15

A saída está à nossa frente
Uma espécie de faz-tudo em A saída está à nossa frente, Rob Rice assina a direção, roteiro, montagem e produção de seu filme de estreia, marcado por um cinema de guerrilha, protagonizado por personagens de classes baixas com uma inspiração que parece vinda de Andrea Arnold, mas sem o toque de sagacidade e percepção típicos da diretora inglesa.
A limitação no orçamento é visível, e reflete-se um tanto no resultado final, apesar da boa vontade e empenho de Rice. Seus personagens são pessoas em situação de vulnerabilidade financeira vivendo próximas a um deserto na Califórnia. Mark (Mark Staggs) é um homem de meia-idade com dívidas e uma doença terminal que esconde de sua filha, Cassie (Nikki DeParis), pois não quer atrapalhar os planos dela de mudar-se para a cidade grande.
Mark é casado com a mãe da jovem, Tracy (Tracy Staggs), como na vida real, e juntos criam os filhos que tiveram em relacionamentos anteriores. No filme, porém, a personagem Cassie é filha do casal. Rice arma esse jogo de cena, com situações reais e fictícias a partir das experiências reais dos Staggs.
De qualquer forma, A saída está à nossa frente mostra os Estados Unidos de forma desnuda, onde o tal do sonho americano não funciona para todos, as contas médicas são altíssimas, e mesmo no paraíso de Los Angeles há miseráveis sem condições mínimas de uma vida digna. O diretor, no entanto, mesmo com as limitações podia mostrar um pouco mais de empenho e ambição estética e narrativa para seu primeiro longa. (Alysson Oliveira)
Disponível na plataforma Sesc Digital até atingir o limite de 1500 visualizações.
No cinema:
Circuito Spcine
Sala Lima Barreto- CCSP - 25/10/22 - 18:00
Sala Lima Barreto- CCSP - 25/10/22 - 18:00
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