Dois últimos concorrentes em Cannes apostam na diversão
- Por Neusa Barbosa
- 26/05/2012
- Tempo de leitura 5 minutos
Cannes – Na reta final, sempre se espera uma surpresa, como foi, no ano passado, o novo filme do turco Nuri Bilge Ceylan, Once Upon a Time in Anatólia. Em 2012, não houve nada com o mesmo impacto, embora o último da fila na competição, a quinta produção norte-americana entre os 22 candidatos, tenha sido um bálsamo: o bem-divertido Mud, de Jeff Nichols.
O diretor de O Abrigo (lançado diretamente em DVD no Brasil) escreveu também o roteiro desta aventura ambientada no Mississipi, encharcada de um clima de Mark Twain, e piscando de leve um olho a Conta Comigo (86) – não só por tratar de um rito de passagem de adolescentes à vida adulta, como pela semelhança física de um dos protagonistas aqui, Jacob Lofland, com River Phoenix.
Jacob interpreta Neckbone, o melhor amigo de Ellis (Tye Sheridan, de A Árvore da Vida). Os dois garotos vivem perto do rio, ajudam os respectivos tio e pai no trabalho de pesca e coleta de pérolas. Nas muitas horas vagas, exploram as redondezas. Numa ilha, encontram um barco ancorado estranhamente numa árvore e decidem tomar posse dele.
O barco tem dono e ele é Mud (Matthew McConaughey), um fugitivo da polícia que precisa consertá-lo para fugir. Ele ganha a admiração dos meninos, especialmente de Ellis, por um ponto fraco: Mud só está ali por conta de um encontro marcado com Juniper (Reese Witherspoon), seu grande amor e também a responsável pela confusão em que está metido e vai causar muito tiroteio à frente, com a decisiva participação do misterioso Tom Blakenship (Sam Shepard). Enfim, o um filme é uma delícia de ver e pode ter uma boa carreira comercial. Cannes deve ser uma boa plataforma de lançamento.
Dallas coreano
Um outro tipo de diversão, não para todos os gostos, veio no penúltimo concorrente, o segundo sul-coreano, The Taste of Money, de Im Sangsoo. Escalando novamente um grupo habitual de atores, como a atriz Yoon Yeo-jeong, sua protagonista em The Housemaid
(concorrente à Palma em 2010), o diretor entrega um verdadeiro novelão, à la Dallas, o seriado, em torno de uma família criminosa, rica e corruptora de autoridades e políticos.
(concorrente à Palma em 2010), o diretor entrega um verdadeiro novelão, à la Dallas, o seriado, em torno de uma família criminosa, rica e corruptora de autoridades e políticos.
No material de imprensa, o diretor coreano destacou ter pretendido fazer um comentário político, já que o atual governo de seu país, que terá eleições em dezembro, não raro é comparado ao do ex-premiê Silvio Berlusconi. Esta nota política, porém, fica bem subliminar no desenrolar rocambolesco-erótico da história, que envolve uma matriarca (Yoon Yeo-jeong) enfurecida porque seu marido a deixou pela empregada filipina e passa a envolver-se com uma sangrenta vingança e também com um atraente jovem empregado do clã (Kim Kang-woo), que por sua vez não é indiferente à bela filha da patroa (Kim Hyo-jin). Novela brasileira perde feio deste conglomerado de incidentes cômicos, violentos, sexuais. Mas o rocambole tem seus fãs.
Não parece o tipo de filme que um júri presidido por Nanni Moretti premiaria, mas nunca se sabe. A Palma de Ouro, que será entregue neste domingo à noite, tem alguns favoritos, mas nenhum que pareça unanimidade. Tudo pode acontecer: podem ganhar os que nunca venceram, como o ucraniano Sergei Loznitsa e seu belo relato dostoievskiano In the Fog (V Tumane), ou o mexicano Carlos Reygadas e seu enigmático Post Tenebras Lux; o dinamarquês ThomasVinterberg e seu sóbrio drama The Hunt; ou vencedores de Palmas anteriores, como o romeno Cristian Mungiu e seu severo Beyond the Hills, ou o austríaco Michael Haneke e seu drama sobre a velhice, Amour. Ou praticamente qualquer outro filme. Este ano a Palma está bem imprevisível.
Prêmios Cinéfondation e Quinzena dos Realizadores
Outra premiação que já foi divulgada aqui foi da seção Cinéfondation, que seleciona curtas-metragens de conclusão de cursos de cinema de todo o
mundo. O júri presidido pelo cineasta belga Jean-Pierre Dardenne e integrado por Arsinée Khanjian, o brasileiro Karim Aïnouz, Emmanuel Carrère e Yu Lik-Wai,
premiou estes trabalhos: em primeiro lugar, o russo Doroga Na, de Taisia Igumentseva (que ganhou 15.000 euros); em segundo, o norte-americano Abigail, de Matthew James Reilly (11.250 euros); e, em terceiro, o cubano Los Anfitriones, de Miguel Angel Moulet (7.500 euros).
mundo. O júri presidido pelo cineasta belga Jean-Pierre Dardenne e integrado por Arsinée Khanjian, o brasileiro Karim Aïnouz, Emmanuel Carrère e Yu Lik-Wai,
premiou estes trabalhos: em primeiro lugar, o russo Doroga Na, de Taisia Igumentseva (que ganhou 15.000 euros); em segundo, o norte-americano Abigail, de Matthew James Reilly (11.250 euros); e, em terceiro, o cubano Los Anfitriones, de Miguel Angel Moulet (7.500 euros).
O vencedor do primeiro prêmio desta seção também ganha o direito de ter seu primeiro longa exibido futuramente na programação de Cannes – o que já ocorreu com o cineastaa brasileiro Duda Valente, que venceu o Cinéfondation com Um Sol Alaranjado (2003) e teve exibido aqui seu longa de estréia, No Meu Lugar (2009).
Na seção paralela Quinzena dos Realizadores, o prêmio concedido pela CICAE (Confederação dos Cinemas de Arte) coube ao filme chileno No, de Pablo Larrain, que trata das duas campanhas em torno de um plebiscito, em 1988, que decidiu sobre a continuidade do governo ditatorial de Augusto Pinochet. Também na Quinzena, o drama argelino Le Repenti, de Merzak Allouache, levou outro prêmio, este concedio pelo Label Cinema Europa.
Já a Fipresci - Federação Internacional dos Críticos - premiou três filmes, um de cada mostra, como o melhor. Na seleção oficial, o ucraniano In the Fog, de Sergei Loznitsa no Un Certain Regard, o norte-americano Beasts of the Southern Wild, de Benh Zeitlin, e na Quinzena, Rengaine, de Rachid Djaidani.
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