05/06/2026

Memórias do Estado Islâmico e relatos de afeto no Brasil e na Europa


A Noiva
Entre 2012 e 2013, o cineasta português Sérgio Tréfaut fez uma viagem ao Iraque para fazer um documentário sobre a presença norte-americana no país. “Havia a ideia de que eles estavam levando a democracia para o país, mas era visível que estava acontecendo o contrário”, diz em entrevista ao Cineweb, direto do Rio de Janeiro, onde mora. Dessa experiência, nasceu o longa A Noiva, que, depois de exibido no Festival de Veneza em sessões especiais, faz parte da seleção da Mostra.

Esse projeto no entanto, explica o cineasta, deixou de fazer sentido quando o Estado Islâmico se criou e tudo se transformou. A cidade de Mossul, que ele havia conhecido, não era mais a mesma, tornando-se a capital desse Estado. Nessas condições, surgiu a ideia para um filme sobre jovens de Lisboa que abandonam tudo para se juntar ao Daesh (ISIS), para tornar-se uma noiva da Jihad.

“Comecei a escrever um argumento baseado numa história real, que ficou bastante conhecida em Portugal, sobre uma luso-holandesa chamada Ângela Barreto, que se casou com Fabio Poças, um português que combatia no Estado Islâmico. O caminho que o filme tomava estava parecendo uma cinebiografia, e não era isso que eu queria”, explica.

Quando Mossul foi retomada pelos curdos e depois pelo exército iraquiano, surgiram as viúvas e os órfãos do Daesh. “Elas eram jovens de origem ocidental que fugiram de casa para casar-se com esses Rambos e guerrilheiros. Elas tinham vários filhos, depois se casavam novamente, pois não tinham outra alternativa, e ficavam viúvas de vários homens.”

Assim é a protagonista de A Noiva, interpretada pela estreante em cinema Joana Barreto. Depois de fugir de Portugal para casar-se com um guerrilheiro, anos depois, ela passa a morar num campo de prisioneiros e, grávida novamente, aguarda julgamento pelos tribunais do Iraque.

Tréfaut também tem uma carreira como documentarista, e conta que fez muitas pesquisas, leu reportagens para criar a personagem e as situações. E, em 2019, visitou o último campo de prisioneiros em Mossul. Ele tinha certa facilidade de se movimentar em países da região pois, em 2009, realizou A Cidade dos Mortos, um documentário sobre o cemitério islâmico El Arafa, no Cairo. “Foi uma grande imersão neste mundo.”

O cineasta explica que sua experiência como documentarista acaba influenciando em seu trabalho como diretor de ficção, mas “não tento fazer um realismo como os [irmãos belgas Luc e Jean-Pierre] Dardenne. A minha ficção não tem um formalismo que vem do documentário.”

Ele busca em seus filmes, na verdade, algo que classifica como a “exigência da verdade” e, por isso, filmou nos próprios campos de refugiados e contou com figurantes que eram refugiadas sírias, que “trazem no rosto aquelas histórias”. A escolha de Joana, uma atriz de teatro estreando no cinema, tem a ver com seu rosto angelical. Ela tinha 19 anos, mas aparentava 14, o que era perfeito para a personagem. “Ela conseguia transmitir a dualidade da protagonista, tanta inocência e mistério não podia ser respondida de maneira única”.

Tréfaut, que também assina o roteiro do longa, confessa que A Noiva é também uma reação de revolta ao jornalismo francês de 2017 e 2018, que condenava as pessoas sem nem mesmo conhecer suas histórias. “Minha personagem oferece ao espectador a possibilidade de estar ali, mas nunca me coloco ou coloco o filme na posição de juiz.” (Alysson Oliveira)

Espaço Itaú de Cinema Augusta Anexo 4 - 25/10/22 - 18:15
Instituto Moreira Salles – Paulista -






27/10/22 - 18:10



A Filha do Palhaço
Reiterando uma tendência no cinema brasileiro mais recente, o longa A Filha do Palhaço, de Pedro Diógenes, sintoniza a nota do afeto. O tema central é a retomada do relacionamento entre um pai, Renato (Démick Lopes, prêmio de melhor ator no Cine Ceará) e a filha adolescente, Joana (Lis Sutter), que cresceu longe dele depois da separação dos pais.

Por conta dessa distância, ambos não se conhecem. O filme é o relato dessa aproximação difícil, sutil, marcada por equívocos mas também por momentos de descoberta, humor e trocas mútuas, que têm um sabor de naturalidade a partir de uma direção que enfatiza as interpretações sutis.

