Um giro pelo cinema de três continentes
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 27/10/2022
- Tempo de leitura 14 minutos
Sem Ursos
A cadeira vazia reservada para o cineasta iraniano Jafar Panahi na sala de coletivas de imprensa do Festival de Veneza 2022 foi a mais eloquente demonstração da presença fantasma deste premiado diretor, que há 11 anos vem sendo perseguido judicialmente em seu país. Neste momento, ele se encontra inclusive na prisão, o que não foi, mais uma vez, obstáculo a que um filme seu, Sem Ursos, tenha sido selecionado num festival internacional, recebendo o Prêmio Especial do Júri.
Panahi, que já venceu um Leão de Ouro em Veneza em 2000 por O Círculo, mais uma vez é personagem de seu filme, que sobrepõe narrativas ao mesclar os acontecimentos que o envolvem numa cidadezinha na fronteira turca e as turbulências de um filme sendo realizado dentro do filme - que Jafar dirige remotamente, com o auxílio no set de seu filho, Reza, outro personagem da história, e que aborda o romance complicado de um casal que tenta fugir do país.
Deste entrelaçamento das fronteiras entre ficção e realidade, Panahi constroi seu questionamento das contradições mais profundas de seu país, como a persistência da superstição baseada em costumes ancestrais - em que o patriarcalismo sempre exerce um peso formidável - e o autoritarismo estatal, manifestado por uma polícia vigilante sobre as pessoas mas inerte frente ao contrabando e outros crimes bem mais reais do que as divergências de opinião.
Mesmo sofrendo pessoalmente uma perseguição constante por todos estes anos, o cineasta iraniano mantém intacta sua veemência e paixão pelo cinema e tira o máximo proveito de suas restritas condições de produção. Falando de sua aldeia, ele fala do mundo. E o último plano de Sem Ursos torna-se, com sua absurda prisão, um grito inconformado pela liberdade. Como imaginar que este homem tão sensível, talentoso e valente possa estar, neste momento, atrás das grades, condenado a seis anos de cadeia por vagas acusações conspiratórias contra o Estado teocrático em que vive? (Neusa Barbosa)
Espaço Itaú de Cinema - Augusta sala 1
27/10/22 - 19:00
27/10/22 - 19:00
Cine Marquise sala 1
29/10/22 - 15:40
29/10/22 - 15:40
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 2
30/10/22 - 16:10
30/10/22 - 16:10
Reserva Cultural - sala 1
2/11/22 - 14:00
2/11/22 - 14:00
O Filme da Escritora
Conjugando, mais uma vez, seu minimalismo enganador, que encobre sua sofisticação com uma aparente simplicidade, o cineasta sul-coreano Hong Sang-soo recorreu ao preto-e-branco - na maior parte do tempo - para construir seu relato neste filme, que lhe garantiu o terceiro Urso do Prata consecutivo no Festival de Berlim, pelo Grande Prêmio do Júri (suas duas premiações anteriores com o Urso de Prata foram em 2020, com A Mulher que Fugiu, e 2021, com Introduction).
Sang-soo reflete sobre a natureza do próprio cinema ao acompanhar os incidentes e encontros fortuitos de uma romancista, Junhee, que num determinado momento resolve que quer fazer um filme com uma atriz famosa que acabou de conhecer, Killsoo (Kim Min-hee, a musa do diretor, que atua em praticamente todos os seus filmes).
Com uma câmera, como de hábito, bastante parada nos personagens, o filme evolui por suas palavras, que instigam a imaginação do espectador a procurar decifrar quem são aquelas pessoas, o que pretendem e que jogo o próprio diretor está jogando com sua história. Aparentemente despretensiosa, a narrativa deixa escapar pequenos “descuidos” técnicos, como uma luz estourada, o som do vento que invade os microfones numa cena externa, sugerindo que o cinema, como a vida, é imperfeito e cheio de acasos. Mais uma pequena joia deste diretor tão instigante. (Neusa Barbosa)
Os irmãos de Leila
O melodrama do jovem diretor Saeed Roustaee, 32 anos, apresenta um panorama turbulento e dolorido não só de uma família como de um país abalado por desemprego e dificuldades econômicas e sociais profundas - além de uma aguda discussão dos papeis de gênero, a começar pelo título, que destaca a importância da personagem Leila (Taraneh Alidoosti, de Procurando Elly).
Irmã mais velha numa família que tem outros quatro filhos, ela tem cerca de 40 anos e não se casou. Ela é o centro deste clã, em que o pai, Esmail (Saeed Poursamimi), de 80 anos, exerce uma influência não raro perniciosa, com seus preconceitos e chantagens emocionais.
Os irmãos, todos adultos, gravitam em torno dos pais, especialmente em função da crítica situação econômica do país, especialmente depois que o governo Donald Trump voltou atrás no acordo nuclear do país - uma crítica que aparece diretamente no filme.
