Mestres brincam com a narrativa em Cannes
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 21/05/2012
- Tempo de leitura 5 minutos
Cannes – Seguindo a velha máxima de que o melhor fica para o fim, vem melhorando dia a dia o nível da competição pela Palma de Ouro. Neste domingo, foram exibidos três candidatos que, cada um de seu jeito, investem na sofisticação da narrativa e da permeabilidade do cinema pelas outras artes. Em compensação, o tempo foi o pior da semana, com chuva, vento e frio desafiando a disposição dos cinéfilos, que tiveram de suportar filas debaixo de tudo isso, com guarda-chuvas vacilando diante da força da tempestade na Riviera, que já devia estar ensolarada a esta altura da primavera.
Pelo menos, dos filmes não se pode reclamar. O iraniano Abbas Kiarostami mais uma fez filmou longe de casa, desta vez no Japão, o delicioso e envolvente Like Someone in Love (foto acima), uma coprodução franco-japonesa. Impressionantemente à vontade dentro do ambiente e da psicologia nipônicas, Kiarostami construiu um relato em que as aparências confundem, os fios se desfazem e o espectador é levado a deixar-se conduzir pela própria imaginação, que é a melhor viagem que se pode fazer no encontro com uma obra de arte.
A história dispara com Akiko (Rin Takanashi), jovem garota de programa, que namora um mecânico ciumento (Ryo Kase). Uma noite, em que ela pretendia encontrar sua avó, que está na estação de trem para uma brevíssima visita, ela é desviada para um encontro com um velho professor e tradutor (Tadashi Okuno).
A partir daí, outros personagens interferem e a relação entre Akiko e o professor muda ao sabor de inúmeros incidentes, que fazem o espectador perder todas as suas certezas pelo caminho – o que realmente está acontecendo aqui? Pouco importa, já que o percurso é estimulante.
A fotografia de Katsumi Yanagijima introduz cenários da cidade de Tóquio a todo momento, diretamente ou por janelas, neste que é quase um road movie pela capital japonesa, passando-se boa parte dentro de carros – tão ao gosto de Kiarostami, como se viu em Gosto de Cereja (sua Palma de Ouro aqui, em 1997) e Dez . Like Someone in Love, por sua vez, é o tipo de filme que melhora quanto mais se pensa nele.
Salve o teatro
O quase nonagenário francês Alain Resnais assinou outro primor de inteligência em Vous n’avez encore rien vu (foto ao lado). Ocupando-se do desnudamento da extrema cumplicidade que há entre as artes, ele parte de um roteiro de Laurent Herbiet e Alex Réval, que por sua vez costura fragmentos de duas peças do autor francês Jean Anouilh, Eurydice e Cher Antoine, ou l’Amour Raté.
Um dramaturgo, Antoine d’Anthac (Denis Podalydés), morre e determina, como último desejo, que uma trupe de amigos atores autorize ou não uma nova montagem de sua peça, Eurydice, por um jovem grupo.
O enredo trata desta observação da filmagem desse ensaio – realizado pela Compagnie de la Colombe, dirigida na vida real por Podalydés – por um dos mais refinados elencos de atores franceses que se pode imaginar, formado por Sabine Azéma, Mathieu Amalric, Lambert Wilson, Pierre Arditi, Anne Consigny e outros. Todos eles participaram de montagens anteriores da peça vista no filme e interagem com ele. E usam seus nomes reais, apagando de vez as fronteiras entre encenação e realidade, passado e presente, evidenciando essa capacidade do cinema de tudo poder, tudo criar. Longa vida, monsieur Resnais!
Engraçada Isabelle
Outro que brinca com as fronteiras entre três histórias num filme só é o sul-coreano Hong Sangsoo (vencedor do Um Certo Olhar 2010 com Hahaha), em sua nova comédia In Another Country (foto ao lado), outra delícia de assistir, falada em inglês e coreano. Investindo de novo em sua veia cômica, como fez em Copacabana, a usualmente séria Isabelle Huppert estrela a história, interpretando três personagens, que nada mais são do que três direções que um roteiro em preparo pode ou não assumir.
A trama mínima coloca uma jovem estudante de cinema (Jung Yumi) e sua mãe (Park Sook, de Hahaha) na cidade litorânea de Mohjang, depois que um tio da moça colocou-as numa enrascada por conta de dívidas. Enquanto as coisas sossegam, a moça escreve o roteiro para um curta. Daí saem as três versões que colocam Isabelle primeiro como uma diretora de cinema que tem uma história com um colega coreano casado (Kwon Hyehyo), cuja mulher está grávida (Moon Sori) ; depois como uma mulher rica e casada que tem um caso com um diretor de cinema coreano (Moon Sungkeun); e finalmente como uma mulher abandonada pelo marido que viaja com uma amiga e tem um romance com um salva-vidas (Yu Jungsang) – que é, aliás, o personagem mais engraçado do filme.
Como é seu estilo, o diretor coreano embaralha as histórias e os personagens, mostrando que o cinema, como a vida, é a sucessão de uma série de pequenos acasos. E assina uma história que tem um ar de Jacques Tati.
O extremo sul
Uma das melhores atrações da mostra Um Certo Olhar vista nos últimos dias foi o norte-americano Beasts of the Southern Wild (foto ao lado), do estreante Benh Zeitlin – que concorre ao prêmio Caméra d’Or, cujo júri é este ano presidido pelo brasileiro Cacá Diegues.
Vencedor de dois prêmios em Sundance 2012 – Grande Prêmio do Júri e fotografia -, o filme é um consistente e por vezes aterrador mergulho no universo violento do sul-americano, visto pelos olhos de uma menininha, Hushpuppy (a impressionante Ouvenzhané Wallis), e seu pai Wink (Dwight Henry), num mundo prestes a ser engolido pelas águas em que o poder da imaginação, às vezes das crendices, e também as relações humanas são as únicas ferramentas à mão para resistir à pobreza e à discriminação.
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