05/06/2026

De vencedores em Veneza a clássicos europeus


Carvão
Primeiro longa da premiada curtametragista Carolina Markowicz, Carvão impressiona pela sua segurança na direção. Pode-se não concordar com todas as escolhas da cineasta, mas é inegável que todas elas foram feitas muito seguramente, com pulso muito firme na condução de uma trama difícil, marcada por personagens complexos e de uma assustadora ambiguidade moral.

Nesse sentido, o roteiro – também assinado por Markowicz, e premiado no Festival do Rio – é revelador de uma realidade contemporânea brasileira, marcada pela moral facilmente fluida que se ajusta conforme os desejos e interesses de um momento. Carvão talvez seja um dos filmes mais potentes sobre esse Brasil de 2022, tamanha a força que traz em si.

A protagonista é Irene (Maeve Jinkings, grande como sempre), que mora numa pequena cidade do interior marcada por seu conservadorismo.
No quintal de casa, ela tem uma pequena carvoaria com o marido, Jairo (Rômulo Braga, à altura de Maeve em cena). Eles têm um filho pequeno, Jean (Jean Costa, um achado), tagarela e esperto. O pai dela, no entanto, está doente, na cama, não fala, não ouve, mas todos os meses a família recebe a visita de uma agente de saúde, interpretada por Aline Marta, merecidamente premiada como coadjuvante no Festival do Rio.

Numa das visitas, ela traz uma proposta inusitada, mas muito rentável: esconder um forasteiro em sua casa, Miguel, interpretado pelo argentino César Bordón. Para que isso ocorra, no entanto, um ato ilícito – na verdade, mais do que isso, moralmente condenável – precisa ser feito. Se Irene hesita um pouco, logo aceita – o dinheiro é alto e bem-vindo.

Markowicz arma a partir disso uma investigação da falsa moral vigente no Brasil e não poupa – como mostra a impressionante cena final – ninguém. A fluidez dos interesses molda as ações e os personagens, que surpreendem em seus caminhos e como se vendem de maneira tão fácil e barata. Há, em alguns momentos, ações que não são tão bem resolvidas quanto outras, mas, no geral, a narrativa caminha muito bem, seguindo pessoas que vivem na corda bamba. Outra grande qualidade é que o filme não se coloca acima de seus personagens – ele não os julga. São pessoas comuns fazendo coisas incomuns – muitas vezes horríveis.

Um elenco menos afinado – o filme inclui ainda Camila Márdila e Pedro Wagner – não seguraria o peso da trama e a complexidade dos personagens. Markowicz revela-se excelente na direção de atores também, equilibrando todos e todas num mesmo nível – são particularmente boas as cenas de Maeve com Jean. E com seu diretor de fotografia, Pepe Mendes, compõe um filme claustrofóbico que parece sempre coberto por uma fuligem – mas não é da carvoaria, é de pessoas que tentam esconder o que fazem. (Alysson Oliveira)

Espaço Itaú Frei Caneca 1 - 31/10/22 - 14:00 (ÚLTIMA SESSÃO)


A Mãe e a Puta
Se o termo ‘esquerdomacho’ é relativamente recente, o espécime em questão, não. Como bem mostra o longo longa (de quase 4 horas) do francês Jean Eustache, A mãe e a puta, premiado no Festival de Cannes em 1973 (Fipresci e Grande Prêmio do Júri), e exibido numa belíssima cópia restaurada na Mostra.

Jean-Pierre Léaud, que, na época, não tinha nem 30 anos, encarna Alexandre, jovem dandy facilmente apaixonável, embora tenha uma relação estável com Marie (Bernadette Lafont), jovem dona de uma boutique, que o sustenta. Isso não o impede de passar as tardes em um café flertando com outras moças, ou correr atrás de um antigo amor, Gilbertte (Isabelle Weingarten), que está prestes a se casar.

Boa parte do filme consiste em Alexandre falando de si mesmo para qualquer pessoa que esteja por perto. Essa é, aliás, uma das graças do roteiro do próprio Eustache. Ao deixar o personagem falando tanto, ele expõe a si mesmo, suas limitações políticas, seu egocentrismo e narcisismo. É um toque genial do filme que dá munição a Veronika (Françoise Lebrun), uma anestesista que ele conhece por acaso, diz se apaixonar por ela, mas será
dela a grande cena climática do filme na qual, para novamente usar termos contemporâneos, ela desconstrói o machismo dele num grande e poderoso monólogo.

Assistir a A mãe e a puta meio século depois de seu lançamento original é perceber o frescor do filme de Eustache, mas também as limitações da geração de 1968 – especialmente dos homens – e notar o quanto o feminismo se fez (e se faz) necessário. Questões como o corpo feminino e o aborto aparecem aqui, e não é de se admirar as posições de Alexandre sobre elas.