O foco, no entanto, está nestas relações disfuncionais dentro da família, deflagradas por uma situação envolvendo o desejo de Esmail de tornar-se o novo patriarca dentro de sua comunidade e o sonho dos irmãos de comprarem uma loja, dando a todos uma perspectiva de independência de todo o atavismo a que estão subordinados pelo desemprego.
Leila é a mulher sólida que decifra as artimanhas do pai para manter o controle sobre os filhos e também aquela que o enfrenta mais diretamente, tornando-se uma personagem marcante dentro do cinema iraniano. Mas o filme revela muitas outras camadas do país, com diversos tipos de especulação, exploração de operários, precariedade nas relações trabalhistas e muito mais. É um trabalho ambicioso e de fôlego, ainda não totalmente maduro em alguns aspectos, mas certamente promissor.
A sequência final é de uma beleza cinematográfica marcante, destacando a fotografia assinada por Hooman Behmanesh. (Neusa Barbosa)
Cine Marquise - sala 1
27/10/22 - 16:10
27/10/22 - 16:10
Cinemateca - Sala Grande Otelo
29/10/22 - 20:00
29/10/22 - 20:00
Paloma
Entre os feitos do novo longa de Marcelo Gomes, está ser protagonizado pela primeira atriz transexual premiada no Festival do Rio na categoria. Kika Sena interpreta a personagem-título, uma mulher trans que trabalha como agricultora no sertão de Pernambuco. O longa ainda levou os prêmios de melhor filme e também o Félix, concedido a longas com temática LGBTQIA+.
Gomes conta que a ideia para o filme veio de uma notícia de jornal: uma mulher trans que sonhava em casar de véu e grinalda numa igreja católica. Partindo disso, o diretor, que assina o roteiro com Armando Praça e Gustavo Campos, imagina a vida dessa mulher.
Paloma vive com o namorado Zé (Ridson Reis), e juntos criam uma menina de 7 anos, Jenifer (Anita de Souza Macedo). A vida é relativamente tranquila, mas a protagonista tem esse sonho, que não é aceito pelo padre local. Nesse sentido, mais do que revelar o conservadorismo da cidade, para ela se trata também uma nova jornada pessoal de empoderamento.
Gomes dirige com o realismo que lhe é comum em filmes, como Cinema, Aspirinas e Urubus e Era uma vez Verônica. Paloma é um filme de estudo de personagem, em sua trajetória pessoal reveladora de si mesma. A fotografia assinada por Pierre de Kerchove (Joaquim), é naturalista, ressaltando tanto a paisagem natural, como também a delicadeza e força do corpo de Paloma.
Esse é também um filme que abertamente dialoga com o presente conservador e reacionário do Brasil. Paloma é uma mulher que desafia a sociedade em vários níveis. Primeiro, ao tomar seu corpo para si e lutar contra a opressão e pela vontade de realizar seu grande sonho. O filme encontra em Sena uma grande atriz para um papel complexo e delicado, que, muito provavelmente, conhece em si e em sua história muito do que Paloma enfrenta. Sua interpretação é terna e forte ao mesmo tempo. E, com ela, nasce uma estrela. (Alysson Oliveira)
Cine Marquise sala 2 - 27/10/22 - 17:00
A Linha
Dirigido pela franco-alemã Ursula Meier, este drama eventualmente histérico pontua o relacionamento extremado entre uma mãe, a ex-cantora e pianista Christina (Valeria Bruni Tedeschi) e suas três filhas, Margaret (Stéphanie Blanchoud), Louise (India Hair) e a caçula, Marion (Elli Spagnolo, um encanto).
O filme já começa em voltagem extrema, com Margaret e a mãe brigando, o que termina com muitos objetos quebrados e a mãe ferida. O incidente violento, que não é o primeiro causado por Margaret, acarreta-lhe uma medida de restrição de contato - ela não pode chegar mais perto do que a 100 metros da mãe, a linha de que fala o título.
Diretora de filmes como Minha Irmã (2021), Ursula coloca nas mãos de suas personagens uma história visceral de dependência, afeto, cobranças, culpas e o desejo da caçula, Marion, de tudo consertar com suas orações - um esforço não raro comovente, dadas as circunstâncias.
O roteiro, assinado pela diretora, a atriz Stéphanie Blanchoud - que defende o papel mais difícil de todos - e Antoine Jaccoud põe em marcha o retrato de uma família alquebrada, fragmentada, em que a busca de amor de cada um dos integrantes se dá por vias tortas. Margaret procura amor e aceitação da mãe, que por sua vez encontra mais satisfação nos inúmeros namorados do que na maternidade, O oposto disso é a filha do meio, Louise, grávida de gêmeos e a mais ligada à domesticidade. Os homens entram nesse mundo como coadjuvantes, com destaque para Benjamin Biolay, o amigo que tenta segurar as pontas de Margaret no auge de sua crise pessoal.
