05/06/2026

Na reta final, o grande vencedor de Veneza e outras atrações


All the Beauty and the Bloodshed
Vencedora do Oscar de documentário em 2015 com Citizenfour, em que acompanha a fuga do ativista Edward Snowden dos EUA, Laura Poitras ganhou o Leão de Ouro em Veneza por este notável perfil de outra personagem marcante, a fotógrafa Nan Goldin. Notabilizada na década de 1980 por sua militância em causas como a AIDS, mais recentemente, ela tornou-se um símbolo do enfrentamento à crise dos opiáceos nos EUA. Traduzindo, Nan tornou-se uma das faces mais marcantes do P.A.I.N., movimento que buscou a responsabilização da família Sackler, proprietária da fábrica Purdue Farma, pelos males causados por um de seus produtos, o potente analgésico Oxycontin, a quem se atribuem milhares de mortes e várias vítimas sofrendo de efeitos colaterais - inclusive a própria Nan. Estima-se o número dessas mortes em assustadores 500.000 nos EUA.

Nan, 68 anos, usa seu nome no mundo das artes, pressionando diversos museus em todo o mundo a retirar o nome dos Sackler de alas em seu interior, já que são generosos doadores a essas instituições - caso do Metropolitan, Guggenheim, Tate Gallery, fora universidades, como Harvard. Ao mesmo tempo em que acompanha essa militância, o filme delineia a biografia inusual desta mulher, que vem de uma família disfuncional, que abrange a história trágica de sua irmã, e atravessou diversos movimentos ao longo do século XX, especialmente na cena underground, que alimentaram o olhar que a tornou uma das fotógrafas mais prestigiadas do mundo. Diversos de seus trabalhos pertencem, aliás, aos acervos dos mesmos museus que ela agora pressiona para retirar o nome dos Sackler, que buscam construir, com essa benemerência, um marketing pessoal mais positivo.

Laura Poitras constroi, assim, um perfil denso e qualificado de uma figura que não se pode dar ao luxo de não conhecer a fundo. (Neusa Barbosa)

Cine Marquise - sala 1









01/11/2022 - 18h50
Espaço Itaú Augusta - sala 1




02/11/2022 -16h20


Um Outro Francisco
O documentário de Margarita Hernández (diretora de Che: Memórias de um Ano Secreto) aproxima o Brasil e a Itália através de um olhar à devoção a São Francisco e também aos caminhos da fotografia. Dois fotógrafos italianos, Dario e Giorgio, acompanham em Canindé, interior do Ceará, aquela que é a segunda maior festa franciscana do mundo, só perdendo para Assis, na Itália.
Percorrendo a imensa Basílica da cidade, a Casa dos Milagres, onde se guardam os ex-votos, e as ruas, os fotógrafos encontram os sinais das diferenças de expressão da fé dedicada ao santo italiano na cidade sertaneja e também as maneiras como estas expressões são registradas pelos fotógrafos locais.

Estas fotos populares, agora também captadas nos celulares dos peregrinos, constituem um dos eixos de um documentário que interroga sobre as diversas formas de olhar e guardar o que se vê em tempos digitais - em que a fotografia deixa de ser um objeto para fazer parte de dispositivos. Em Canindé, o passado convive com esse presente. E, de quebra, o filme volta seu foco também para as formas como estes italianos vêem este país tão diverso do seu, onde conversam com inúmeros personagens, notando as diferenças, por exemplo, das nossas crianças - que, como eles notam, falam muito delas mesmas, sendo um espelho muito potente da individualidade do povo nordestino. Esta aproximação dos fotógrafos italianos com os fotógrafos locais, com os quais os primeiros compartilharão um espaço de exposição, é um dos achados mais felizes deste filme. (Neusa Barbosa)

Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 2
01/11/22 - 19:20
Circuito SPCine - Biblio. Roberto Santos
02/11/22 - 17:00

O Clube dos Anjos
O cineasta carioca, estreante em longas, Angelo Defanti, adapta romance homônimo de Luis Fernando Verissimo, reconstruindo a história de um clube de amigos que se encontram mensalmente para comer. Eles se conhecem desde garotos de escola, quando sua iguaria máxima era um picadinho com arroz e farofa de ovo. Décadas depois, todos eles sendo parte de uma elite econômica que não precisa preocupar-se com os gastos, eles competem para oferecer uns aos outros banquetes regados a caros vinhos e champanhes.

Um dia, apresenta-se a um deles, Daniel (Otávio Muller), um estranho, Lucídio (Matheus Nachtergaele), que logo demonstra altos conhecimentos culinários e rapidamente se torna seu cozinheiro Mas, junto com ele, introduz-se uma ameaça: a cada encontro, um deles morre, desencadeando um jogo sinistro que, por alguma razão, eles não interrompem.

É uma trama interessante, que colhe inspirações, guardadas as devidas proporções, com filmes do passado juntando comida e morte: como A Comilança, de Marco Ferreri, ou O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante, de Peter Greenaway, mas preservando o seu espaço próprio.

