05/06/2026

Premiados em Berlim e documentário sobre fascismo são atrações na Mostra

Na sexta (21), os destaques são o vencedor do Urso de Ouro em Berlim, o espanhol Alcarrás, de Carla Simón, o drama francês Com Amor e Fúria, que deu o Urso de Prata de direção a Claire Denis, e o documentário Marcha sobre Roma, em que o irlandês Mark Cousins revisita as origens e a continuidade do fascismo.


Alcarràs
Diretora do sensível Verão 1993, a jovem cineasta catalã Carla Simón, 36 anos, encantou Berlim com o drama Alcarràs, que venceu merecidamente o Urso de Ouro 2022. Trata-se da crônica visceral da vida de uma família de agricultores ameaçada pela disposição dos proprietários da terra de mudar radicalmente o seu uso. A família, que há duas gerações planta frutas ali, não tem o título da propriedade - décadas atrás, valia a palavra que hoje a geração atual não respeita mais, para angústia do patriarca, Rogelio (Josep Abad).

Com uma câmera sempre muito próxima da pele de seus personagens - trabalho de Daniela Cajías -, o filme situa o drama de Quimet (Jordi Pujol Dolcet), sua mulher, Dolors (Anna Otin), seus filhos e outros parentes, de uma forma muito urgente, alternando os olhares, os pontos de vista. Assim, coloca em foco a ameaça não só a uma família, mas a um modo de vida, dentro de uma perspectiva inclusive ambiental, de uma forma muito inteligente e intimista ao mesmo tempo.

O tema do filme é caro à diretora que, como lembrou no seu discurso de agradecimento em Berlim, vem de uma família de plantadores de pêssegos naquela região catalã. O elenco, aliás, é todo amador, atuando num filme pela primeira vez e com uma naturalidade que se aproxima do documental, já que estão interpretando situações próximas à sua própria vida. (Neusa Barbosa)

Espaço Itaú de Cinema – Augusta sala 1




21/10/22 - 19:00
Cine Marquise - sala 1



















22/10/22 - 18:00
Cinesesc





























25/10/22 - 16:40
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 2





31/10/22 – 20:45


Marcha sobre Roma
Abriu a seção paralela Giornate degli Autori, em Veneza 2022, como um dos Eventos Especiais, o documentário Marcha sobre Roma, do cineasta irlandês Mark Cousins. Contando com a assessoria do pesquisador italiano Tony Saccucci, Cousins mergulha nos bastidores de A Noi, de Umberto Paradisi (1922), expondo a manipulação de imagens daquele filme, que foi ferramenta essencial à transformação da tristemente famosa Marcha sobre Roma de 1922 no rastilho inicial do fascismo de Benito Mussolini.

Mas não é somente disso que Cousins quer falar. A ambição desta obra magnífica é justamente expor os mecanismos pelos quais o fascismo se reinventa e se repete em outras épocas e lugares, como a nossa - e não é nenhum acaso que o filme comece com uma imagem de Donald Trump, respondendo a perguntas sobre suas razões de ter citado uma frase de Mussolini em seu twitter, frase essa repetida em outra ocasião pelo presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, mencionado no filme, assim como Marine Le Pen e Giorgia Meloni, do partido ultradireitista Fratelli di Itália – vencedor das recentes eleições legislativas na Itália.

Profundo conhecedor da história do cinema, como demonstrou em alentados documentários como The Story of Film: A New Generation (2021), exibido no Festival É Tudo Verdade, Cousins também menciona, na porção final, alguns dos títulos mais sublimes que foram realizados na mesma época em que A Noi, obras de Charles Chaplin r Carl Theodor Dreyer, entre outros.
Cousins demonstra, mais uma vez, o quanto é capaz de estabelecer um diálogo criativo e emotivo com sua plateia, inserindo uma participação da atriz italiana Alba Rohrwacher, representando uma mulher comum da época do fascismo italiano que se viu desiludida e perseguida à medida que foi deixando de apoiá-lo. Nunca será demais lembrar, como o faz Marcha sobre Roma, o quanto a violência representa a natureza profunda do fascismo, onde quer que ele se manifeste. Um filme, enfim, profundamente significativo para os brasileiros neste momento. (Neusa Barbosa)

Espaço Itaú de Cinema – Augusta anexo 4

21/10/22 - 14:00
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 4



25/10/22 - 18:30
Cinemateca – Sala Grande Otelo








26/10/22 - 17:00
Cine Marquise - sala 2

















29/10/22 - 19:15


Com Amor e Fúria
Pela primeira vez na competição em Berlim, a veterana francesa Claire Denis arrebatou o prêmio de direção em 2022 – talvez por um trabalho não tão bom. Ela imprimiu ao seu drama amoroso Com Amor e Fúria sua habitual mão pesada - e que aqui não funciona tão bem, especialmente na segunda metade do filme.

