George Clooney rouba a cena na coletiva de "Gravidade" com respostas políticas e humor
- Por Neusa Barbosa, de Veneza
- 28/08/2013
- Tempo de leitura 4 minutos
Veneza - Um atraso de meia hora – alegadamente por problemas técnicos com alguns dos óculos 3D na primeira sessão da história do festival, fundado em 1932, realizada neste formato – e o habitual tumulto em torno do ator George Clooney foram os principais incidentes da primeira exibição da ficção científica “Gravidade”, de Alfonso Cuarón, no 70º Festival de Veneza, nesta manhã de quarta (28).
Na coletiva do filme, à tarde, Clooney foi, mais uma vez, alvo de perguntas inusitadas e fora do filme – como se acreditava que o presidente norte-americano Barack Obama deveria mandar tropas à Síria. Sem nunca perder o bom humor, o ator respondeu: “Estava esperando esta pergunta. Isto e mais questões sobre Ben Affleck (cuja escolha como o novo Batman, papel que já foi de Clooney, vem despertando polêmicas)”. Depois das risadas que dominaram a sala de coletivas, ele continuou, agora mais sério: “A verdade é que não tenho como responder a isso” (a questão da Síria).
Satélite sobre o Sudão
Outra pergunta política referiu-se a um satélite, financiado por Clooney, para monitorar a instável situação do Sudão. Clooney confirmou sua participação nisso: “É nosso dever lançar alguma luz sobre esses lugares. E, felizmente, posso dizer que agora os ataques àquele país têm diminuído, ocorrendo à noite ou atrás de nuvens”. Quebrando a seriedade do tema, voltou-se para o jornalista que fizera a pergunta e disse: “Estou de olho em você, cara!”.
Roupa de baixo
Falando especificamente do filme, na verdade, protagonizado por Sandra Bullock (Clooney participa apenas de um terço da ação), o ator fez altos elogios ao roteiro de “Gravidade” – que tem estreia prevista para 10 de outubro no Brasil – e que é assinado por Alfonso Cuarón e seu filho, Jonas Cuarón. “Nos últimos 50 anos (o ator tem 52), tenho procurado os melhores roteiros. Não são todos os atores que podem ter esse tipo de escolha. Aqui eu tinha o melhor de três elementos: produtores, roteiristas e diretor”.
Mas o melhor papel, voltou a brincar o ator, era de Sandra Bullock – que interpreta uma oficial médica, Ryan Stone. No entanto, Clooney disse que ele “não queria aparecer de roupa de baixo”, o que ocorre com Sandra em mais de uma cena, inclusive na final, dentro de naves à deriva ou danificadas.
Quanto ao preparo físico necessário aos dois, o ator fez outra piada: “Eu e Sandra praticamos ioga Bikram juntos”. Na verdade, o maior esforço foi mesmo de Sandra, que falou com diversos astronautas que tinham vivido a situação de estarem numa estação espacial; e filmou várias cenas num compartimento mínimo, encaixada numa máquina da cintura para baixo.
Claustrofobia
A maior parte da história de “Gravidade” é realmente bem claustrofóbica, com seus dois protagonistas lançados no espaço, numa situação de risco, necessitando encontrar uma nave que possa trazê-los de volta à Terra, depois de explosões espaciais e chuva de fragmentos.
Sandra afirmou que as conversas com os astronautas a ajudaram muito. “Eu fazia as perguntas mais bizarras, do tipo ‘o que acontece com seu corpo sob gravidade zero’? E conheci pessoas incríveis, com um amor apaixonado por aquilo que faziam e pelo universo. Isto realmente te faz ter humildade”, disse.
Para o diretor Cuarón (de “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban”), a preocupação com a verossimilhança, a partir de contatos com inúmeros consultores técnicos, foi contrabalançada com um foco no entretenimento. “Preocupamo-nos em nos informar como um objeto empurra outro no espaço, por exemplo. Mas nem por isso deixamos de tomar liberdades. Nunca tivemos a intenção de que nosso filme parecesse um documentário”.
Outra preocupação era com os próprios atores. “Tivemos cuidado em como os atores absorveriam todas aquelas informações sobre a perda da gravidade. De várias maneiras, sua interpretação teve que ser bem abstrata, reagindo a marcas e deixas muito específicas. É muito difícil criar uma performance a contento nestas condições. O que fizeram é realmente espantoso”, observou o diretor.
Cuarón também admitiu que há um “aspecto metafórico” na própria escolha do espaço sideral como cenário de sua história. “Quando começamos a desenvolver o roteiro, fomos atropelados pela crise econômica e tivemos de repensar tudo. Focamos na ideia de adversidade e na possibilidade de renascer. E é óbvio que o renascimento é também uma aceitação da morte, ainda que seja a jornada de uma personagem para sair da bolha e voltar à Terra”.
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