Jornadas intimistas, um musical e o novo “Reino” de Lars Von Trier
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 29/10/2022
- Tempo de leitura 15 minutos

One fine morning
Neste título que integrou a mostra Quinzena dos Realizadores de Cannes, a diretora francesa Mia Hansen-Love compõe mais uma crônica intimista de uma série de personagens. A protagonista é Sandra (Léa Seydoux), uma jovem viúva com uma filha pequena, Linn (Camille Leban Martins). O filme se constrói em torno dessa jovem mulher, confrontada com a rotina do próprio trabalho de intérprete e as demandas da filha, além de um pai com problemas neurológicos, Georg (Pascal Greggory), e as próprias necessidades afetivo-sexuais.
É particularmente tocante a maneira como o filme elabora os relacionamentos de Sandra que reencontra Clément (Melvil Poupaud), um velho amigo, agora casado, mantendo com ele um romance tórrido e complicado.
Diretora experiente, Hansen-Love adensa a complexidade de todas estas ligações de Sandra, detalhando sem pieguice sua dor diante da crescente deterioração mental do pai, antes um sólido professor de filosofia que agora não consegue mais ler seus livros. É particularmente comovente a maneira como a filha lida com o destino destes livros, dando uma dimensão das perdas do pai.
No desenvolvimento das situações, o filme deixa clara a procura de afetos sinceros por parte de sua protagonista, que compõe com muita lucidez o perfil de uma mulher contemporânea, sem romantismo nem tragédia demais, aproximando-se mais de um retrato das contradições da própria vida, em que alegria e tristeza convivem sem fronteiras e não há espaço para soluções mágicas.
Como a ex-mulher de Georg, mãe de Sandra, Nicole Garcia encarna seu habitual personagem antipático e desagradável, não sendo eficiente o bastante na missão de introduzir algumas notas políticas a alguns diálogos do filme - sua aspereza quase põe tudo a perder. Ao contrário dela, Pascal Greggory é comovente em seu personagem em desmonte mental, do qual ele tem, eventualmente, uma dolorosa consciência. (Neusa Barbosa)
Espaço Itaú de Cinema - Augusta sala 1
29/10/22 - 14:00
29/10/22 - 14:00
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 2
31/10/22 - 18:30
31/10/22 - 18:30

Lobo e Cão
A diretora portuguesa Cláudia Varejão conquistou o prêmio de melhor filme na seção Jornada dos Autores do mais recente Festival de Veneza com esta obra extremamente sensível e sensorial. Trata-se de uma crônica sobre a vida de adolescentes na ilha de São Miguel, a maior do arquipélago dos Açores, nestes tempos em que padrões de gênero vêm sendo rediscutidos - mas ali, no ambiente insular e fortemente marcado pelo conservadorismo do catolicismo tradicional, há imensos obstáculos para a aceitação do novo.
Apoiada na fotografia extraordinária do premiado Rui Xavier, no trabalho empenhado de som de Olivier Blanc e na montagem de João Braz, a diretora imprime a esta ficção uma marca documental que se elabora nas peles de seus protagonistas, atores novatos, Ana (Ana Cabral) e Luis (Ruben Pimenta).
O rosto de Ana é o mapa que permite ao espectador medir os sentimentos de alguém que está descobrindo o mundo a partir de uma natureza tão bela quanto isolada, ao mesmo tempo que começa a ter consciência das diferenças de expectativas e papeis entre homens e mulheres. Filha única entre três irmãos, ela é cobrada de mais tarefas dentro de casa, às quais deve somar o estudo e a participação no comércio da família.
Seu melhor amigo, Luis, ao manifestar seu gosto por brincos, maquiagens e roupas femininas, coloca em xeque as tradições machistas locais. A chegada de uma amiga de Ana, Cloé (Cristiana Branquinho), acirra a pulsão por descobertas sexuais dela, levando o filme ao registro de uma fisicalidade amorosa delicada e singular.