Contando com atores bem experientes, como o casal formado por Sara (Juliette Binoche) e Jean (Vincent Lindon), a diretora decola um drama que, na primeira metade, retrata a paixão desse par que vive junto há 9 anos e vê uma sombra do passado ressurgir quando reaparece na vida deles um antigo amor de Sara e amigo de Jean, François (Grégoire Colin).

Há uma interdependência profissional que une Jean a François quando este último convida o primeiro a juntar-se a ele num novo negócio de agenciamento de jogadores juvenis de futebol - um convite que cai melhor ainda a Jean, com um passado de ex-presidiário que a história nunca se preocupa em detalhar, nem faz falta.

A questão central que desestrutura tudo é a repentina recaída na atração entre Sara e François, que nunca é orgânica na narrativa, especialmente por conta do desenvolvimento um tanto insatisfatório da personagem feminina. A maneira como Sara sucumbe a esta antiga ligação não parece compatível com o perfil da personagem, uma bem-sucedida radialista, mulher independente e em idade madura que, muitas vezes, age com a psicologia de uma adolescente insegura.

Este tipo de papel, que Binoche tem repetido muito em sua carreira, na verdade, não lhe cai tão bem. Há uma nítida sensação de obviedade e repetição, tanto em sua personagem como, aliás, no filme todo. Por mais que se evidencie sua intenção de se afastar de uma visão romantizada do amor, Claire Denis, dessa vez, não acertou. (Neusa Barbosa)

Cine Marquise - sala 1















21/10/22 - 14:00
Reserva Cultural - sala 1













22/10/22 - 21:30
Cinemateca – Sala Grande Otelo







28/10/22 - 15:00
Espaço Itaú de Cinema – Augusta sala 1

2/11/22 - 14:00


Fogaréu
Longa de ficção da goiana
Flávia Neves, o filme ficou em terceiro lugar na votação do
público que assistiu aos filmes da Mostra Panorama, no Festival de Berlim. Baqyt/Happiness, de Askar Usabayev (Casaquistão) e Klondike, de Maryna Er Gorbach (Ucrânia/Turquia), foram, respectivamente o primeiro e segundo colocados nesta premiação.

Fogaréu relata uma história familiar enraizada em temas candentes no país - o patriarcalismo, o agronegócio predatório e os direitos indígenas.
No centro da história, está Fernanda (Bárbara Colen), jovem que volta a uma cidadezinha do interior de Goiás para acertar velhas pendências de sua história familiar. Ela foi criada longe dali por Cecília, que já morreu e havia abandonado a cidade há anos, em choque contra o próprio pai, fazendeiro, machista e conservador.

Agora, Fernanda tenta esclarecer seus direitos com o tio materno, Antônio (Eucir de Souza). Mas a volta dessa mulher independente, criada fora dos padrões ultra-conservadores do lugarejo, acirra os conflitos, levando o filme a expor a permanência de estruturas arcaicas - como é o caso das “bobas”, como são chamadas as filhas de criação não só desta como de várias famílias locais, órfãs que há muito vivem com eles, em troca de casa e comida, numa relação de servidão e abuso.

Resgatando uma história com vários pontos de contato com sua própria origem familiar, Flávia Neves acerta bastante no enfrentamento destas relações profundamente machistas, deste poder calcado no dinheiro e na política - já que o tio é também o prefeito da cidade. Procurando um alívio no tom pesado, introduz-se um toque de realismo mágico, através das ações de um misterioso personagem Ezequiel (Timothy Wilson).
(Neusa Barbosa)

Cinesesc





















21/10/22 - 21:00
Cinemateca – Sala Grande Otelo


25/10/22 - 15:00


Aftersun
A escocesa Charlotte Wells faz uma estreia impressionante na direção Aftersun, um drama sobre um pai e sua filha pré-adolescente estreitando seus laços de afeto durante as férias de verão num resort turco. Com produção de Barry Jenkins, o longa, exibido em competição na Mostra, é de rara beleza, delicadeza e profunda compreensão de seus personagens e da situação que vivem.

Calum (Paul Mescal, da série Normal People) é um irlandês que vive em Londres, e pouco vê sua filha pequena, Sophie (Frankie Corio), de 11 anos, que mora com a mãe em Glasgow – ainda assim, eles têm uma relação afetuosa. A temporada juntos é a possibilidade de ficarem mais próximos, conhecerem melhor um ao outro.