Outro elemento na composição do roteiro aborda a peculiar cena de humor cearense, a partir da inspiração na popular personagem Raimundinha, interpretada pelo primo do diretor Pedro Diógenes, Paulo Diógenes. No filme, Renato vive de shows em restaurantes e churrascarias com sua personagem Silvanelly, que ele faz
travestido de mulher.

Este desejo de se inspirar nestes temas levou Diógenes, diretor ligado ao grupo Alumbramento, conhecido por um cinema mais experimental, a um novo rumo. “Este é meu oitavo longa mas a sensação é de que é um primeiro filme, porque foi minha primeira vez neste terreno, assim como para várias pessoas da minha equipe”, comentou no debate do Cine Ceará o diretor de Inferninho (codirigido com Guto Parente em 2019), A estrada para Ithaca, Os Monstros e No Lugar Errado, estes três codirigidos com Parente e os irmãos Luiz e Ricardo Pretti.

O protagonista, Démick Lopes, por sua vez, recorreu à sua própria experiência como pai de duas filhas para compor um personagem muito rico em camadas, como ele mesmo diz, “sem nunca pretender julgá-lo”. Um ponto de vista feminino entrou através da participação no roteiro de duas mulheres, Amanda Pontes e Micheline Helena. Na coletiva, Amanda destacou que as duas “ofereceram outros pontos de vista, também pela intenção de não romantizar a figura do pai”, compondo com maior complexidade a figura da mãe (Ana Luiza Rios).

Indagado sobre esse diálogo de afeto de seu filme com a temática de Marte Um, de Gabriel Martins - representante do Brasil a uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro -, Diógenes comentou: “Acho que também é uma questão geracional estarmos indo pelo mesmo caminho. Mas para mim era mesmo uma questão de me aproximar de algo novo para mim”. (Neusa Barbosa)

Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 2
25/10/22 - 20:30
Cineclube Cortina


















26/10/22 - 19:00


A criança
É com um rigor formal impressionante que a dupla francesa Marguerite de Hillerin e Félix Dutilloy-Liégeois estreia na direção de longas com a produção portuguesa A Criança. Partindo do conto O órfão, do alemão Heinrich von Kleist, os cineastas realizam um filme de época marcado por traições e jogos de poder na esfera familiar.

A criança do título já não é mais uma criança, mas o adolescente Bela (João Arrais), filho adotivo de um casal de aristocratas franco-portugueses. A trama se passa no interior de Portugal do século XVI, quando o conservadorismo religioso é uma força marcante na vida das pessoas. Hillerin e Dutilloy-Liégeois, que também assinam o roteiro, evitam cair em didatismos fáceis e mostram a situação histórica por meio de ações, como o constante medo da Inquisição.

O pai do rapaz, Pierre (Grégory Gadebois), tem um caso com seu melhor amigo, Jacques (Loïc Corbery), enquanto a mãe, Maria (Maria João Pinho), é presa ao seu passado. É nessa estrutura marcada pela falsidade das aparências que Bela se moverá no mundo, passando à vida adulta, mas marcado pela dubiedade – a começar pelo nome feminino que remete à sua beleza, apesar de ele ser um homem cisgênero e hétero.

Desses estranhamentos, e da esmerada fotografia do veterano Mario Barroso (Os Canibais, clássico de Manoel de Oliveira), nasce o lusco-fusco moral onde se dá a narrativa do filme. As aparências, que enganam, são o guia para Bela nesse mundo aristocrata e religiosamente moralista. O formalismo bem trabalhado, mas nada exagerado, dos diretores é a transposição estética dessa sociedade bela, mas que esconde no estábulo suas relações ditas pecaminosas. (Alysson Oliveira)

Cineclube Cortina - 25/10/22 - 21:00
Cine Marquise Sala 2 - 26/10/22 - 18:40
Espaço Itaú de Cinema Augusta – Anexo 4 - 28/10/22 - 14:00



La Parle
Três jovens cineastas franceses e uma brasileira se conheceram numa residência artística promovida pelo cineasta francês Claude Lelouch. É daí que nasce a produção franco-brasileira La Parle, dirigida, escrita e protagonizada pelo quarteto, que parte de suas próprias experiências para construir as situações e personagens do filme, inteiramente filmado com celular.

No longa, realizado em três momentos entre 2018 e 2020, Fanny Boldini, Kevin Vanstaen e Simon Boulier juntam-se à brasileira Gabriela Boeri para passar as férias na costa basca da França. O lugar é conhecido como La Parle, uma onda gigante que, segundo a tradição local, mexe com os sentimentos e traz resoluções.

