No último dia da programação normal, política, amizade e canibalismo
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 02/11/2022
- Tempo de leitura 12 minutos

Noite Exterior
A magnífica série em seis episódios do diretor italiano Marco Bellocchio retorna ao tema já explorado num de seus melhores dramas anteriores, Bom dia, noite (2003) - ou seja, o sequestro e morte do presidente da Democracia Cristã, Aldo Moro, em 1978.
História e política infiltram-se de maneira singular na obra deste que é o maior diretor italiano vivo, remanescente de uma geração de ouro, da qual fizeram parte Bernardo Bertolucci e Ettore Scola, que vinham na esteira de outra não menos brilhante, integrada por Federico Fellini, Michelangelo Antonioni e Elio Petri, para citar alguns. Assim, no cerne desta ambiciosa série em suas cinco horas e meia, está uma aguda reflexão sobre não apenas as circunstâncias do evento dramático de 1978 mas suas terríveis consequências, que perduram na história de uma Itália que acaba de cair, novamente, nas mãos da extrema-direita, com a eleição de Giorgia Meloni como primeira ministra, à frente de um bloco de partidos que inclui os de Matteo Salvini e Silvio Berlusconi.
No esplêndido roteiro, assinado por Bellocchio, Ludovica Rampoldi, Stefano Bises e Davide Serino, Aldo Moro (o magnífico Fabrizio Gifuni) emerge com toda sua complexidade. Ou seja, como um homem profundamente ético e católico, mas também um político hábil na leitura das circunstâncias de seu tempo e na condução dos humores internos da Democracia Cristã, um partido marcado por um apetite insaciável pela corrupção.
Dentro desse pragmatismo astuto, Moro foi capaz de detetar a oportunidade de atrair para apoiar o governo da DC o Partido Comunista que, com Enrico Berlinguer à sua frente, empunhava a visão marxista mais moderna da Europa com o chamado eurocomunismo. Esta aliança inédita com os comunistas - chamada na época, não sem razão, de “compromisso histórico” -, no entanto, mesmo que não incluísse cargos no governo para o PC, incomodou demais muita gente poderosa, dos aliados norte-americanos ao Papa Paulo VI (Toni Servillo), um amigo íntimo de Moro.
Se em Bom Dia, Noite, Bellocchio ficava junto ao Moro sequestrado pelas Brigadas Vermelhas, na série ele desaparece por longo tempo da tela depois de seu sequestro, em março de 1978, à luz do dia, uma das ações mais espetaculares dos brigadistas. E, como no filme de 2003, o diretor retrata, numa sequência, um Moro sobrevivente ao sequestro que, ainda mais aqui, é a representação deste fantasma que não descansa e retorna para lembrar o quanto tantos aspectos daquele trágico episódio não foram devidamente compreendidos, nem assimilados pelos italianos. Exumêmo-lo, pois, pelo brilhantismo de Bellocchio, capaz de somar tantos elementos de reflexão sobre os desastres da negociação pela libertação do refém, a influência nefasta do adido norte-americano (Tim Dalsh) sobre o bipolar ministro do interior Francesco Cossiga (o esplêndido Fausto Russo Alesi), as omissões da DC e do primeiro-ministro Giulio Andreotti (Fabrizio Contri) e a dor declarada de sua família, através da manifestação de sua esposa, Eleonora Moro (Margherita Buy).
Na série, dividida em duas partes, Bellocchio conduz como maestro uma polifonia de vozes que permitem compreender muito melhor os fatos, sem deixar de colocar as posições de um diretor maduro e de formação marxista que parece, aos 83 anos, no auge de sua forma artística. Por tudo isso e muito mais, um programa que merece o adjetivo “imperdível”. (Neusa Barbosa)
Parte 1:
CINESESC
02/11/22 - 17:15
(ÚLTIMA SESSÃO)
02/11/22 - 17:15
(ÚLTIMA SESSÃO)
Parte 2:
CINESESC
02/11/22 - 20:15 (ÚLTIMA SESSÃO)
02/11/22 - 20:15 (ÚLTIMA SESSÃO)

Até os Ossos
Vencedor dos prêmios de melhor direção e melhor atriz revelação (Taylor Russell), o novo filme do italiano Luca Guadagnino acompanha personagens canibais, adaptando romance de Camille De Angelis. Dito assim, parece mais bizarro do que é - embora, evidentemente, não deixe de conter cenas chocantes. O diretor de Me Chame pelo Seu Nome escalou de novo seu ator, Timothée Chalamet, para viver um dos canibais, o jovem Lee. A protagonista é Maren (Taylor Russell), jovem abandonada pelo pai aos 18 anos, devido a um histórico de incidentes sangrentos, envolvendo a menina e também sua mãe, que há anos está desaparecida.