Uma peculiaridade altamente favorável é este elenco, verdadeiramente magistral, integrado por Augusto Madeira, César Mello, Ângelo Antônio, Marco Ricca, Paulo Miklos, André Abujamra (que assina também a trilha musical). Embora o protagonista seja Otávio Muller, a participação de cada um dos outros é essencial ao funcionamento desta orquestra sombria, num gênero de suspense que o cinema brasileiro não costuma frequentar muito e em que este diretor estreante se arrisca com considerável êxito.

E humor, para quem espera de uma história adaptada de Verissimo, quando há, é negríssimo. Exatamente como no livro. (Neusa Barbosa)

Cineclube Cortina


01/11/22 - 21:20

(ÚLTIMA SESSÃO)


Cine Marquise - sala 1

1/11/22 - 14:00 (ÚLTIMA SESSÃO)


Crônica de uma Relação Passageira
Meio Éric Rohmer, meio Woody Allen, mas totalmente dono de si, Emmanuel Mouret assina uma história de amor melancólica, alegre e positivamente verborrágica em Crônica de Uma Relação Passageira. Sandrine Kiberlain e Vincent Macaigne têm uma química impressionante como Charlotte, uma mãe solo, e Simon, um homem casado, que embarcam num caso aparentemente pueril e inconsequente.

Com roteiro assinado por Mouret e Pierre Giraud, o filme é leve e luminoso (na fotografia de Laurent Desmet), acompanhando a evolução do caso entre eles. Charlotte é bem resolvida, sabe o que quer e como quer. Já Simon é tímido, inseguro e cheio de culpas, mas aos poucos se deixa levar pelo frescor do novo relacionamento.

Nunca vemos a mulher e os filhos de Simon, nem os filhos de Charlotte. O filme se concentra neles dois, nos encontros e desencontros em suas conversas. Depois, um novo elemento entra em cena para desestabilizar o relacionamento. Mouret tem um olhar aguçado para a construção das cenas, e um carinho enorme por seus personagens – ajuda também o fato de contar com uma dupla excelente em cena.

De forma lenta, mais cheia de vida, ele observa como essas duas pessoas se transformam e transformam a vida uma da outra a partir do encontro. Dois adultos que resgatam o frescor da juventude. A cena em que correm como um par de adolescentes apaixonados é a prova de que esse é um belo filme que sabe muito bem onde quer chegar, e, mais ainda, como percorrer esse caminho. (Alysson Oliveira)

Cine Marquise Sala 1 - 1/11/22 - 21:00 (ÚLTIMA SESSÃO)


Fumar Causa Tosse
Não deve existir, na Mostra deste ano, filme mais divertido e pirado do que este francês, escrito e dirigido por Quentin Dupieux. Com menos de 80 minutos, o cineasta toca em temas quentes – cigarro, meio ambiente, bomba atômica – com um humor corrosivo, que depende de o público entrar ou não na proposta totalmente maluca. Quem entrar só tem a ganhar.

A Força Tabaco luta na Terra contra o mal. Seus membros são antitabagistas, mas o nome do grupo vem do fato de que usam elementos dos cigarros para destruir seus inimigos – o primeiro em cena é uma espécie de tartaruga gigante mutante.

Amoníaco (Oulaya Amamra), Nicotina (Anaïs Demoustier), Metanol (Vincent Lacoste), Mercúrio (Jean-Pascal Zadi) e Benzeno (Gilles Lellouche, que parece se divertir mais do que qualquer outro aqui) estão sempre juntos em seus uniformes de lycra azul-claro brilhante. O chefe sempre os contata por chamada de vídeo - é um rato nojento e babão, dublado por Alain Chabat.

Depois de derrotar a tartaruga, voando vísceras e sangue para todo lado, eles recebem um novo robô, Nobert 500 (dublado por Ferdinand Canaud), que, embora mais moderno do que o anterior, parece não funcionar direito – ou eles não sabem usá-lo. Enquanto esperam a nova missão, passam o tempo contando histórias bizarras.

Numa delas, uma mulher (Julia Faure) fica com a cabeça presa numa espécie de capacete filosófico retrô, que a faz ver a verdadeira face de cada pessoa – todo mundo é chato e merece morrer, e entre as vítimas está a personagem de Adèle Exarchopoulos. Um banho de sangue novamente. Em outra, um rapaz (Jérôme Niel) fica com as pernas presas num triturador, e sua tia (Blanche Gardin) quanto mais tenta reverter as lâminas, pior deixa a situação.

Quando a Força Tabaco fica sabendo que um inimigo (Benoît Poelvoorde)
intergaláctico quer destruir a Terra, eles finalmente têm uma nova missão. Antes disso, é preciso fazer Nobert 500 funcionar. Dupieux faz um filme ágil, despretensioso, com uma clara homenagem nostálgica à ingenuidade dos filmes e seriados de heróis do passado, sem a pirotecnia e seriedade dos Vingadores e afins. (Alysson Oliveira)

Cinemateca – Sala Grande Otelo - 1/11/22 - 21:30 (ÚLTIMA SESSÃO)