23/09/2026

Cannes 2012 dá a largada com romance adolescente de Wes Anderson

Cannes
Repetindo a dose do ano passado, a 65ª. edição do festival abriu as cortinas com filme norte-americano. Desta vez, com a nova comédia estilosa de Wes Anderson, Moonrise Kingdom (foto ao lado), que foi um agridoce começo também para a competição pela Palma de Ouro.
O universo de Anderson está todo contido neste novo filme, provavelmente o melhor da carreira do diretor de Os Excêntricos Tenembaums. É um filme de época, mais exatamente, 1965, numa isolada ilha da costa da Nova Inglaterra, dominada por um acampamento de escoteiros, na iminência de uma fortíssima tempestade.
Parece bizarro? Senão não seria um filme de Wes Anderson.
Depois de uma sólida apresentação deste ambiente, uma verdadeira bolha no tempo, finalmente se desenrola o fio condutor – a fuga de dois adolescentes de 12 anos, Suzy (Kara Hayward) e Sam (Jared Gilman). Um formidável elenco adulto comparece em torno deles: Bill Murray e Frances McDormand, no papel dos pais da menina; Edward Norton como o chefe do acampamento escoteiro; e Bruce Willis como o capitão de polícia local.
É uma empreitada de risco, mas, depois de um começo hesitante, começa a andar com as próprias pernas e se torna uma espécie de conto de fadas para adultos interpretada por crianças e que sintoniza os sentimentos de todas as idades. O admirável controle de composição do diretor – que aqui é corroteirista com Roman Coppola – está a serviço de uma história não só com corpo, mas também com alma, coração, humor, uma certa nostalgia e também reflexão sobre a vida.

Egito urgente
Já o segundo filme da competição, o concorrente egípcio Baad el Mawkeaa (foto ao lado), de Yousry Nasrallah, foi uma decepção. Revisitando em ficção personagens e situações relativas à recente revolução da praça Tahrir – que derrubou o governo do ditador Hosni Mubarak -, o diretor e corroteirista se perde numa estrutura dramatúrgica ineficiente, confusa e que tenta dar conta de mais assuntos do que pode controlar.
Estão no elenco os atores Bassem Samra e Nahed El Sebaï, vistos recentemente no drama Cairo 678, de Mohamed Diab.
Tanto Baad el Mawkeaa quanto Cairo 678 certamente lutam para expressar a emergência social, política e econômica do país, inserindo uma muito atenta discussão do papel das mulheres numa sociedade predominantemente muçulmana. Mas falta muito domínio da narrativa. No caso de Baad el Mawkeaa, um outro problema é a direção de atores, que gritam demais quase o tempo todo.

Diretores em documentário
Em compensação, dois documentários foram pontos altos na programação do primeiro dia de Cannes 2012. O primeiro deles, Woody Allen: A Documentary (foto ao lado), de Robert Weide, parte da seleção Cannes Classics.
Figurinha fácil em Cannes – que abriu seus trabalhos no ano passado com Meia-Noite em Paris -, Woody não veio desta vez, nem seu novo filme (Para Roma com Amor), mas esteve muito bem representado neste documentário, que consegue apresentar imagens raras do diretor, em seus tempos de stand up e também em inimagináveis participações na TV americana – numa delas, “falando”com um cachorro. Coisas de seu começo de carreira, quando seus produtores, Roland Joffe e Jack Rollins, entenderam que ele precisava de exposição e de superar uma enorme timidez.
Mas o melhor é o próprio Woody falando de seu trabalho, muito à vontade repassando alguns de seus melhores momentos (Annie Hall, Tiros na Broadway e o próprio Meia-Noite em Paris, seu maior sucesso, acumulando hoje cerca de US$ 107 milhões de bilheteria mundial, passando dos US$ 50 milhões nos EUA).
O diretor setentão e super-ativo olha para trás com a mesma humildade de sempre, repetindo que lhe falta dedicação para ser um grande artista – do que vários de seus fãs podem discordar. Também são ótimos depoimentos de sua irmã e produtora, Letty Aronson, o diretor Martin Scorsese e atores como Diane Keaton, John Cusack, Sean Penn e Scarlett Johansson.
A abordagem com serenidade do maior escândalo que sacudiu sua vida pessoal, a separação de Mia Farrow, é também uma das melhores partes deste documentário. Um detalhe que o aproxima de outro documentário exibido hoje fora de competição, Roman Polanski: A Film Memoir (foto abaixo), de Laurent Bouzereau.

Polanski de frente
O grande trunfo deste filme é captar Polanski bem à vontade, o que acontece porque seu interlocutor é um dos seus grandes amigos, Andrew Braunsberg, conversando com ele justamente no período em que cumpria um período de prisão domiciliar em seu chalé em Gstaad, Suíça, em 2009 – em seguida à sua prisão, em Zurique, ainda por conta de um velho mandado de prisão referente ao episódio envolvendo sexo com uma menor nos EUA, mais de 30 anos atrás.
Talvez por sentir-se fragilizado naquele momento e por ter diante de si alguém que o conhecia muito bem, Polanski fala de simplesmente tudo – da infância perturbada pelo nazismo na Polônia, que custou a vida de sua mãe, enviada grávida a um campo de concentração; do bárbaro assassinato de sua mulher, Sharon Tate, também no penúltimo mês de gravidez, pela gangue fanática de Charles Mason; e do próprio episódio que motivou sua prisão nos EUA, do qual fornece detalhes, sobre o qual se desculpa e também fornece detalhes, como a perseguição movida por um juiz, contrariando recomendações de peritos e outras instâncias.
Trata-se, enfim, de um retrato aberto. Pode-se gostar ou não do ser humano Polanski mas, pelo menos, aqui ele foi ouvido por inteiro. Também se evidencia seu vigoroso lado artístico. O diretor confessa que, quando morrer, o filme cujas latas gostaria de ter sobre o túmulo seria O Pianista – que tem cunho altamente autobiográfico e lhe deu a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de diretor há exatamente 10 anos atrás.