A aparência jovial do rapaz, prestes a completar 31 anos, faz com que, não poucas vezes, ele seja confundido com o irmão de Sophie. Além disso, com a cumplicidade que se estabelece entre os dois, não é de se estranhar mesmo que exista essa confusão. Nesse sentido, Aftersun é um filme sobre o amadurecimento de ambos, sobre ritos de passagem para a adolescência e (tardiamente) para a vida adulta. O filme é narrado do ponto de vista de Sophie, que, agora adulta, recorda-se daquelas férias com o pai, assistindo às filmagens amadoras que fizeram.

O que ela talvez jamais compreenda nesses anos todos é o estado emocional do pai naquele momento. Passando por uma depressão, ele tenta passar segurança para a menina, como se nada estivesse acontecendo. Mas, sozinho, Calum tem seus momentos de melancolia e fragilidade. A garota percebe as mudanças no humor do pai, mas, ao mesmo tempo, ela enfrenta suas próprias questões de amadurecimento.

Wells faz um estudo sobre as dores do crescimento por meio desses dois personagens. Numa cena, Sophie canta Losing My Religion num karaokê e, nesses poucos minutos, parece ter amadurecido anos. Nessas férias, ela descobre o que é se interessar por alguém, dá seu primeiro beijo e percebe que o pai é um homem frágil. Nesse sentido, Aftersun também é um estudo sobre a fragilidade masculina diante das pressões sociais que os obrigam a ser (ou se fingir de) fortes.

A mulher adulta que Sophie se tornou, claramente, tem uma relação com esse período com seu pai, com suas descobertas e de como sua vida deve ter se transformado dali em diante. As cenas dela assistindo aos vídeos são poucas e silenciosas, mas reveladoras de tudo que a trouxe até ali e das memórias daquele verão quando ela e o pai pareciam ter a mesma idade. (Alysson Oliveira)

Reserva Cultural Sala1 -













21/10/22 - 16:15
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 1 - 29/10/22 - 19:15
Cinesesc –
























31/10/22 - 21:30


Restos do vento
O cineasta português Tiago Guedes transita entre gêneros, indo da comédia melancólica e juvenil de Tristeza e alegria na vida das girafas a algo de épico de A herança. Seu novo filme, Restos do vento, exibido em Cannes fora de competição, é uma investigação complexa sobre laços de amizade e como o passado molda o presente.

O cenário é uma pequena cidade de Trás-os-Montes, onde, obviamente, todos se conhecem e alguns vivem sob o peso de um ato do passado. Na primeira cena do filme, um adolescente sofre bullying durante uma festa pagã, que termina num ato de violência que o marcará por toda a vida. Mais de 20 anos depois, ele é conhecido como “o doidinho da aldeia”, vivendo numa casa abandonada cercado de cães. Seu nome é Laureano (Albano Jerónimo). As pessoas não o levam a sério, e a única a ter uma relação amigável com ele é Judite (Isabel Abreu), que, de certa forma, se sente culpada por aquilo que aconteceu anos atrás.

Os outros dois valentões ainda vivem ali também. Samuel (Nuno Lopes) é um bem sucedido empresário, e Vitor (Gonçalo Waddington), que está prestes a cumprir uma pena por um pequeno delito, mas engana sua filha adolescente, que teve enquanto era casado com Judite, Salomé (Leonor Vasconcelos), dizendo que irá viajar por algum tempo.

Quando o filho adolescente de Samuel, Paulo (João Pedro Vaz), é encontrado morto na beira da estrada, o passado volta com força total, e todos culpam Laureano, dizendo que ele fez isso para vingar-se do trauma da juventude. Porém, a verdade, como o filme mostrará logo, é mais complexa, e desencadeará um jogo de dilemas morais e questionamentos éticos de profunda ressonância naquela comunidade.

Guedes assina o roteiro com o dramaturgo Tiago Gomes Rodrigues e constrói uma teia intrincada de relações e relacionamentos, que trazem ao presente ecos do passado, apontando uma permanência de estruturas sociais de dominação e opressão que não podem ser superadas. Com uma direção segura e um elenco firme, Restos do Vento, às vezes, cai em soluções óbvias, mas a presença de Jerónimo como o homem fragilizado que precisa ser forte, e Lopes, como o macho alfa que precisa assumir sua fragilidade diante da tragédia, traz força ao filme. (Alysson Oliveira)

Instituto Moreira Salles – Paulista





21/10/22 - 15:45
Cine Satyros Bijou -
















26/10/22 - 14:00
Cine Marquise Sala 2 -













27/10/22 - 14:30