Os 20 anos de “Durval Discos” e outros brasileiros premiados
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 28/10/2022
- Tempo de leitura 15 minutos

Anna Muylaert e os 20 anos de “Durval Discos”
“Faz uns dez anos que não o vejo, mas o tenho bem vivo na cabeça, fiquei tanto tempo trabalhando nesse filme”, brinca a cineasta e roteirista Anna Muylaert sobre seu Durval Discos, que completa 20 anos e ganha uma sessão especial na 46a Mostra, em cópia em 35mm, a céu aberto, na Cinemateca Brasileira.
Nessas duas décadas, Muylaert se destacou no cinema brasileiro, com filmes como Que horas ela volta? e É proibido fumar. Mas Durval Discos, no qual ela trabalhou por sete anos, ainda é muito marcante e lembrado. “Foi um filme feito com muito carinho, muito amor. Só tenho boas lembranças dele.” Apesar disso, ela conta que, na noite anterior ao início das filmagens, entrou em pânico e ficou horas chorando. Hoje ela se lembra disso como algo divertido.
“É muita responsabilidade para um diretor ou uma diretora fazer um filme. Não só a quantidade de gente no set, mas também todo o dinheiro público envolvido. É uma verba que poderia estar sendo usada em outra coisa, por isso é preciso tratar com muito respeito, cuidado, empregá-la muito bem.”
Formada em cinema pela ECA-USP, em 1984, Muylaert conta que vem de uma geração que não sabia se um dia conseguiria fazer cinema. Por isso, para ela, fazer Durval Discos, foi um milagre. “Eu tinha 36 anos e pensei: fiz um filme, já posso morrer.”
O filme tem como protagonista Durval (Ary França), dono de uma loja de discos no bairro de Pinheiros, em São Paulo, que se recusa a vender CDs. Ele vive com a mãe (Etty Fraser) na mesma casa onde funciona o comércio. A nova empregada (Letícia Sabatella) desaparece, deixando para trás sua suposta filha pequena (Isabela Guasco), que, na verdade, é filha de uma família rica e foi sequestrada.
Muylaert, que também assina o roteiro do longa, aponta como esse é um filme sobre a nostalgia, sobre um homem que não quer se modernizar. “Olhando para trás, como tudo mudou. CDs, que todo mundo ouvia na época, mal existem hoje, e o vinil agora é cult. A internet estava ainda avançando no Brasil, e a gente usava película para fazer e exibir filmes.” O longa seguinte da diretora, É proibido fumar, de 2009, ainda foi feito de forma analógica. Depois, Chamada a cobrar, de 2012, já foi feito em digital, assim como todos os posteriores.
Rodado em locação, em Pinheiros, Durval Discos passou por diversas transformações – assim como o bairro. “Quando fiz a primeira versão do roteiro, o filme terminava com Durval como VJ na MTV, outra coisa que era moda na época. Mas, quando encontramos essa casa que seria demolida e serviu de locação, reescrevi todo o final. Pinheiros mudou muito também. Era um bairro de casas térreas, as pessoas conheciam umas às outras. Agora só tem prédios enormes, e cada vez mais”
Nessas duas décadas, Muylaert também aponta as diversas mudanças no Brasil. Quando o filme passou na Mostra de 2002, Lula estava sendo eleito presidente pela primeira vez. Muitas coisas aconteceram – como o impeachment de Dilma Rousseff, tema do documentário Alvorada, que ela assina com Lô Politi.
Nesse período também, aumentou a presença de mulheres trabalhando em diversas funções no cinema. Muylaert lembra que a Retomada do cinema brasileiro, na segunda metade da década de 1990, deu-se com dois filmes realizados por mulheres: Carlota Joaquina, de Carla Camuratti, e Um céu de estrelas, de Tata Amaral. “Acho que por volta de 2015, as mulheres se encheram de não poder ocupar os lugares que queriam, agora podem e lutam por isso.”