Entregues à própria sorte, Maren e Lee acabam se encontrando, literalmente, farejando um ao outro - quem come carne humana teria esse dom, como Maren aprendeu ao longo da estrada, depois do encontro com um homem um tanto exótico, Sully (Mark Rylance).
Estabelecido este cenário, nos EUA dos anos 1980, de Ronald Reagan, a história estabelece conexões com famílias desestruturadas, jovens à procura de rumo e também com uma relativa busca de justiça social. Afinal, quando busca uma nova vítima, Lee sempre tenta identificar pessoas de algum modo más ou injustas. Mas seu compasso, certamente, não é infalível, sublinhando a tragédia de sua condição.
Trilhando assim forte na esfera do horror, com cenas bem gráficas, Até os Ossos acena com um comentário sobre a disfuncionalidade, que assume várias faces ao longo das épocas - e a nossa não está fora desse esquadro. Além disso, Guadagnino retrata seu casal de jovens protagonistas com inescondível empatia humana, ainda que não seja um apoio aos seus ataques. Mas, como os vampiros, eles não podem escapar à natureza que herdaram de seus pais. Entre estes dois deserdados solitários, forma-se um vínculo, um romance. Torto, pode ser, mas não por conta do amor, deste amor marcado pelo doentio. (Neusa Barbosa)
Espaço Itaú de Cinema Augusta - sala 2 - 21h30
Espaço Itaú de Cinema Augusta - sala 3 - 22h

As Oito Montanhas
Vencedor do Prêmio do Júri em Cannes este ano, As Oito Montanhas tem a Itália no DNA mas, na verdade, é uma coprodução entre esse país, a França e a Bélgica, de onde vêm sua dupla de diretores, Felix von Groeningen e Charlotte Vandermeersh (ela, uma atriz estreante na direção).
Falada em italiano, trata-se de uma adaptação bastante sensível do romance homônimo de Paolo Cognetti - traduzido fielmente no Brasil como As Oito Montanhas -, acompanhando diversas etapas da vida de dois amigos, Pietro (adulto, interpretado por Luca Marinelli) e Bruno (Alessandro Borghi). Pietro é o rapaz da cidade, no caso, Turim; Bruno, o rapaz das montanhas onde a família de Pietro aluga uma casa para passar os verões.
As montanhas, além do cenário, simbolizam os percursos acidentados e exigentes exigidos pela vida para chegar à maturidade. Os diretores, que assinam o roteiro, fazem um bom trabalho na composição dos personagens em suas várias idades, bem como do papel desempenhado pelas duas famílias no destino dos protagonistas.
Aparecem mais os pais de Pietro (Elena Lietti e Filippo Timi), destacando-se a diferença do peso desta figura paterna na vida dos dois rapazes, mais problemática no caso do filho biológico.
Certamente, é um filme que diz muito mais sobre a condição masculina, embora as mulheres exerçam algumas influências pontuais. O foco está nesse processo constante de aproximação e distanciamento entre dois homens de mentalidades e vivências diferentes mas que periodicamente se reconectam - num olhar filtrado por Pietro, que se torna escritor e o narrador que ocasionalmente se ouve, tornando-se o porta-voz desta memória.
Luca Marinelli firma-se como um dos principais atores da Itália de sua geração, ele que foi visto em filmes como Uma Questão Pessoal, de Paolo Taviani, e Martin Eden, de Pietro Marcello. Na pele de um personagem cujo turbilhão interior é particularmente mais difícil de transmitir, ele se supera numa capacidade de expressão ao mesmo tempo sutil e intensa.
Fotografado com a mesma sutileza por Ruben Impens, com montagem de Nico Leunen, o filme se ressente um pouco de sua duração - 2h27 - mas não decepciona. (Neusa Barbosa)
Reserva Cultural - sala 1
02/11/22 - 18:40
(ÚLTIMA SESSÃO)
02/11/22 - 18:40
(ÚLTIMA SESSÃO)
Flux Gourmet
Embora pouco conhecido ainda no Brasil – possivelmente apenas em círculos cinéfilos, pois nenhum filme seu chegou ao circuito comercial por aqui, apenas na Mostra e no streaming –, Peter Strickland é uma das vozes mais interessantes e criativas do cinema inglês contemporâneo. Seus filmes são marcados por um estranhamento constante, algo que parece de nosso mundo, mas numa chave invertida.