As protagonistas desfiam os caminhos de uma feminilidade em crise, exasperada mas que não perde a esperança na sororidade, ainda que difícil. (Neusa Barbosa)
Cinemateca - Sala Grande Otelo
27/10/22 - 17:30
27/10/22 - 17:30
Reserva Cultural - sala 1
30/10/22 - 15:50
30/10/22 - 15:50
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 2
1/11/22 - 21:00
1/11/22 - 21:00
Blanquita
Vencedor do prêmio de melhor roteiro na mostra Horizontes do mais recente Festival de Veneza, este que é o terceiro longa do diretor chileno Fernando Guzzoni traz à tona um tema potente, a exploração sexual de menores.
Abrigada numa instituição de proteção para jovens, Blanca (Laura López), torna-se a testemunha-chave na denúncia de uma rede de prostituição infantil a serviço de um poderoso empresário e também de um senador. Ela tem o apoio do diretor da instituição, padre Manuel (Alejandro Goic), um homem rígido mas também extremamente dedicado aos seus meninos, que carregam histórias de vida verdadeiramente tristes e chocantes.
Guzzoni desenvolve a história como um thriller, ao qual não falta o elemento da dubiedade. O rosto impassível de Blanquita esconde uma força extraordinária, mas também objetivos ocultos, dos quais não está também isento o padre. Estas agendas pessoais, num caso de extrema repercussão na imprensa, vão sendo esclarecidas aos poucos, permitindo aos espectadores explorarem também seus sentimentos diante do que vão descobrindo.
A preocupação ética impregna cada detalhe deste drama sólido, que tem seu coração ao lado dos deserdados do modelo econômico e político chileno, mas não se furta de compor seus protagonistas com nuances e complexidade que apenas enriquecem a trama, especialmente quando se começa a especular suas verdadeiras razões.
O clima de medo e ameaças a Blanquita e ao padre, assim como o desvendamento dos inúmeros interesses políticos e até eclesiásticos afetados pelo processo, são devidamente retratados num filme com ambição maior do que ser apenas a história destas duas pessoas. O enredo, aliás, inspira-se num escândalo real, o caso Spiniak, que abalou o Chile poucos anos atrás. (Neusa Barbosa)
Cinesesc
27/10/22 - 15:40
27/10/22 - 15:40
Reserva Cultural - sala 1
29/10/22 - 21:10
29/10/22 - 21:10
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 1
1/11/22 - 16:50
1/11/22 - 16:50
O Teto Amarelo
Conhecida por filmes como A Vida Secreta das Palavras e Minha Vida sem Mim, a diretora catalã Isabel Coixet denuncia, neste documentário, um assombroso caso de abuso sexual que se desenrolou ao longo de pelo menos duas décadas, na Aula de Teatro de Lleida.
Um dos orgulhos da cidade catalã, a escola municipal de teatro acolheu várias gerações de adolescentes. Mas algo mais se passava entre suas paredes sob a administração do professor e diretor Antonio Gómez, que dirigiu a instituição entre 2009 e 2017. Ele foi denunciado por nove ex-alunas de tê-las assediado e seduzido, entre 2001 e 2008, quando todas elas eram menores de idade.
Se a denúncia destas mulheres, hoje adultas, repercutiu imensamente na imprensa espanhola, ela não chegou a uma punição judicial, porque o prazo para isto estava prescrito por ocasião da denúncia.
Entrevistadas no filme, estas mulheres dão detalhes assombrosos de sua convivência com o professor, que cultivava uma enorme intimidade física com seus alunos, participava de seus exercícios corporais, entrava no vestiário quando se trocavam, levava algumas das alunas para sua própria casa e viajava com os grupos, quando havia apresentações teatrais em outras cidades e outros países. Tudo isto, segundo as entrevistadas, lhe dava oportunidade de convencê-las de que toda uma rotina altamente sexualizada era normal, que fazia parte da própria atividade teatral. Como elas contam, levaram alguns anos para amadurecer e entender que se tratava, na realidade, de um abuso por parte de um homem que tinha cerca do dobro da idade delas. São relatos dilacerantes.
Talvez o detalhe mais preocupante nisso tudo é que, além de não ter havido punição para o professor, saber que ele se mudou para o Brasil há cerca de três anos, quando deixou Lleida depois de receber uma alta indenização trabalhista. As últimas notícias dão conta de que ele teria se estabelecido na cidade de Goiânia. (Neusa Barbosa)
Reserva Cultural - sala 1
27/10/22 - 16:10
27/10/22 - 16:10
Espaço Itaú de Cinema - Augusta sala 1
30/10/22 - 21:40
30/10/22 - 21:40
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