Léaud nunca esteve tão bem na tela – num personagem a par com seus clássicos com François Truffaut. Ele assume a posição do homem desagradável e cheio de si, incapaz de enxergar qualquer pessoa que não seja a partir de seus interesses. Falando assim, parece um filme insuportável – mas não é. Eustache tem uma razão para a longa duração: capturar uma existência. Fosse mais curto, seria um filme simples, com uma trama, começo, meio e fim. Aqui, algo maior lhe interessa, e ele é muito bem sucedido: uma obra-prima. (Alysson Oliveira)

Cinemateca – Sala Grande Otelo -







31/10/22 - 15:00
Espaço Itaú de Cinema – Augusta Sala 1 -


1/11/22 - 16:10

Terceira Guerra Mundial
Vencedor de dois prêmios na seção Horizontes do mais recente Festival de Veneza - melhor filme e melhor ator -, o drama do diretor iraniano Houman Seyedi explora diversas vertentes a partir da história de um trabalhador, Shakib (Mohsen Tanabandeh). Tendo perdido mulher e filho num terremoto, Shakib tornou-se um nômade, vivendo da mão para a boca em trabalhos braçais esporádicos e mal-pagos, de um dia. Num deles, vai parar num set de filmagem, em que se filma uma produção de época sobre o nazismo na Alemanha. E, por um acidente do acaso, Shakib acaba sendo escalado para viver o papel de ninguém menos do que Adolf Hitler.

Trabalhando o tempo todo nos limites do absurdo e das estranhas semelhanças dos tempos nazistas com a precariedade iraniana atual, o diretor compõe uma sátira de claro sentido político que ganha um componente dramático a partir da presença de Ladan (Mahsa Hejazi). Jovem surda-muda forçada a viver da prostituição, ela se tornara o único vínculo afetivo do viúvo, que conhece a linguagem dos sinais. Criando coragem de fugir aos seus exploradores, Ladan procura a proteção de Shakib, que também é o vigia noturna da grande casa construída como cenário do filme. Ele resolve escondê-la, numa situação de crescentes riscos para ambos.

Não escapam ao diretor as semelhanças entre o período do filme nazista e a realidade atual no Irã no sentido do esgarçamento das relações humanas. Num ambiente de exploração, esvai-se quase completamente a solidariedade entre os explorados, que se vigiam e delatam mutuamente, em busca de uma sobrevivência cada vez mais feroz, tendo por patrões homens insensíveis e voltados apenas aos próprios interesses. Esta desumanização fatalmente conduz a um desfecho trágico, talvez exacerbado, mas que serve completamente à intenção do diretor de tornar seu filme uma parábola de uma modernidade distópica. (Neusa Barbosa)

Reserva Cultural - sala 1






31/10/22 - 18:15


Bardo, Falsa Crónica de unas Quantas Verdades
Com este filme barroco e grandiloquente, o mexicano Alejandro González Iñárritu volta à direção depois de 7 anos - o último fora O Regresso, pelo qual venceu o segundo Oscar como diretor. Em Bardo, Falsa Crónica de Unas Quantas Verdades, realiza um filme ambicioso, em que se nota um fio autobiográfico no protagonista, Silverio Gama (Daniel Giménez Cacho), que logo se apaga nos desdobramentos do roteiro, assinado pelo diretor e Nicolás Giacobone (que dividiu com ele os créditos de Birdman, 2014).

Jornalista e documentarista mexicano, Gama volta ao seu país natal para receber um prêmio. A viagem desencadeia uma série de reencontros e reativa lembranças que colocam em xeque a identidade e as certezas de Silverio Essa jornada é filmada da maneira mais ambiciosa, em 65 mm, com direção de fotografia do premiado Darius Khonji, revelando-se em sequências de imensa beleza: como a abertura, que mostra uma sombra voando no deserto; os imigrantes em busca de uma aparição da Virgem Maria; um vagão de metrô invadido pela água; uma montanha de indígenas mortos, remetendo ao genocídio da colonização; e uma engenhosa forma de retratar os desaparecidos, um fenômeno persistente, marca da força do crime organizado no México.

Por esse engenho e ambição, nota-se que Bardo… está para Iñárritu assim como A Doce Vida ou 8 1/2 estavam para Federico Fellini.
Ou seja, uma imensa declaração de amor ao cinema passando pelo crivo pessoal, deixando para trás qualquer necessidade de afirmação ou de conquista, como o diretor mexicano já obteve de Hollywood. Ele não precisa provar mais nada a ninguém, então pode-se dar ao luxo de inserir na história de Bardo… - que é o nome de um lugar - a responsabilidade dos EUA em boa parte dos problemas do México. Este aspecto é ilustrado numa cena em que o jornalista conversa com um embaixador norte-americano, não se esquecendo de mencionar que a chamada Guerra Mexicano-Americana, de 1846/1848, foi, na verdade, uma invasão, que custou ao México metade de seu território. (Neusa Barbosa)

Cine Marquise - sala 1









31/10/22 - 20:45
Cine Marquise - sala 1










2/11/22 - 20:45


One fine morning
Neste título que integrou a mostra Quinzena dos Realizadores de Cannes, a diretora francesa Mia Hansen-Love compõe mais uma crônica intimista de uma série de personagens. A protagonista é Sandra (Léa Seydoux), uma jovem viúva com uma filha pequena, Linn (Camille Leban Martins). O filme se constrói em torno dessa jovem mulher, confrontada com a rotina do próprio trabalho de intérprete e as demandas da filha, além de um pai com problemas neurológicos, Georg (Pascal Greggory), e as próprias necessidades afetivo-sexuais.

