Perfis de artista, jovens e colaboracionista nazista são atrações na programação
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 08/04/2025
- Tempo de leitura 8 minutos
A quarta-feira no Festival É Tudo Verdade é um dia de retratos densos, como do artista brasileiro Paulo Bruscky e do colaboracionista nazista holandês Jan Teunissen, além de um mergulho na dramática mas também vibrante realidade das escolas brasileiras, premiado em Berlim.
Filmes brasileiros
Bruscky: um autorretrato
Artista múltiplo, Paulo Bruscky é uma figura particular, transitando entre a poesia, as artes plásticas e sonoras, as experimentações com invencionices e muitas outras coisas. Tanto que no começo de Bruscky: um Autorretrato, uma narração com imagens antigas o chama de
um homem de 400 facetas. O número exagerado já dá o tom do bom humor do biografado num filme que, no seu caos calculado, tenta trazer para sua forma o seu personagem – e isso se revela um grande acerto.
O diretor Eryk Rocha começa que como tateando o terreno, acompanhando Bruscky em suas andanças pelas ruas de Recife. Uma ida a uma loja de antiguidades, uma paradinha para um café, um passeio no sebo, onde já faz um novo amigo, e em poucos minutos estão conversando como velhos conhecidos. A câmera acompanha-o e, quando alguém pergunta o que é aquilo, ele justifica simplesmente: “estão fazendo um filme sobre mim”.
Numa linguagem livre de amarras – o contrário certamente não faria sentido num filme sobre esse artista –, Eryk e seu filme mergulham em Bruscky dando a ele espaço para falar sobre o que quiser, como quiser, e onde quiser. Os cenários são inusitados, a casa dele, um cômodo onde ele trabalha, guarda as coisas que encontra e que um dia serão objeto de trabalho – ou não – e onde também está sua gaveta de ideias. E isso não é uma metáfora, ele realmente tem uma gaveta onde guarda anotações, ideias que poderão servir para algum projeto.
Um homem que confessa que até calado está falando, Bruscky mostra toda sua sagacidade e sensibilidade. Dono de uma fala tranquila, com pausas aqui e acolá, fazendo quebras inesperadas e retomando com assuntos que nem sempre estão conectados com o que havia antes, mas na sua mente brilhante tudo faz mais sentido do que para meros mortais.
O filme caminha no ritmo do biografado, até que chega em sua questão central: a relação entre arte e política em Bruscky. Ele fala sobre a resistência durante a ditadura, que fechou uma exposição solo dele em 1976. Conforme mostra o documentário, Bruscky é um homem do mundo, na medida em que o Brasil é o tema central de sua obra. (Alysson Oliveira)
São Paulo – CineSesc - 9/4/2025 às 20h30
São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo - 10/4/2025 às 17h00
Hora do Recreio
Ganhador de uma menção honrosa do Júri Jovem da Mostra Generation 14 plus do Festival de Berlim de 2025, o documentário Hora do Recreio, de Lucia Murat, investiga o Brasil contemporâneo por meio da visão de jovens periféricos do ensino médio e fundamental 2 de escolas públicas do Rio de Janeiro.
Com dispositivo quase parecido com o que Eduardo Coutinho usou em alguns filmes, a cineasta leva sua câmera para a sala de aula – não uma dessas escolas públicas, pois não foi autorizada pela Secretaria da Educação, o que não a impediu de colocar os jovens e as jovens num ambiente de escola, e, a partir de interações com uma professora, eles e elas falam sobre a realidade que vivem.
São histórias muito parecidas, mas marcadas pelas suas particularidades, que envolvem racismo, violência sistêmica e doméstica. São realidades até conhecidas, mas não deixa de ser tocante ouvi-las narradas em primeira pessoa por aqueles e aquelas que enfrentam isso na pele – às vezes, literalmente.
Essa primeira parte do filme talvez funcione melhor do que o meio, e depois o filme volte a crescer na reta final. Operações policiais e disputas entre traficantes impedem que a equipe vá a uma das escolas programadas. A diretora é avisada pouco antes das filmagens que, naquele dia, a escola está fechada. Lucia, então, conversa com a moradora de uma comunidade que mantém uma página no Instagram avisando as pessoas da região sobre tiroteios com o intuito de as proteger.
Na escola seguinte, jovens adolescentes fazem uma visita guiada ao centro do Rio de Janeiro, com direito a uma parada no Centro Cultural do Banco do Brasil que, com sua arquitetura imponente, parece ser feito para excluir pessoas periféricas, como se fosse um templo da cultura erudita para a classe média. E, por isso mesmo, a visita e a ocupação simbólica são importantes.
