23/09/2026

Audiard agrada com melodrama "De Rouille et d'os"

Jacques Audiard entregou seu melodrama encharcado de romance difícil em De Rouille et D’Os, o segundo concorrente à Palma e o primeiro francês, numa sessão de imprensa superlotada, nesta manhã de quinta (17), o que é um sinal de que os jornalistas franceses também não o haviam assistido antes.
É a terceira vez que Audiard concorre ao prêmio máximo aqui, ele que já venceu um trofeu de roteiro em 1996 por Um Herói muito Discreto e um Grande Prêmio do Júri em 2009 por O Profeta – quando ele bateu na trave, perdendo depois do impacto de A Fita Branca, de Michael Haneke.
É cedo para dizer que chances o diretor francês de 60 anos tem de vencer agora. Mas é fato que ele maneja muito bem as cordas do melodrama, tingindo de emocionalidade francesa, ou seja, com toques de fúria e rispidez, o relato baseado em contos do escritor canadense Craig Davidson.

Ali (o ator belga Matthias Schoenaerts, de Bullhead) é um pai solteiro, que tirou o filho de 5 anos, Sam (Armand Verdure) da mãe drogada. A única coisa que ele sabe fazer na vida é lutar, dar pancada. Acha emprego como segurança, abrigo na casa da irmã (Corinne Masiero) e recomeça a vida.
Como segurança de uma boate, conhece uma cliente, Stéphanie (Marion Cotillard), que ele acaba levando para casa depois de uma agressão. Nada acontece por um tempo entre os dois. Depois, ela, que trabalha como treinadora de orcas num show aquático, sofre um terrível acidente e perde parte das duas pernas.

Se fosse um melodrama clássico, a história tomaria um rumo lacrimoso, ou excessivamente piedoso. Nada disso acontece. Ali e Stéphanie se reencontram e iniciam um relacionamento, levando consigo as próprias cicatrizes e contingências. Assim como o cenário que se insinua por trás dos dois, de uma Europa brutalizada pela espionagem de patrões contra empregados, assombrada pelo medo da recessão e do desemprego, ocultando sob a fachada de mundo civilizado circuitos de lutas e apostas ilegais.
Não é um mundo idealizado nem sereno este que Audiard se interessa em compor. Mas ele tem a mão segura para apropriar-se da história, roteirizada por ele mesmo e Thomas Bidegain, fazendo surgir na tela uma dupla romântica nada usual,mas plena de humanidade e contradições.

A dramaturgia dá conta de uma progressiva evolução dos dois personagens e que visa não só a aproximá-los a qualquer preço, como numa comédia romântica hollywoodiana normal. Há percursos que tanto Ali quanto Stéphanie têm que cumprir para simplesmente andarem pela vida e eles o fazem sem mágica descabida. Ao final, apesar de uma série de incidentes trágicos, eles se tornam mais críveis, mais humanos.

Os efeitos especiais, mostrando as pernas amputadas de Stéphanie, são perfeitos. E a câmera preferida de Audiard, colada na pele dos personagens, descobrindo detalhes inesperados, sintonizada em suas urgências, é servida à perfeição pela fotografia segura de Stéphane Fontaine.
Muito competente também a música do francês Alexandre Desplat, que no sábado (19) dará por aqui sua Leçon de Musique.