Flux Gourmet, sua obra mais recente, exibida no Festival de Berlim, passa-se numa espécie de retiro, em que artistas trabalham em performances envolvendo arte e culinária. Nesse microuniverso, o cineasta, que também assina o roteiro, investiga disputas de poder, hierarquia e estado da arte no presente.
“Inicialmente, pensava em fazer um filme sobre uma banda de vanguarda”, diz em entrevista exclusiva ao Cineweb. “Há muitos filmes sobre conjuntos de rock, mas eu queria olhar para uma banda diferente só para mostrar que grupos de pessoas trabalhando juntas são todos iguais – com disputas de ego e rivalidades.”
Ele explica que a ideia era sobre uma banda que fazia sua música a partir do som de comida sendo preparada, e isso levaria a um filme sobre pessoas com problemas estomacais. “Quando aparece esse assunto no cinema, geralmente é para se ter um efeito cômico, e eu queria lidar com isso de forma séria. O tema também iria levar a ideias sobre tabu e valor de choque, mas tinha que trazer à história de forma orgânica, que estivesse ligada ao constrangimento e à ansiedade das personagens em relação aos seus estômagos.”
Alimentos, sua preparação e seus rituais são exatamente um tema em Flux Gourmet, que não se esquiva de mostrar uma certa alienação num tipo de arte feita performaticamente apenas para chocar. Nesse sentido, o estado da arte é uma questão cara ao filme. “A arte geralmente é uma forma de compreender a complexidade da humanidade, da sociedade, da vida. O que me interessa pessoalmente no cinema é o reconhecimento da vida, mais do que respostas. Se o cinema ou a arte podem provocar discussões e debates, especialmente sobre coisas que não são faladas abertamente, então esse é um resultado muito positivo.”
Como nos outros filmes de Strickland – cuja filmografia inclui Vestido Maldito e Katalin Varga –, aqui o visual é um ponto marcante. Se em O Duque de Burgundy se tratava de um mundo barroco, em Flux Gourmet estamos num ambiente estilizado, de cores fortes. Para chegar a esse resultado, nas filmagens, que levaram apenas 14 dias, Strickland explica que foi fundamental uma sintonia com toda a equipe. A fotografia é assinada por Tim Sidell, que foi mentoreado por Nic Knowland, veterano dos filmes do cineasta.
“Conversamos muito sobre referências em comum, sobre iluminação e outras questões visuais do filme. Era muito importante um diálogo entre eu, Tim, Siobhán Harper-Ryan, responsável pelo cabelo e maquiagem, e Fletcher Jarvis, que assina o desenho de produção. Foram duas semanas de filmagem muito estressantes, mas, pelo resultado, creio que valeu a pena.” (Alysson Oliveira)
Espaço Itaú de Cinema – Augusta Sala 1 - 02/11/22 - 16:20
(ÚLTIMA SESSÃO)
(ÚLTIMA SESSÃO)
Rodeio urbano
Pode-se não gostar do filme de estreia de Lola Quivoron – que está longe de ser perfeito –, mas ninguém pode negar a energia que a jovem francesa imprime a seu primeiro longa, Rodeio Urbano, sobre uma garota dos subúrbios de Paris que tenta entrar para um grupo de motoqueiros.
Julia (Julie Ledru) é uma jovem com um pé na adolescência e outro na vida adulta, sem rumo na vida. Sua grande paixão são motocicletas, mas ela não tem dinheiro para comprar uma e, já na primeira cena, dá um golpe e sai acelerando a moto roubada. Logo encontra um grupo – com maioria de rapazes – acelerando e fazendo acrobacias numa estrada.
Como tantos outros filmes sobre esse período da vida, este é sobre pertencimento. Mais do que encontrar seus pares, Julia precisa encontrar a si mesma. Ela é uma mulher num mundo marcadamente masculino. “Julia, Julie, e eu somos criaturas não binárias”, diz a diretora no material de imprensa, mostrando a sintonia do filme com o presente e as discussões de gênero da atualidade.
Julia segura suas emoções, ela é uma personagem difícil de se ler, e Ledru a segura muito bem. Ao longo do filme, os sentimentos despertados por ela vão desde paixão a ódio, passando por comiseração e raiva – ou seja, o pacote completo. Por isso, ela é uma personagem complexa, e, como qualquer pessoa, cheia de contradições.
A fotografia do francês Raphaël Vandenbussche é de uma beleza única, límpida, parece trazer o metal das motos para a estética do filme. O contraste que ele captura entre a natureza e a artificialidade das máquinas é a essência da discussão de Rodeio Urbano – a dualidade entre a essência e a aparência. (Alysson Oliveira)
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 1 - 02/11/22 - 16:15
(ÚLTIMA SESSÃO)
(ÚLTIMA SESSÃO)
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