Com uma narrativa poderosamente visual, é o tipo do filme do qual se podem extrair tantas camadas quanto aquelas a que um espectador sensível se dispuser. Quando parece que quase nada está acontecendo, na verdade, é o turbilhão da vida se impondo diante de nossos olhos. (Neusa Barbosa)
Cinesesc
29/10/22 - 16:40
29/10/22 - 16:40
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca
2
31/10/22 - 14:00
2
31/10/22 - 14:00
Cine Marquise - sala 1
2/11/22 - 14:00
2/11/22 - 14:00

The Kingdom Exodus
Dezoito anos depois do lançamento da série original, O Reino (1994) - que teve uma sequência em 1997 -, Lars Von Trier volta ao sinistro hospital dinamarquês construído sobre pântanos onde assombrações se misturam aos pacientes e médicos.
Até devido à morte de alguns dos atores da série original - embora caras conhecidas estejam aqui novamente -, há novos intérpretes em posições-chave. A primeira delas é Bodil Jorgensen, interpretando Karen, a velhinha com poderes mediúnicos que se aventura para decifrar os mistérios do hospital, substituindo a antiga personagem nesta função, Kirsten Koffles, que morreu em 2000.

Sofrendo de sonambulismo, Karen tem visões, o que a leva a entrar no hospital, à procura de um certo “Irmãozinho”, misteriosa entidade que ali correria o perigo de afogar-se. Contando com a ajuda de alguns funcionários, Karen infiltra-se como paciente, o que a expõe a não poucos riscos, dada a extravagância deste corpo médico.
Entre os médicos, chega o sueco Helmer Jr.
(Mikael Persbrandt), filho do falecido dr. Stig Helmer (Ernst-Hugo Järegard, que morreu em 1998). Este novo Helmer, que todo o corpo funcional chama jocosamente de Halfmer, encarna com ainda mais corrosividade do que a série original a tradicional rivalidade entre suecos e dinamarqueses, tendo Helmer assumido a missão de afirmar, o tempo todo, a superioridade de seu povo diante dos locais.
(Mikael Persbrandt), filho do falecido dr. Stig Helmer (Ernst-Hugo Järegard, que morreu em 1998). Este novo Helmer, que todo o corpo funcional chama jocosamente de Halfmer, encarna com ainda mais corrosividade do que a série original a tradicional rivalidade entre suecos e dinamarqueses, tendo Helmer assumido a missão de afirmar, o tempo todo, a superioridade de seu povo diante dos locais.
A Mostra exibe dois episódios da nova série, que chegará brevemente à plataforma Mubi, e mantém intocado o seu clima de sinistro e anárquico humor negro e sobrenatural, introduzindo toques de ironia contra modernidades, como o uso da linguagem neutra, uma exigência do dr. Helmer que não tarda a ter consequências imprevisíveis.
A tradicional aparição do próprio Lars von Trier comentando ao final dos episódios sofre uma mudança importante: ele aparece atrás de uma cortina, não se vendo mais do que seus sapatos. Uma novidade que, certamente, tem a ver com a recente descoberta do diretor de que sofre do Mal de Parkinson. (Neusa Barbosa)
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 2
29/10/22 - 14:00
29/10/22 - 14:00
Reserva Cultural - sala
1
01/11/22 - 16:30
1
01/11/22 - 16:30
Espaço Itaú de Cinema - Augusta 1
2/11/22 - 18:40
2/11/22 - 18:40
Fire of Love
Produzido pela National Geografic, Fire of love poderia ser apenas mais um documentário para televisão com imagens bonitas de natureza e narração monocórdica para se ver em casa, num fim de noite sem muita expectativa. Porém, o que vê na tela é uma história de amor de um casal por vulcões, e de um pelo outro. Além disso, há, obviamente, poderosas e belas imagens que eles captaram ao longo dos anos em suas expedições, até sua morte juntos, enquanto filmavam uma erupção em junho de 1991 no Japão.
Os franceses Katia e Maurice Krafft se conheceram na universidade, em 1966, e logo perceberam que compartilhavam a paixão por estudar vulcões. Casaram-se, decidiram que não teriam filhos e saíram pelo mundo investigando erupções, lavas, arredores de vulcões e a afins. Ela era uma geoquímica, e ele, um geólogo. Ao mesmo tempo, ele fazia documentários sobre o trabalho, e ela, tirava fotos. As imagens captadas por ele são de uma beleza e força impressionantes.
