05/06/2026

Belmonte extrai humor numa trama policial em “Assalto à Brasileira”

Brasília - Uma quase tragédia a um passo da farsa é o tom de Assalto à Brasileira, em que o veterano diretor José Eduardo Belmonte reconstitui, a partir de um roteiro de L.G. Bayão, um famoso assalto a banco ocorrido em Londrina, em 1987.

No título da competição principal que mais flerta com o apelo ao grande público, o ritmo transcorre como uma aventura cômica impregnada de comentários sociais. Um retrato na parede lembra que era o governo Sarney, uma época de hiperinflação e crise econômica ainda reflexo da ditadura recém-terminada - contexto que leva os populares que acompanhavam o assalto a torcer ostensivamente pelos assaltantes que, dentro da agência, negociavam uma saída para eles e as dezenas de reféns.

O aspecto cômico cresce à medida que fica claro o quanto estes assaltantes eram amadores. Depois de estourarem um quadro de luz, ficando sem telefones, Moreno (Christian Malheiros), Barba (Robson Nunes) e os outros cinco assaltantes passam a depender de um canal de negociações com o policial Fonseca (Paulo Miklos). Este se oferece na figura de Paulo (Murilo Benício), repórter veterano e recém-demitido que vinha receber sua rescisão e foi surpreendido na situação - em que ele enxerga a oportunidade de dar um furo de reportagem e retomar seu emprego.

Experiente em produções de alta adrenalina como Alemão (2014) e Carcereiros (2019), aqui Belmonte suaviza o tom, mantendo foco no retrato de ambiente, dentro e fora da agência bancária, de olho no tumulto à porta e na torcida que começa a se estabelecer pelos ladrões.

O fator de risco está do lado de fora, na polícia e na política. Fonseca comanda as negociações pressionado pelo secretário da segurança (Arnaldo Madeira) que espera que ele ganhe tempo e enrole os ladrões, o que certamente aumenta o risco de mortos e feridos.

Belmonte demonstra mão segura nesta direção, equilibrando os tons de tensão e comédia, contando com um elenco bastante eficaz, em que ainda se destaca a presença de Hugo Possolo - que interpreta o gerente do banco e foi o responsável pela preparação do elenco de apoio, que tem seus momentos de destaque. Mais saborosas ainda são as intervenções, no final, dos verdadeiros personagens desta situação, dando seus depoimentos sobre um evento policial que se tornou midiático e perdura na memória da cidade paranaense até hoje.

O filme deverá chegar às telas no primeiro semestre de 2026.

Curta

O único curta da noite, o alagoano Ajude os Menor, dos diretores Janderson e Lucas Litrento (conhecidos pelo ótimo curta Samuel Foi Trabalhar) acertou em cheio na criação de um clima de faroeste, com uma fotografia em Scope e preto-e-branco e
trilha de Paulo Gama. Na trama, ambientada num prédio em construção, o embate sutil se dá entre um grupo de peões, um engenheiro e o genro do patrão, semeando um conflito de classes que desemboca num delicioso rap final, de autoria do compositor alagoano Saci.