20/09/2026

A cinco dias da premiação, "Philomena" continua favorito em Veneza

Veneza – Faltando cinco dias para a premiação, que ocorre no sábado (7-9), as apostas tanto do público quanto dos críticos, registradas pela edição diária da revista italiana Ciak in Mostra (que voltou a circular), apontam na mesma direção – o concorrente inglês Philomena, de Stephen Frears.

Philomena é mesmo o melhor de dois mundos, ou seja, um filme com uma grande história, grandes atores (Judi Dench e Steve Coogan), um esplêndido diretor veterano em grande forma (Stephen Frears, que foi contratado para dirigir o filme), ritmo preciso entre todas as emoções, um bom equilíbrio nas doses de melodrama e um humor muito adequado se infiltrando em todas a brechas. Merece tudo, prêmios, sucesso de bilheteria, tudo mesmo.

Para completar, Philomena traz novamente à tona os crimes cometidos em conventos católicos irlandeses, retirando crianças de suas jovens mães solteiras, obrigadas a trabalhar ali dentro, e doando seus filhos para adoção, uma prática que vigorou até os anos 60. O trabalho virtualmente escravo dessas moças, pobres e abandonadas pelas famílias por moralismo, já havia sido abordado anteriormente em Veneza, em 2002, no filme Em Nome de Deus, de Peter Mullan.

Não deixa de ser curiosa essa consagração no festival de um filme, na verdade, de narrativa clássica, que não se lança a grandes voos formais ou estéticos, mas dá conta de tudo o que o cinema pode oferecer, em termos de reflexão e entretenimento, de uma forma extremamente segura e natural. Quando todos esses fatores se juntam, tem-se o grande cinema. Cinema para adultos, no caso.

Humanismo
Também não foi novidade, mas atingiu o alvo com a habitual mistura de maestria e delicadeza o drama político Ana Arabia, do veterano israelense Amos Gitai, que novamente voltou ao tema da convivência conflituosa entre árabes e judeus. Se o tema é recorrente em sua cinematografia (como em Kedma e Free Zone), é sinal de que essa realidade brutal e incômoda não se esgota e necessita mesmo ser abordada, hoje, amanhã, todo o tempo, enquanto não se resolver o impasse que atormenta esse pedaço do mundo.

Filmando em plano-sequência contínuo por uma hora e 24 minutos, Gitais cria uma sutil sofisticação formal (também não inédita, inclusive em sua obra). O recurso está ali não por virtuosismo ou vaidade, mas como ferramenta eficiente para acompanhar a visita de uma jovem repórter israelense, Yael (Yuval Scharf), a um bairro pobre de Jerusalém, habitado em sua maioria por árabes muçulmanos. Ela vem ali resgatar a história de uma mulher que morreu, Siam Hassan, uma judia polonesa, sobrevivente de Auschwitz que, ainda muito jovem, se apaixonou por um muçulmano e se converteu, sofrendo todo tipo de pressões por parte da família.

Yael entrevista o viúvo, Yussuf (Yussuf Abu-Warda), seus filhos, a nora Sarah (Assi Levy) – outra judia que se casou com muçulmano -, os filhos de Yussuf, os vizinhos. Aos poucos, descobre histórias ali que valem a pena, tanto quanto a de Siam. Nestes relatos, está a memória da discriminação contra os árabes – mais maltratados do que os recentes imigrantes russos, como lembra um deles -, vivendo pobremente, com trabalhos instáveis, numa espécie de favela, onde eles tentam, apesar de tudo, criar uma zona de conforto e uma rede de solidariedade, o que não exclui a repórter. Afinal, ela se dispôs a ouvi-los.

Nessa estrutura bastante simples, a partir de um roteiro escrito por Gitai e sua habitual colaboradora, Marie-Josée Sanselme, o diretor assina mais um manifesto humanista. Não faz mal a ninguém ouvir de novo o recado.

Primeira vaia
Coube à ficção científica inglesa Under the Skin, de Jonathan Glazer (de Reencarnação), a discutível primazia de receber a primeira – e expressiva - vaia das sessões de imprensa deste festival, nesta manhã de terça (3-9).

Filmado na Escócia e tendo como protagonista a atriz norte-americana Scarlett Johansson – na pele de uma alienígena literalmente devoradora de homens, uma espécie de vampira -, o filme adapta o livro homônimo do holandês Michel Faber. Mas perde-se numa inexplicável frieza e distanciamento, que não consegue criar nem terror nem empatia e, pior, nem originalidade ou grandes sequências visuais.

Uma das poucas cenas a se notar é aquela que revela a sinistra estrutura gelatinosa, escondida no chão da casa da alien, que suga os homens solteiros e solitários que ela atrai ali, para posterior deglutição. Entre suas vítimas, está o ator escocês Paul Brannigan, protagonista da comédia A Parte dos Anjos, de Ken Loach. Mas, enfim, ficção científica por ficção científica, andou melhor outro concorrente ao Leão, The Zero Theorem, de Terry Gilliam, exibido ontem, que também anda bem classificado nas apostas de público e crítica registradas pela Ciak in Mostra.