A diretora Sara Dosa sabe muito bem combinar o conteúdo humano com o científico dessa história – as descobertas deles sobre esse assunto tão nebuloso são importantes até hoje, e já salvaram milhares de vidas, como mostra o filme. Entre um vulcão e outro soltando lava, o filme também investiga essa história de amor, comprometimento e cumplicidade. Eles eram duas pessoas excêntricas que, em algumas cenas, parecem saídas de um filme de Wes Anderson.
As imagens dos documentários dele foram restauradas, mas não a ponto de parecer algo digital - por exemplo, há ainda uma espécie de “envelhecimento”, que lhes confere charme e atemporalidade. Já a história de amor deles é delicada e emocionante. Eles se complementavam, como profissionais, e como seres humanos. Fire of love é capaz de converter em sua narrativa diversas dimensões do casal Krafft.
Narrado por Miranda July, e com montagem premiada em Sundance e assinada por Erin Casper e Jocelyne Chaput. Fire of love é um filme de beleza e melancolia. Logo na primeira cena, ficamos sabendo que eles morreram enquanto filmavam uma erupção que foi mais forte do que o previsto. Ao final, quando nos é dito que as marcas dos pés de Katia e Maurice estavam lado a lado, é devastador. (Alysson Oliveira)
Instituto Moreira Salles – Paulista
29/10/22 - 14:00
29/10/22 - 14:00
MIS – Museu da Imagem e do Som
1/11/22 - 19:45
1/11/22 - 19:45
Don Juan
Uma releitura contemporânea da história clássica, Don Juan abre com uma cerimônia de casamento que não acontece. Laurent (Tahar Rahim) aguarda sua amada Julie (Virginie Efira), que não aparece. Ele olha pela janela, procurando por ela na rua e, casualmente, troca olhares com uma pedestre.
A noiva, que vê a cena, decide que ele vai ser um marido fiel e foge. Começa aí o sofrimento do Don Juan contemporâneo, frágil e um tanto tolo em sua jornada de recuperar o amor de sua ex-futura esposa.
A noiva, que vê a cena, decide que ele vai ser um marido fiel e foge. Começa aí o sofrimento do Don Juan contemporâneo, frágil e um tanto tolo em sua jornada de recuperar o amor de sua ex-futura esposa.
Dirigido por Serge Bozon, com roteiro assinado por ele e Axelle Ropert, o filme é um musical no qual, do nada, as personagens começam a cantar – geralmente sobre seus sofrimentos amorosos. Laurent tenta se envolver com diversas mulheres desconhecidas (todas interpretadas por Efira, em diferentes caracterizações), sempre sem sucesso.
Ele é um ator de prestígio, que, atualmente, ensaia uma montagem de Don Juan, e está tendo dificuldades com a colega de cena (Louise Ribiere), que acaba demitida depois de tentar seduzi-lo. A surpresa, para ele ao menos, é que Julie, que também é atriz, assume o posto da personagem na peça.
Sem se ver ou falar com ela desde que foi abandonado, Laurent quer compreender o que aconteceu. Mas a questão toda é complicada para os personagens falarem, por isso, eles cantam. Embora não exista nada de memorável aqui – algumas músicas são terríveis –, há comprometimento nas interpretações da dupla central, em especial de Rahim, presente em todas as cenas.
Don Juan é um filme um pouco perdido, em busca de rumo, no qual nem tudo faz sentido. As cenas envolvendo um homem misterioso (interpretado pelo veterano Alain Chamfort), no bar do hotel onde os personagens estão hospedados enquanto ensaiam a peça, são particularmente descoladas do restante da narrativa. (Alysson Oliveira)
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 2 - 30/10/22 - 14:00
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 1 -
1/11/22 - 19:00
1/11/22 - 19:00
Palmeiras e Linhas Elétricas
Palmeiras e linhas elétricas é um filme construído de forma sutil, que apenas aos poucos revela suas verdadeiras intenções – especialmente para sua protagonista, Lea (Lily McInerny), uma jovem de 17 anos passando as férias de verão de maneira tediosa com seus amigos, até que algo inesperado acontece: um homem com o dobro da sua idade de interessa por ela. Trata-se de Tom (Jonathan Tucker), que se diz dono de uma loja de consertos.