Muylaert acaba de rodar seu sétimo longa, O Clube das Mulheres de Negócios, uma comédia distópica em que os papéis sociais comuns a mulheres e homens se invertem. O filme deve chegar aos cinemas em 2023. Perguntada se, depois de 20 anos, o pânico do primeiro dia de filmagem passou, ela ri e diz: “Não! É menor, é diferente, mas sempre bate um pânico. Sou mais segura agora, mas fazer cinema é tão difícil, parece que a gente está desafiando a morte. É tanta gente, e tanta coisa que precisa funcionar, que é um milagre que os filmes existam.” (Alysson Oliveira)
Cinemateca Área Externa - 28/10/22 - 19:00

Um pedaço de céu
Escrito e dirigido por Michael Koch, a produção suíço-alemã é arrebatada por uma interpretação feminina cativante - no caso, da impressionante atriz novata Michèle Brand, na pele da protagonista, Anna.
Moradora de uma bucólica aldeia nas montanhas suíças, sempre cercada por paisagens enevoadas, Anna divide com sua mãe a administração de um pequeno bar-hotel. Mãe solteira de uma menina de 5 anos, Anna se apaixona por Marco (Simon Wisler), um trabalhador vindo de fora, um tanto rude, mas que parece preencher a necessidade dela de um relacionamento afetivo e familiar para a filha também.
Esplendidamente fotografado por Armin Dierolf, o filme explora com a mesma transparência e luz as paisagens montanhosas e o rosto de Anna, onde se lêem os altos e baixos de um enorme turbilhão emocional que se avoluma. Um recurso dramático eficiente está nos contrapontos musicais de um coral suíço, que funciona como os antigos coros gregos, comentando os sentimentos de uma história que aborda suspeita de abuso infantil, abandono, empatia e muitas coisas mais numa chave extraordinariamente sutil e forte. (Neusa Barbosa).
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 1
28/10/22 - 16:20
28/10/22 - 16:20
Espaço Itaú de Cinema - Augusta sala 1
01/11/22 - 20:20
01/11/22 - 20:20

A Mãe
Gaúcho radicado há muito em São Paulo, o cineasta Cristiano Burlan tem pautado sua cinematografia por documentários pessoais, familiares, em torno de tragédias de sua vida - caso dos premiados Mataram meu irmão e Elegia de um Crime, parte de sua chamada Trilogia do Luto, em que se aproxima dos assassinatos de seu irmão (em 2001) e de sua mãe (em 2017). Exibido anteriormente na competição do Festival de Málaga e vencedor de três prêmios em Gramado (melhor atriz, direção e desenho de som), A Mãe, protagonizado por uma sempre esplêndida Marcélia Cartaxo, ficcionaliza uma saga que Burlan conhece muito bem - a luta de uma mãe trabalhadora e pobre, na periferia leste de São Paulo, buscado saber o que aconteceu com seu filho adolescente, Valdo (Dunstin Farias), que desapareceu.
A questão não é tanto saber o destino com o rapaz - o que se intui desde o começo e o filme esclarece no final - mas sim compartilhar esse processo angustiante de mães à procura dos filhos desaparecidos, uma tragédia brasileira que vem desde a ditadura militar 1964-1985, evocada, aliás, por uma brilhante sequência com a participação da sempre mítica Helena Ignez.
Fazer essa ponte com o passado recente e também com um presente insistentemente trágico - com a referência às Mães de Maio, grupo contra a violência de Estado atuante em S. Paulo - é outra grande qualidade do filme, que conta com participações femininas da maior grandeza. É o caso não só de Marcélia e Helena, mas também de Débora Silva (integrante das Mães de Maio que foi premiada em Málaga como coadjuvante), Tuna Dwek, Mawusi Tulani e Anna Carolina Marinho. (Neusa Barbosa)
Cinesesc
28/10/22 - 21:00
28/10/22 - 21:00
Cinemateca - sala Grande Otelo
1/11/22 - 17:00
1/11/22 - 17:00
Circuito SPCine CEU Meninos
2/11/22 - 19:00
2/11/22 - 19:00
Circuito SPCine CEU Vila Atlântica
2/11/22 - 19:00
2/11/22 - 19:00
Circuito SPCine CEU Perus
2/11/22 - 19:00
2/11/22 - 19:00

O pastor e o guerrilheiro
Baseado nas memórias do ex-militante da luta armada Glênio Sá, o drama de José Eduardo Belmonte une dois tempos e duas pontas da realidade brasileira, entre o início dos anos 1970 e o final dos 1990, numa discussão que ressoa muito no presente - mérito do filme, que tem produção, direção e atuação empenhados.
