O cineasta Wolney Oliveira, diretor do Festival, mostrou ser um grande defensor da idéia do ministro. “Mais de 85% da captação fica concentrada no Rio e São Paulo”, disse durante a apresentação do evento, e foi aplaudido pela platéia composta principalmente por profissionais da indústria cinematográfica que vieram apresentar seus filmes e jovens cearenses.
No entanto, o clima político da abertura ficou mais evidente com a premiação do senador Saturnino Braga (PT-RJ), homenageado com um troféu. Apesar de visivelmente agradecido pela homenagem, o político disse reconhecer que este ‘troféu é mais pela intenção de ajudar do que pelos resultados obtidos’. Mas afirmou que esperar apresentar resultados e, novamente, trouxe à tona a pauta polêmica. “Sou do Rio, mas sou a favor da descentralização proposta pelo governo Lula”, concluiu.
Brilhante e Diamante
Casualidade ou não, o filme de abertura foi Brilhante, dirigido por Conceição Senna, mulher do atual Secretário de Audiovisual, Orlando Senna, que promete comparecer ao festival. O longa é um documentário sobre Diamante Bruto, um filme de 77, dirigido por Orlando, e que chegou a ser premiado em Gramado, com um troféu para a protagonista Gilda.
As interessantes coincidências políticas não terminam aí. Diamante Bruto é protagonizado por José Wilker, o atual presidente da Riofilme, empresa distribuidora de Brilhante. O ator, aliás, dá um extenso depoimento sobre sua participação no longa.
Brilhante é, em sua essência, um filme de boa vontade, o que nem sempre dá bons resultados. O documentário de Conceição vale como um registro de um momento, de uma transformação – no caso, da cidade de Lençóis (na Chapada Diamantina), que se tornou ponto turístico e teve um discreto boom econômico após o lançamento do filme de 77.
Em todo o documentário é visível a forte relação entre os moradores de Lençóis e Diamante Bruto, mas acaba ficando vaga demais a importância do longa para a evolução econômica da cidade. Durante o debate realizado na manhã de sábado, Conceição afirma que o filme de seu marido teve uma acolhida discreta – apesar de premiado – o que acaba indo contra a tese de seu documentário de que Diamante Bruto alavancou turismo na cidade.
O que fica claro em Brilhante é que o foco do filme poderia ter sido outro: a jovem Gilda, filha de garimpeiros locais que nunca tinha atuado e acabou premiada. Como ela mesma conta em suas poucas falas em Brilhante, acabou sendo criticada no final dos anos 70, quando o filme foi exibido em Lençóis, por conta de sua personagem. Bugrinha é uma jovem passional, uma figura forte, que seduz o jovem interpretado por Wilker. Em uma cena em que seduz o outro, Gilda chega a exibir os seus seios, o que fez com que ela sofresse represália da sociedade local.
Mas a revanche da jovem veio depois, quando foi premiada em Gramado e apresentou Lençóis para todo o Brasil. Essa história interessante é pouco explorada no filme de Conceição, que nunca deixa claros os rumos que a carreira de Gilda tomaram. O que fica mais é claro é que a documentarista tinha um assunto interessante em mãos, mas ao voltar seu foco para outra abordagem produziu um filme irregular e muitas vezes redundante.
Exibido fora de competição, Brilhante teve uma acolhida morna pela platéia do belo Cine São Luiz, na capital de Ceará, que horas antes mostrara um grande entusiasmo quando se falava da descentralização dos investimentos no cinema nacional.