O que no início é uma amizade, aos poucos se torna algo mais sério. Lea se apaixona por ele, e ele, aparentemente, por ela. Pequenas pistas nos dão dicas de que há algo de errado ali – não apenas pelo fato das relações sexuais entre eles serem um crime. Mas a jovem está carente demais para perceber o que está acontecendo. Abandonada pelo pai, e criada por uma mãe (Gretchen Mol) um tanto negligente, a protagonista cai nas garras do primeiro predador que lhe dá um pouco de atenção.
Estreante no cinema, Lily McInerny é um achado. Sua interpretação é capaz de traduzir toda a carência e vulnerabilidade da personagem. O filme todo depende disso, de se acreditar que essa jovem inteligente e tímida está tão solitária que se deixa levar por algo claramente errado, e que lhe fará mal.
Dirigido por Jamie Dack, que foi premiada em Sundance por esse filme, Palmeiras e linhas elétricas impressiona com sua sutileza e contenção. Essa não é a história de um amor proibido entre uma adolescente e um homem mais velho, é a história de abusos emocionais e físicos, e de como a vítima, por seu estado emocional frágil, aceita tudo. Nesse sentido, a cena final é dilacerante. (Alysson Oliveira)
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 2 - 29/10/22 - 20:40
Piaffe
Combinando realismo e fantasia em seu primeiro longa, Ann Oren faz uma investigação sobre a construção de identidades de gênero a partir de uma personagem que desenvolve algo estranho em seu corpo: um rabo de cavalo.
Eva (Simone Bucio) é obrigada a assumir o trabalho de sonoplasta de sua irmã, interpretada por Simon(e) Jaikiriuma Paetau, uma pessoa não binária, que usa o pronome elus. A protagonista precisa sonorizar um comercial de um antidepressivo que traz, ao centro, um cavalo.
Para construir a personagem, Oren conta que conversou com muitos sonoplastas para compreender bem a profissão, e o que isso traria à sua personagem. “É uma parte muito importante nos filmes, nos ajuda a acreditar no que estamos vendo”, explica em entrevista ao Cineweb.
A preparação para o filme envolveu também uma pesquisa sobre cavalos – não apenas seus rabos, mas também a psicologia do animal. No comercial que Eva sonoriza, é o cavalo que está com depressão, não a jóquei. “Descobri, por exemplo, que as cordas de alguns instrumentos musicais são feitos com pelos de rabo de cavalo.”
Mas a questão central tanto para Piaffe, quanto para Oren, como cineasta e artista, são as identidades de gênero.
“Eva é empoderada ao assumir o trabalho da irmã, que teve um colapso nervoso. E, como mulher, ela também mostra que pode fazer um bom trabalho. E, na medida em que avança nesse projeto, ela se descobre ainda mais como mulher. O rabo que surge no final da coluna dela lhe permite explorar sua própria identidade, e também a alteridade”.
“Eva é empoderada ao assumir o trabalho da irmã, que teve um colapso nervoso. E, como mulher, ela também mostra que pode fazer um bom trabalho. E, na medida em que avança nesse projeto, ela se descobre ainda mais como mulher. O rabo que surge no final da coluna dela lhe permite explorar sua própria identidade, e também a alteridade”.
O roteiro foi escrito por Oren e a brasileira Thais Guisasola. A diretora ressalta que a maior parte da equipe é formada por pessoas de origem latino-americana, como é o caso de Simon(e) Jaikiriuma Paetau, de origem alemã e colombiana. Ela também explica que Piaffe foi feito em 16mm, pois é um formato que melhor capta os sentidos do corpo humano, como ela queria. “Queria mostrar a experiência das personagens, mais do que o que sentem em seus corpos.” (Alysson Oliveira)
Espaço Itaú de Cinema – Augusta Sala 1 - 30/10/22 - 16:00
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