"Ritas" faz justiça à diversidade de Rita Lee
- Por Alysson Oliveira
- 03/04/2025
- Tempo de leitura 4 minutos
O primeiro acerto de Ritas é o seu título no plural. Já de cara, o filme de Oswaldo Santana explicita a pluralidade da artista, nascida na Vila Mariana (SP) e que ganhou o Brasil com sua voz doce, irreverência, sensibilidade e
inteligência. Como Rita Lee, o longa é um caos ordenado, transitando entre espaço e tempo para resgatar uma bela trajetória.
Montador experiente de documentários (Tropicália) e ficções (Bruna Surfistinha, Trinta), Santana domina a construção de uma narrativa marcada pela presença constante da artista. A riqueza dos depoimentos de arquivos e coisas que ela mesma gravava em casa com o celular dão um colorido muito particular ao filme, que conta seu caminho nos palcos, em casa, na vida.
Logo de início, o filme aborda o episódio envolvendo a banda Os Mutantes, do qual ela foi excluída em 1972, o que deixou, por um tempo, uma mágoa, como ela mesma confessa. Depois vieram a banda Tutti Frutti, entre 1973 e 1978, e a carreira solo, com diversas parcerias – em especial com o marido, Roberto de Carvalho –, e enormes sucessos: Mania de Você, Lança Perfume, Ovelha Negra, Flagra, Banho de Espuma, Desculpa o Auê. A lista é gigante.
São músicas alegres com versos marcantes: “pra pedir silêncio, eu berro, pra fazer barulho eu mesma faço”, “toda mulher é meio Leila Diniz”, “estou no colo da mãe natureza, e ela toma conta da minha cabeça”, “se Deus quiser um dia quero ser índio”, e “se a Deborah Kerr que o Gregory Peck”, um trocadilho genial.
É interessante perceber como, em sua carreira de quase seis década, Rita entrou no imaginário pop nacional – não poucas vezes fazendo parte da trilha de alguma telenovela. Do rock às músicas irreverentes, os experimentos com música eletrônica, a psicodelia, o new wave, a bossa nova. Novamente, é uma lista grande e que, por mais que transitasse entre gêneros, participasse ou criasse modas, ela sempre mantinha algo de bem particular seu – a começar pelo visual, que ficou mais marcante, com os cabelos ruivos e a franja.
Santana capta muito bem essa pluralidade – uma palavra tão em voga, e nem sempre muito bem empregada, mas aqui faz sentido – de Rita Lee. O filme não se furta em trazer polêmicas que a envolveram, como quando foi levada à delegacia depois de seu show de despedida, em 2012, em Aracaju, acusada de desacato à autoridade, por, do palco, questionar a presença da polícia na plateia, que revistava as pessoas em busca de drogas.
“Olha, se a polícia bater, eu vou falar para o Brasil inteiro, denuncio e processo. Isso é força brutal. Vocês não têm o direito de usar a força na ‘meninada’ que não está fazendo nada. Cadê o responsável? Eu quero falar, tenho o direito. Esse show é meu, não é de vocês”, disse no microfone.
Um dos momento mais bonitos e sinceros do filme é uma participação, em 1997, no programa de Hebe Camargo, de quem Rita era muito próxima. A cantora lançava a música Obrigado, não, e explicou que, por ter experimentado diversas drogas, e ter sobrevivido a elas, era a pessoa ideal para uma campanha antidrogas.
Na música Sampa, Caetano Veloso canta: “Ainda não havia para mim Rita Lee/A tua mais completa tradução”. São versos ambíguos, que sublinham a profunda ligação de Rita com São Paulo. Se o sentido pretendido é o de não haver “a completa tradução” da cantora, Caetano acerta, pois ela era tão complexa e repleta de nuances que será bastante difícil, ou talvez impossível, compreendê-la por completo – mas quem precisaria disso? Ainda assim, esse belo documentário joga uma luz e eterniza Rita Lee em imagens.
O longa está previsto para estrear nos cinemas em 22 de maio, dia de Santa Rita, que Rita Lee tomou como seu aniversário – embora nascida em 31 de dezembro. No ano passado, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou uma lei que institui 22 de maio como Dia de Rita Lee.
Sessões:
São Paulo – CineSesc – 03/04/2025 às 17h30
Rio de Janeiro – Estação NET Botafogo – 13/04/2025 às 20h30
Rio de Janeiro - Estação NET Rio - 13/04/2025 às 21h00