Cada personagem tem seus dilemas e angústias, mas se destacam Gabriela, com suas saudades do Brasil – as ligações para a avó são particularmente bonitas – e Fanny, que precisa fazer um exame médico bastante sério, cujo diagnóstico mudará sua vida, mas fica adiando por medo de estar doente. Possivelmente por conta das situações que enfrentam, essas são as personagens mais bem trabalhadas e com quem criamos alguns laços.

La Parle é um filme feito com energia e momentos de sagacidade por um grupo de jovens cineastas que não apenas estão descobrindo seus lugares no mundo como profissionais, como também como pessoas. O fato de que o longa captura isso de forma natural, despojado de artifícios estéticos ou narrativos, é sua grande qualidade. (Alysson Oliveira)

Cinemateca – Sala Grande Otelo - 25/10/22 - 19:00
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 2 -
26/10/22 - 16:00


Alcarràs
Diretora do sensível Verão 1993, a jovem cineasta catalã Carla Simón, 36 anos, encantou Berlim com este drama original, que venceu merecidamente o Urso de Ouro 2022. Trata-se da crônica visceral da vida de uma família de agricultores ameaçada pela disposição dos proprietários da terra de mudar radicalmente o seu uso. A família, que há duas gerações planta frutas ali, não tem o título da propriedade - décadas atrás, valia a palavra que hoje a geração atual não respeita mais, para angústia do patriarca, Rogelio (Josep Abad).

Com uma câmera sempre muito próxima da pele de seus personagens - trabalho de Daniela Cajías -, o filme situa o drama de Quimet (Jordi Pujol Dolcet), sua mulher, Dolors (Anna Otin), seus filhos e outros parentes, de uma forma muito urgente, alternando os olhares, os pontos de vista. Assim, coloca em foco a ameaça não só a uma família, mas a um modo de vida, dentro de uma perspectiva inclusive ambiental, de uma forma muito inteligente e intimista ao mesmo tempo.

O tema do filme é caro à diretora que, como lembrou no seu discurso de agradecimento em Berlim, vem de uma família de plantadores de pêssegos naquela região catalã. O elenco, aliás, é todo amador, atuando num filme pela primeira vez e com uma naturalidade que se aproxima do documental, já que estão interpretando situações próximas à sua própria vida. (Neusa Barbosa)

Cinesesc





























25/10/22 - 16:40
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 2




31/10/22 – 20:45


Marcha sobre Roma
Abriu a seção paralela Giornate degli Autori, em Veneza 2022, como um dos Eventos Especiais, o documentário Marcha sobre Roma, do cineasta irlandês Mark Cousins. Contando com a assessoria do pesquisador italiano Tony Saccucci, Cousins mergulha nos bastidores de A Noi, de Umberto Paradisi (1922), expondo a manipulação de imagens daquele filme, que foi ferramenta essencial à transformação da tristemente famosa Marcha sobre Roma de 1922 no rastilho inicial do fascismo de Benito Mussolini.

Mas não é somente disso que Cousins quer falar. A ambição desta obra magnífica é justamente expor os mecanismos pelos quais o fascismo se reinventa e se repete em outras épocas e lugares, como a nossa - e não é nenhum acaso que o filme comece com uma imagem de Donald Trump, respondendo a perguntas sobre suas razões de ter citado uma frase de Mussolini em seu twitter, frase essa repetida em outra ocasião pelo presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, mencionado no filme, assim como Marine Le Pen e Giorgia Meloni, do partido ultradireitista Fratelli di Itália – vencedor das recentes eleições legislativas na Itália.

Profundo conhecedor da história do cinema, como demonstrou em alentados documentários como The Story of Film: A New Generation (2021), exibido no Festival É Tudo Verdade, Cousins também menciona, na porção final, alguns dos títulos mais sublimes que foram realizados na mesma época em que A Noi, obras de Charles Chaplin r Carl Theodor Dreyer, entre outros.

Cousins demonstra, mais uma vez, o quanto é capaz de estabelecer um diálogo criativo e emotivo com sua plateia, inserindo uma participação da atriz italiana Alba Rohrwacher, representando uma mulher comum da época do fascismo italiano que se viu desiludida e perseguida à medida que foi deixando de apoiá-lo. Nunca será demais lembrar, como o faz Marcha sobre Roma, o quanto a violência representa a natureza profunda do fascismo, onde quer que ele se manifeste. Um filme, enfim, profundamente significativo para os brasileiros neste momento. (Neusa Barbosa)

Cinemateca – Sala Grande Otelo








26/10/22 - 17:00
Cine Marquise - sala 2
















29/10/22 - 19:15