Nesses dois momentos, o filme parece um pouco perdido em sua narrativa, distancia-se da proposta. Embora traga informações e depoimentos interessantes, o filme começa tão lá em cima, que parece difícil manter o nível, que só é reencontrado na última parte, quando acompanha um grupo de jovens numa montagem teatral do romance Clara dos Anjos, de Lima Barreto, publicado em 1948.
A história de quase 70 anos da adolescente negra que é enganada por um homem branco mobiliza os alunos – em sua maioria negros e pardos – e mostra como a juventude contemporânea não aceita mais racismo e outras tentativas de rebaixamento. As jovens cheias de atitude provam que, se as coisas não mudaram por completo, estão mudando e as novas gerações não aceitarão caladas.
Nesse sentido, o filme prova, inclusive, a atualidade de Barreto, um escritor negro que, por muito tempo, não teve seu devido reconhecimento na literatura brasileira, mas que, nos últimos anos, tem sido resgatado, e sua obra, como vemos aqui, serve de gatilho para um mundo mais igualitário, justo e melhor. (Alysson Oliveira)
São Paulo – CineSesc - 9/4/2025 às 15h00
Rio de Janeiro- Estação NET Botafogo- 10/4/2025 às 18h30
Rio de Janeiro- Estação NET Botafogo - 13/4/2025 às 11h00
Filme estrangeiro
O Propagandista
Focalizando o personagem Jan Teunissen (1898-1975), um ativo colaboracionista nazista na Holanda durante a II Guerra, o documentarista Luuk Bouwman constrói um retrato de assustadora atualidade - dada o ressurgimento da ideologia nazista entre setores da extrema-direita, ativos em quase todos os países europeus e também na América Latina.
Filho único de um rico antiquário, Teunissen não conheceu jamais a necessidade econômica, ainda que seu pai tivesse morrido cedo. Sempre próspero, Teunissen apaixonou-se pelo cinema e chegou a realizar proezas como o primeiro filme sonoro holandês (The Barrel Organ, 1931). Já não teve o mesmo sucesso com a produção histórica William de Orange, cujo fracasso de público e crítica reduziram as suas oportunidades no campo da realização de filmes.
A II Guerra é que vai mudar tudo isso, em vários sentidos. Entre 1933 e 1934, vários artistas judeus alemães em fuga refugiam-se na Holanda e fazem cinema. Teunissen agarra a oportunidade para voltar ao cinema, trabalhando extensamente como montador e também como ator.
Em maio de 1940, a Holanda é invadida pelos nazistas. Teunissen não tem pruridos em procurar as novas autoridades. Ele se aproxima do líder nazista holandês Mussert e logo adere ao partido, tornando-se rapidamente o chefe de seu departamento de filmes, que produzia basicamente noticiários e propaganda em favor da nova ordem. Aderindo ao Partido Nazista Holandês e passando a integrar também a seção local da temida SS, ele ascende vertiginosamente, tornando-se “o czar do cinema” no país.
O documentário tem a sorte de contar com esplêndido material, particularmente uma entrevista de viva voz do próprio Teunissen em 1964, parte de um projeto de História Oral do pesquisador Rolf Schuursma. Nela, o personagem, entrevistado por um historiador muito informado e persistente, assume sem maiores pejos sua atuação no período da guerra.
O filme conta também com excelentes entrevistas, do próprio Schuursma e também do historiador de cinema Egbert Barten, que procurou entrevistar diversos cineastas que atuaram durante o período da guerra - a maioria deles, negando-se a tecer qualquer comentário, exceto Reinier Meijer, que inclusive trabalhou com Teunissen, que morreu em 1975.
De todo modo, o filme fornece um esplêndido retrato de personagem, além de trazer elementos para repensar os acontecimentos da guerra, além de permitir um reexame da quase total impunidade dos colaboracionistas holandeses. O próprio Teunissen, que correu o risco de ser condenado à morte, provavelmente escapou disso usando seus recursos financeiros, sendo julgado num tribunal fora de The Hague e condenado a não mais do que três anos e meio de prisão - apesar dos inúmeros filmes de propaganda antissemita e racista, de ter participado de pelo menos um raide para aprisionamento de vítimas e de ter elaborado listas de judeus. Seu banimento do cinema por 10 anos, outra parte de sua sentença, foi driblado trabalhando clandestinamente como montador para outras figuras que colaboraram com os nazistas e escaparam simplesmente ilesos, caso de Bob Kommer, dono de um estúdio na Holanda. (Neusa Barbosa)
Última sessão - São Paulo – IMS Paulista - 9/4/2025 às 18h00