O roteiro, assinado pela argentina Josefina Trotta, José Eduardo Belmonte e Nilson Rodrigues (também o produtor), avança adiante do livro de Sá - Relato de um Guerrilheiro - , introduzindo como fio condutor a personagem Juliana (Júlia Dalávia), uma jovem estudante universitária, filha de mãe solteira e falecida, que repentinamente tem notícias da morte do pai, que nunca conheceu e de quem receberá uma herança. Este era um coronel (Ricardo Gelli) que, como a filha descobrirá, foi um torturador durante a ditadura militar de 1964.
Uma complexidade da narrativa é lidar com estes dois tempos que se contrapõem, o de meados dos anos 1970, quando o jovem João (Johnny Massaro) deixa a Universidade de Brasília para juntar-se à guerrilha rural no Araguaia - o que Juliana acompanha por um livro encontrado na casa do pai morto - e o ano de 1999, presente de Juliana, iminência de um novo milênio que projetava planos de futuro.
No centro das memórias de João, Juliana descobre sua amizade, na prisão, com Zaqueu (César Mello) - um jovem evangélico preso por engano e que compartilha todo o calvário do guerrilheiro, barbaramente torturado e resistindo a entregar as informações de seu grupo. Alguns dos momentos mais bonitos do filme estão nesta conversa entre os dois prisioneiros, que têm uma fé diferente, um em Deus, outro na revolução, mas que humanamente se encontram e são capazes de empatia - nada mais urgente do que isto no Brasil de 2022. (Neusa Barbosa)
Espaço Itaú de Cinema - Augusta sala 1
28/10/22 - 21:10
28/10/22 - 21:10
Espaço Itaú de Cinema - Augusta anexo 4
01/11/22 - 16:30
01/11/22 - 16:30

Tinnitus
Vencedor de três prêmios técnicos no mais recente Festival de Gramado, o drama paulista é o segundo longa do diretor e foi desenvolvido dentro do programa de residência do Cinéfondation de Cannes. Trata-se de um trabalho extremamente sofisticado, especialmente do ponto de vista visual, como demonstram as premiadas fotografia do português Rui Poças, montagem de Eduardo Serrano e direção de arte de Carol Ozzi.
Esta consistência técnica não se reproduz na mesma medida no roteiro, que não desenvolve satisfatoriamente o drama de Marina (a atriz portuguesa Joana de Verona), uma nadadora de saltos ornamentais forçada a abandonar o esporte devido a um distúrbio auditivo - a que se refere o enigmático título do filme.
Ao retratar as incertezas de sua protagonista e o ambiente competitivo das piscinas, o filme não consegue livrar-se de uma certa frieza, que dificulta a identificação com as personagens. (Neusa Barbosa)
Reserva Cultural - sala 1
28/10/22 - 19:20
28/10/22 - 19:20
Instituto Moreira Salles - Paulista
01/11/22 - 18:10
01/11/22 - 18:10

Aldeotas
Gero Camilo estreia na direção de longas com este filme que parte de sua peça homônima, inicialmente encenada em 2004. Para a versão cinematográfica, ele traz novamente à cena seu colega da primeira montagem, Marat Descartes. Filmado num galpão, o longa é uma espécie de experiência complementar da peça, remetendo ao teatro, mas também com elementos cinematográficos.