É particularmente tocante a maneira como o filme elabora os relacionamentos de Sandra que reencontra Clément (Melvil Poupaud), um velho amigo, agora casado, mantendo com ele um romance tórrido e complicado.
Diretora experiente, Hansen-Love adensa a complexidade de todas estas ligações de Sandra, detalhando sem pieguice sua dor diante da crescente deterioração mental do pai, antes um sólido professor de filosofia que agora não consegue mais ler seus livros. É particularmente comovente a maneira como a filha lida com o destino destes livros, dando uma dimensão das perdas do pai.

No desenvolvimento das situações, o filme deixa clara a procura de afetos sinceros por parte de sua protagonista, que compõe com muita lucidez o perfil de uma mulher contemporânea, sem romantismo nem tragédia demais, aproximando-se mais de um retrato das contradições da própria vida, em que alegria e tristeza convivem sem fronteiras e não há espaço para soluções mágicas.

Como a ex-mulher de Georg, mãe de Sandra, Nicole Garcia encarna seu habitual personagem antipático e desagradável, não sendo eficiente o bastante na missão de introduzir algumas notas políticas a alguns diálogos do filme - sua aspereza quase põe tudo a perder. Ao contrário dela, Pascal Greggory é comovente em seu personagem em desmonte mental, do qual ele tem, eventualmente, uma dolorosa consciência. (Neusa Barbosa)


Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 2

31/10/22 - 18:30 (ÚLTIMA SESSÃO)


Lobo e Cão
A diretora portuguesa Cláudia Varejão conquistou o prêmio de melhor filme na seção Jornada dos Autores do mais recente Festival de Veneza com esta obra extremamente sensível e sensorial. Trata-se de uma crônica sobre a vida de adolescentes na ilha de São Miguel, a maior do arquipélago dos Açores, nestes tempos em que padrões de gênero vêm sendo rediscutidos - mas ali, no ambiente insular e fortemente marcado pelo conservadorismo do catolicismo tradicional, há imensos obstáculos para a aceitação do novo.

Apoiada na fotografia extraordinária do premiado Rui Xavier, no trabalho empenhado de som de Olivier Blanc e na montagem de João Braz, a diretora imprime a esta ficção uma marca documental que se elabora nas peles de seus protagonistas, atores novatos, Ana (Ana Cabral) e Luis (Ruben Pimenta).

O rosto de Ana é o mapa que permite ao espectador medir os sentimentos de alguém que está descobrindo o mundo a partir de uma natureza tão bela quanto isolada, ao mesmo tempo que começa a ter consciência das diferenças de expectativas e papeis entre homens e mulheres. Filha única entre três irmãos, ela é cobrada de mais tarefas dentro de casa, às quais deve somar o estudo e a participação no comércio da família.

Seu melhor amigo, Luis, ao manifestar seu gosto por brincos, maquiagens e roupas femininas, coloca em xeque as tradições machistas locais. A chegada de uma amiga de Ana, Cloé (Cristiana Branquinho), acirra a pulsão por descobertas sexuais dela, levando o filme ao registro de uma fisicalidade amorosa delicada e singular.

Com uma narrativa poderosamente visual, é o tipo do filme do qual se podem extrair tantas camadas quanto aquelas a que um espectador sensível se dispuser. Quando parece que quase nada está acontecendo, na verdade, é o turbilhão da vida se impondo diante de nossos olhos. (Neusa Barbosa)

Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca
2





31/10/22 - 14:00
Cine Marquise - sala 1





















2/11/22 - 14:00

Pacifiction
Concorrente à Palma de Ouro em 2022, no drama Pacifiction o veterano diretor catalão Albert Serra mais uma vez dilui em belas imagens uma trama que se esfarela diante de nossos olhos. O cenário são as belas paisagens do Taiti, na Polinésia Francesa, em que um alto comissário, De Boller (Benoît Magimel), procura acalmar os ânimos locais, diante de indícios de que a França irá retomar ali os testes nucleares que realizou nos anos 1960.

Serra poderia ser mais incisivo nessa tentativa de reflexão sobre os males do colonialismo e a apropriação das culturas locais, como as danças, em nome da exploração turística - que acontece em torno de um clube, dirigido por Morton (Sergi López). Mas, como sempre, não é aí que Serra quer chegar. E este se torna mais um filme que parece à procura de um roteiro melhor. (Neusa Barbosa)

Espaço Itaú de Cinema - Augusta sala 1
31/10/22 - 20:15
(ÚLTIMA SESSÃO)