Camilo interpreta Levi, aspirante a poeta, enquanto seu amigo Elias (Descartes) quer ser crítico literário. Eles têm 17 anos e compartilham o sonho de abandonar a pequena cidade do interior onde moram, um lugar opressivo e conservador.
Como diretor, Camilo investe na magia do texto, transitando entre o realismo e a fantasia, usando o galpão como um grande palco onde se dá a ação. É especialmente bonita a fotografia de Marcelo Trotta, que faz um jogo de luz e movimento de câmera, trazendo dinamismo à encenação.
Conhecedores do texto e dos personagens de longa data, os dois atores dominam a cena em interpretações que nunca estão díspares ou em disputa. O equilíbrio entre eles traz a força ao filme que, embora modesto em sua encenação, é repleto de coração. (Alysson Oliveira)
Cinemateca – Sala Grande Otelo -
28/10/22 - 21:30
28/10/22 - 21:30
De Humani Corporis Fabrica
Os documentaristas Lucien Castaing-Taylor e Verena Paravel são conhecidos pelos seus filmes intensos – como Caniba, sobre um canibal japonês e sua relação com seu irmão. Em De humani corporis fabrica, eles voltam suas câmeras para dois interiores: o primeiro, o de um hospital em Paris, e também para dentro do corpo humano, acompanhando procedimentos médicos.
Talvez seja desnecessário dizer,
mas sempre é bom avisar: esse é um filme forte, com entranhas, sangue e outros fluidos corporais. Porém, não é um documentário sensacionalista ou com imagens gratuitas. Captadas com microcâmeras usadas pelos médicos em procedimentos invasivos, essas cenas são impressionantes na capacidade que Castaing-Taylor e Paravel têm de encontrar poesia nas entranhas humanas.
mas sempre é bom avisar: esse é um filme forte, com entranhas, sangue e outros fluidos corporais. Porém, não é um documentário sensacionalista ou com imagens gratuitas. Captadas com microcâmeras usadas pelos médicos em procedimentos invasivos, essas cenas são impressionantes na capacidade que Castaing-Taylor e Paravel têm de encontrar poesia nas entranhas humanas.
A dialética que eles estabelecem é entre o hospital – sobrecarregado, com poucos funcionários, equipamentos e materiais – e o inevitável envelhecimento do corpo humano. Se por um lado De humani corporis fabrica nos avisa de que a todo segundo morremos um pouco, ao final também lembra que o corpo é nossa fonte de prazer – especialmente físico.
De uma cesariana de emergência a uma cirurgia de próstata na qual o médico se desespera – chegando a dizer “Não é minha área, eu nem devia ter começado isso” – a dança da vida e da morte está em cada momento. É particularmente doloroso, no entanto, uma cena em que uma enfermeira fala sobre as dificuldades do hospital e enfrentadas por alguns pacientes, como um rapaz de 22 anos com um câncer intratável: “Não sou religiosa, mas isso só pode ser carma”.
Outro momento impressionante do filme remete ao clássico do cinema Um cão andaluz, com uma cirurgia ocular. A beleza da máquina do corpo humano é vista aqui, no entanto, quase como um sonho, um delírio, fugindo do mero grotesco. Sem muito contexto das cirurgias, às vezes cabe a nós tentar decifrar qual parte do corpo está na tela. Parece um esôfago, mas é um pênis, descobrimos num momento, por exemplo.
De humani corporis fabrica toma seu título de um atlas fisiológico do século XVI, de Andreas Vesalius, que é considerado um dos livros científicos mais influentes da história. Era um momento de grandes avanços e descobertas científicas que repercutem até hoje. Para quem não é médico, enfermeiro ou afins, o documentário é também uma fonte de descoberta e maravilhamento, potente em belas imagens e impressionante em sua percepção da fragilidade humana. (Alysson Oliveira)
MIS - Museu da Imagem e do som -
28/10/22 - 19:30
28/10/22 - 19:30
Cine Marquise sala 2 –
31/10/22 - 18:30
31/10/22 - 18:30
Reserva Cultural – sala 1-
1/11/22 - 14:00
1/11/22 - 14:00
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